TRANSCRIÇÕES
O PATRIARCA DE JUAZEIRO
Padre Azarias Sobreira
Quem quer que se propôs, até hoje, estudar a figura do Patriarca de Juazeiro, viu-se embaraçado entre os hosanas populares e o tom reticente e suspicaz das classes pensantes.
Como quase todos os de minha geração que perto dele abriram os olhos, comecei por venerá-lo desmesuradamente. Menino ingênuo e, como tal, amigo do maravilhoso, descobri nele, até aos quatorze anos, a expressão máxima da virtude cristã de que fosse capaz um mortal. — Página 12.
Seu Padre Cícero fala com Deus, — confiava-me, convencido, um colega de escola, o Augusto, que não era menino leviano. — Fique sabendo que ele fala com Deus, da mesma forma que eu estou lhe falando. Na terra toda, há dois padres santos: o Papa em Roma e o Padre Cícero em Juazeiro. — Página 14.
Vocês vivem muito enganados com esse padre, — proclamava, a meia voz, do alpendre da sua casa de sítio, o major Rocha, velho conterrâneo, desabusado e livre-pensador. O Padre Cícero começou missionário, vai ficando milionário e acabará revolucionário. Aquela bondade não é mais nem menos que um jeito especial de pegar gente para o próprio partido. Quando se sentir bem forte, o estouro será medonho, e triste de quem morar aqui. — Página 14.
A todas essas vozes dissonantes, o Padre Cícero se conservava sistematicamente alheio. Nem procurava os contraditores, a título de reconciliação ou ajuste de contas; nem deles fazia menção, salvo de longe em longe, e sempre em tom displicente. Dir-se-ia que, em lugar de aborrecê-los, comprazia-se em conservá-los perto de si. — Páginas 14-5.
Se acrescentarmos que, no Juazeiro de outrora, como em toda parte, havia também uma boa percentagem de pessoas indiferentes, que não se pronunciavam sobre o caso religioso da terra, mas viam no velho sacerdote um elemento benfazejo, terei enumerado os diversos naipes em que se dividia a opinião pública urbana, nos tempos de minha infância.
Pode-se afirmar, entretanto, que setenta por cento da localidade tinham-no em grande conta e lhe obedeciam como a um pai das eras bíblicas. — P. 15.
Chegou, porém, a adolescência e instintivamente comecei a enxergar o universo sob prismas impressionados e deslumbrantes. A razão passou a pedir-me contas de minhas crenças e, dentro em pouco, secundado pelo ambiente de colégio, não raro zombeteiro e irreverente, atirou fora, desdenhosamente, muita coisa querida que me embalara a imaginação.
Na correnteza fatal desapareceu, não sem dor n'alma, o primitivo conceito do capelão de minha terra. Houve, todavia, um, entre outros fatores, que paulatinamente decidiu da modificação dos meus sentimentos de hostilidade.
É o que vai ser objeto das páginas deste livro. — Página 15.
Têm-se-lhe incriminado, como indício de megalomania ou vaidade um tanto patológica, dois telegramas que, em diversas oportunidades, endereçou ora ao Imperador Francisco José, da Áustria-Hungria, ora ao Czar, da Rússia, sugerindo-lhes providências diplomáticas em favor de povos indefesos, cuja sorte lhe inspirava profunda compaixão, enchendo manchetes da imprensa internacional.
Pelo que me toca, a mim, que procurei entrever-lhe os propósitos e perscrutar as próprias raízes de seus pronunciamentos, nada disto me causa estranheza.
É que o Patriarca de Juazeiro, na sua otimista concepção da humanidade, não via, efetivamente, cabeças coroadas nem mesmo infiéis ressumantes de ódio ao cristianismo. — Página 66.
O PADRE CÍCERO QUE EU CONHECI
Amália Xavier de Oliveira
Diariamente aconselhava a milhares de pessoas que se postavam em frente à sua casa para receberem a bênção que era dada depois que rezavam o rosário e ouviam os conselhos. Não raro faziam-lhe perguntas sobre o inverno, sobre os de suas famílias que estavam ausentes; pediam-lhe remédio para todas as doenças. A todos ele atendia com palavras de conforto. Por onde passava, o povo se levantava respeitosamente pedindo-lhe a bênção e ele abençoava recomendando que "rezassem o rosário da Mãe de Deus". — Página 42.
Seu zelo apostólico desenvolvia-se em Juazeiro e sua fama de santidade corria numa grande extensão. Às vezes andava a cavalo para ir ao Crato ou celebrar na Capela do Buriti. Ia sempre acompanhado por muita gente, aproveitando para rezar o Rosário. Depois arranjaram-lhe um carro de luxo porém puxado por uma junta de bois. — Página 42.
Não descurou a instrução dos poucos habitantes. Já havia em Juazeiro, antes de sua chegada, a escola regida pelo seu amigo professor Semeão Corrêa. Faltava uma escola para meninas e ele procurou arranjar. Não podemos precisar se foi logo a escola regida por D. Naninha, moça do Riacho do Sangue que criou a beata Mocinha e aqui chegou lá pelos idos de 1875 ou 1876. — Página 43.
Meus avós maternos residiam na casa onde ainda resido com minhas irmãs à rua Pe. Cícero, n.º 102. Minha Mãe, que contava apenas seis anos de idade quando ele aqui chegou, dizia que muitas vezes ele ia conversar com meu avô e lhe pedia uma brasa para acender um cigarro de palha de milho que ele mesmo fazia na hora que queria fumar. Ela levava-lhe a brasa numa colher e esperava que ele acendesse o cigarro para poder entrar. — Páginas 43-4.
No seu zelo apostolar, saía muitas vezes à noite pelas imediações do arruado para ver o que estavam fazendo as ovelhas que naquele dia não havia visto o Pastor. Às vezes lhe chegava a notícia de que estava havendo um "samba" em lugar mais afastado. Para lá se dirigia. Para dissolver a festa era bastante que algum mais esperto, ao avistar o Padre, gritasse para os outros: "Lá vem seu Padre." Corriam todos, saindo em primeiro lugar os tocadores. — P. 44.
Logo em
O Pe. Cícero começou a arrumar o pessoal para trabalhar pela construção de uma nova Capela, no mesmo local, capaz de comportar o povo. Concitou toda a população para o trabalho; todos teriam que cooperar. Era preciso fazer tijolos, telhas, arrancar e carregar pedras até o pé da obra, cortar madeira para os andaimes, preparar linhas, caibros, ripas, portais, enfim, fazer os trabalhos necessários à realização do plano traçado. — Página 46.
Veio a seca de 1877 quase paralisando os trabalhos, pois o pessoal teria que "ganhar as caatingas" à procura de macambira, mucunã e outras "comidas brabas" com que se alimentavam naquela época para não morrerem de fome. — Página 46.
No dia 19 de agosto de 1884 houve a sagração do altar de pedra da Capela do SS. Sacramento, por D. Joaquim José Vieira, naquele dia encerrando a visita pastoral da Paróquia do Crato, à qual pertencia a Capela de Juazeiro. — p. 47.
Construindo a nova igreja, alongando as ruas, ocupando o povo no plantio de mandioca na região, desenvolvendo a agricultura, criando e arranjando com quem de direito, escolas para crianças de ambos os sexos, ia o Pe. Cícero promovendo o desenvolvimento do povoado que ele tomou conta com cerca de 30 e poucas casas e uma capelinha. — Página 49.
E quando em 1917 apareceu em Fátima a Virgem do Rosário recomendando a reza do terço diariamente, em Juazeiro já o Pe. Cícero havia colocado no pescoço dos seus filhos o "Rosário da Mãe de Deus", como ele chamava, e ensinava a dedilhar diariamente suas contas, como meio seguro de obter as graças dos Céus. — Página 303.
Seguindo o caminho de todos os mortais, entregou su'alma a Deus no dia 20 de julho de 1934. Assisti-lhe os últimos momentos ajoelhada à cabeceira do seu leito de morte, rezando o terço. Enxuguei-lhe o suor da morte e recolhi sua última lágrima.
Ouvi suas últimas palavras: "No céu pedirei a Deus por vocês todos." — Página 304.
Os 45 mil habitantes do Juazeiro (naquela época), o povo da Serra do Araripe, Serra de São Pedro, Aurora, Ingazeiras e outros lugares corriam a ver o corpo do grande Patriarca. A ninguém passou indiferente o doloroso quadro da morte do grande homem.
24 horas de exposto (numa das janelas da casa do falecido); 24 horas de dores, lamentos, aflições. E o que mais nos edificou: todos quantos acorriam a ver o cadáver, vinham depois para a igreja, como a procurar aos pés de Nossa Senhora das Dores o consolo necessário. — Página 306.
MILAGRE EM JOASEIRO
Ralph Della Cava
A Comissão de Inquérito chegou a Joaseiro nos primeiros dias de setembro de 1891. Compunha-se de dois membros: Padre Clycério da Costa Lobo, chefe-comissário, e Padre Francisco Ferreira Antero, secretário. Pe. Clycério tinha 52 anos de idade e era padre havia quase 30 anos. Depois de seus estudos em Olinda e sua ordenação na Bahia, residiu, por uns tempos, no Rio de Janeiro. A pedido do primeiro bispo do Ceará, retornou a Fortaleza na qualidade de secretário particular de Dom Luiz e principal organizador do Seminário. Sob Dom Joaquim, Pe. Clycério foi o responsável pelo plano do primeiro Sínodo Diocesano do Ceará, em 1888. Pelos serviços que prestou à Igreja, mereceu a nomeação para o cargo de arcebispo da Bahia, o mais antigo e mais importante bispado do Brasil, honra que ele, modestamente, recusou.
P.e Antero era originário de uma família proeminente de Icó e que já dera vários filhos ao sacerdócio. Estudou em Roma e foi ordenado no Colégio Pio Latino-americano, em 1878. Para um homem de 36 anos, já demonstrava notável habilidade como doutor em teologia sagrada e, no momento de sua visita a Joaseiro, estava sendo cogitado por Dom Joaquim para candidatar-se a um bispado vago em algum ponto do Brasil. Pelos fatos acima, não há dúvida de que Dom Joaquim nomeara dois homens competentes, insuspeitos, quanto à piedade e ao saber, e de reconhecidos serviços prestados à Igreja. Não lhes escaparia qualquer irregularidade nos "fatos de Joaseiro". — P. 56.
Durante os últimos dias do Patriarca, a enfermidade, a cegueira e a idade conspiraram com a relutância de sua Igreja em impedi-lo de fazer a última e tão almejada viagem a Roma sobre a qual escrevera ao Padre Rota e da qual ele acreditava que resultaria a sua reintegração. Em vez disso, nas primeiras horas do dia 20 de julho de 1934, o nonagenário embarcou naquela última jornada da qual nem patriarcas nem políticos podem escapar. Momentos antes de sua morte, ele levantou o braço e, em desobediência a todas as proibições do passado, traçou no ar três sinais da cruz, falecendo logo a seguir. — Página 256.
A TERRA DA MÃE DE DEUS,
Luitgarde Oliveira Cavalcanti Barros
O Padre Cícero foi o padrinho de milhares de sertanejos, "meu padrinho" para milhões de nordestinos. Antes de tudo ele foi o sertanejo que viveu os códigos de sua cultura, encarnou o protótipo, o modelo do padrinho protetor, reivindicando até a interferência divina para sê-lo. No sonho que relatamos, Cristo ordenando-lhe que protegesse seus filhos desamparados, nomeia-o padrinho daquela gente. Vivendo integralmente o papel cultural, recebeu dos afilhados o título honorífico, foi o "meu padrinho", o guia, o chefe, o líder de gerações de seguidores que, longe de diminuírem em número com a distância do tempo, aumentam, pela comparação da vida dele com a prática da vida moderna, desagregadora e desamparadora. As estatísticas das romarias de Juazeiro apontam o crescimento do número de adeptos, de afilhados do Padre Cícero. — Página 173.
Relacionando os exemplos cristãos com a vida rotineira do homem, vinculando os princípios de honradez, coragem, hospitalidade, trabalho, resistência ao sofrimento, respeito aos mais fracos, às próprias palavras do evangelho, à vida de Cristo e dos Santos, estendia-se com os matutos por horas infindas. Dava-lhes conselhos ensinando-lhes métodos mais atualizados de agricultura, orientando-os no uso da medicina popular sertaneja, admoestando-os, numa linguagem clara, para uma forma mais amigável de convivência. Só se afastava dos romeiros para os trabalhos do sacerdócio e a leitura. Em sua biblioteca constatamos o uso continuado do "Formulário e Guia Médico" de Chernoviz, o que indica a preocupação com o aprendizado de uma orientação médica que pudesse seguir, no atendimento àqueles milhares de analfabetos que o procuravam se queixando de todo tipo de doenças. — Página 174.
O acervo de conhecimentos do Padre Cícero entusiasmou o botânico alemão Philipp Von Lueztzelbug que, a serviço da Inspetoria Federal de Obras contra as Secas — do Ministério da Viação e Obras Públicas, passou no Juazeiro em 1921. De sua viagem publicou o livro "Estudo Botânico do Nordeste", publicação n.º 57, série I, daquele Ministério, em 1923. Na página 59 deste livro, se lê:
"Naturalmente, para mim, se tornou de capital importância conhecer e falar com o Padre Cícero e tive o prazer de, à minha chegada, ser recebido e ter animada palestra com o mesmo. Este velho, de real prestígio popular, deixou-me gratas recordações. Tratou-me com delicadeza e amabilidade. De fato, trata-se de um homem que dispõe de instrução e saber invulgares: aborda com igual facilidade a política e a história brasileira; tem conhecimentos profundos de história universal, ciências naturais, especialmente quanto à agricultura. Os institutos científicos deviam entrar em contato com aquele homem que dispõe de conhecimentos excepcionais com relação à Paleontologia, Geologia e História, adquiridos parte por observações e estudos pessoais, parte pelas indicações que colhe de seus inúmeros fiéis e romeiros, que das paragens mais longínquas trazem ao 'Padrinho' tudo aquilo que encontram de esquisito e extraordinário... Poderia o leitor objetar que pouca importância se deve dar aos achados dos romeiros, geralmente sem instrução. Contudo, devo notar que tive oportunidade de estudar a curiosa coleção do Padre Cícero, onde encontrei material preciosíssimo..." — P. 175.
O Padre Cícero acreditava tanto que Nossa Senhora das Dores enviara para Juazeiro os necessitados, que não se permitia deixar de atender quem o procurasse, fosse pobre, rico, criminoso, beato, louco ou portador de doença contagiosa. M. Diniz ouviu o padre fazer a seguinte pregação aos romeiros um dia, na hora da bênção em sua casa: "Vocês, que vêm de suas terras distantes, do sul de Alagoas e Pernambuco, dos Brejos da Paraíba, das praias do Rio Grande do Norte e deste Estado, ou dos longínquos sertões do Piauí, Maranhão e Bahia, sofrendo privações, a fome, a sede, o sol e as intempéries dos longos caminhos, tudo por amor a visitar Nossa Senhora das Dores e o Padre Velho do Juazeiro, fiquem certos de que a Mãe de Deus recompensará a todos. E quanto a mim, não acreditem no que propalam, dizendo que vou deixar este lugar. Não acreditem, porque o Juazeiro é uma cidade da Mãe de Deus, e ela foi quem me colocou aqui. E nem o Satanás, nem os homens de Satanás têm poder para me tirar desta cidade, a qual só deixarei quando completar a salvação de vocês todos." — Página 178.
O PADRE CÍCERO POR ELE MESMO
Therezinha Stella Guimarães e Anne Dumoulin
Em 1886, D. Joaquim responde a uma carta do P. Cícero:
"... Tenho a satisfação de responder-lhe atendendo às peculiares condições da Capela de Juazeiro, onde reside um sacerdote ilustrado e zeloso, estou autorizado a conceder-lhe a faculdade de conservar o Santíssimo Sacramento para aumento da piedade dos fiéis e cumprimento dos seus deveres religiosos... N. Senhor lhe conserve o fervor e lhe console nos transes dos ofícios da vida. Ore sempre pelo seu servo e amigo". — Página 12.
Depois de 1890, D. Joaquim muda radicalmente de opinião. Por exemplo, ele faz um relatório ao Internúncio, nestes termos:
"... O P. Cícero, homem original e principal protagonista da deplorável comédia, respondia sempre com equívocos... A este sacerdote, que não é sincero, só tenho permitido celebrar o Santo Sacrifício da Missa... Darei mil graças a Deus se o dito sacerdote, efetivamente, retirar-se desta diocese, onde só pode fazer o mal". — Página 13.
O P. Cícero não foi político por gosto, como veremos no capítulo consagrado a este tema. Numa carta ao Dr. José Geraldo, contando o falecimento de Dr. Floro, o político do padre, ele confiava:
"... Como deve saber, em face de minha qualidade de sacerdote, em face da afastada vida que levo e em face da minha idade, não me é possível cuidar pessoalmente da administração do município e estar, constantemente com a solução de muitos casos de toda ordem que impõe uma chefia política. De tudo isso, portanto, era encarregado Dr. Floro..." — Página 47.
PADRE CÍCERO E JUAZEIRO
Padre Neri Feitosa
A singularidade ou curiosa personalidade revela-se nas atitudes de vida ou de vivência, que desconcertaram os observadores. Valham duas amostras: o Padre Cícero foi rico? O Padre Cícero foi pobre? — Página 16.
Bens lhe deram em abundância e seu testamento o confirma. Tinha um modo de possuir os bens, permitindo a outros o usufruto, de forma a ter só o domínio radical, como descrevem Otacílio, Floro e Reis Vidal. E assim era rico e pobre, a um só tempo, enriquecendo outros. O mistério de sua pessoa transmitia-se a seu modo de tratar os bens terrenos. Os Salesianos encontraram pouca fortuna, na condição de herdeiros, ao chegarem a Juazeiro, cinco anos após a morte do Patriarca. — Páginas 16-7.
(Citando Floro): "Aquela figura legendária era, fisicamente, insignficante: tinha os pés pequenos, o cabelo escovinha, arrepiado, no qual passava a mão constantemente, cara de índio, o ângulo facial muito aberto".
É esta figura insignificante que implodiu no desconhecido Juazeiro um movimento de força atômica cuja fumaça dourado interrogou o planeta terra e fez do Juazeiro um centro geográfico no mapa nacional. — Página 17.
Homem extraordinário, figura desconcertante, caso especialiíssimo, estranha personalidade, mistério a decifrar, um dos maiores carismados da fé cristã mandado por Deus nestes dois mil anos de catolicismo. — Página 17.
CONSELHOS E DECLARAÇÕES DO PADRE CÍCERO
· Ânimo, deixe
tudo o que Deus não quer!
· Dê o primeiro passo e o resto o
nosso bom Deus fará.
· Quando Deus quer, água fria é
remédio.
· O demônio é como o vento que
existe e ninguém vê.
· Ninguém pegue do alheio, ainda que
seja uma simples agulha.
· Jogo, mulher e
cachaça é um
trio de perdição.
· Eu nunca combino com revolução.
· O melhor lugar é o que de onde
mais facilmente se vai para o céu.
· Eu não tenho o que fazer senão
sofrer e suportar o mar de mentiras, injúrias e calúnias.
· Perdôo a todos que talvez façam
essas coisas entendendo que estão fazendo bem. Nosso Senhor os salve junto
comigo no céu.
· Desejaria que Nosso Senhor me
condenasse, contanto que se remediasse a salvação de tantas almas.
· Como sacerdote
católico, não tenho outra lei senão obedecer àqueles a quem Deus
constituiu meus superiores.
· Deus nunca deixou trabalhos sem
recompensa, nem lágrimas sem consolação.
· Sem educação religiosa perfeita,
não há agremiação que progrida e que seja útil a si, à família, à sociedade e à
Pátria.
· Preparemo-nos para o céu que lá,
sim, seremos felizes.
· As obras de Deus sempre são
assinadas com o cunho da adversidade.
· Precisamos de um nacionalismo
inteligente, sadio, sem embargo de espírito de cordialidade, de fraternidade
mesmo, que deve existir entre as nações, unindo os povos mas
respeitando-se a integridade territorial de cada país, que os seus filhos
receberam dos antepassados e devem transmitir intacta às gerações vindouras.
· Cada cearense deve ser uma
trombeta na imprensa e em toda parte , gritando com
toda a força e pedindo socorro para o grande naufrágio do Ceará. Pode ser que
esses governos que têm o dever de salvar os Estados nas calamidades públicas
desistam e não queiram passar por assassinos, deixando caprichosamente morrer
milhares de vidas que podiam salvar e não querem.
· Posso afirmar, sem nenhum peso de
consciência, que não fiz revolução, nela não tomei parte, nem para ela
concorri, nem tive, nem tenho a menor parcela de responsabilidade, direta ou
indiretamente.
· Não se perseguem os semelhantes
impunemente.
· No céu pedirei a Deus por vocês
todos.
· Se V. Ex.a escrever o regulamento
eu muito lhe agradeço; porém meu regulamento até hoje é não ter regulamento. (Reposta ao Bispo do Ceará, D. Joaquim José Vieira,
que, em visita a Juazeiro, notou que o Padre Cícero trabalhava em excesso no
atendimento aos fiéis.)
· Não derrube o mato, nem mesmo um
só pé de pau.
· Não toque fogo no roçado nem na
caatinga.
· Não cace mais e deixe os bichos
viverem.
· Plante cada dia pelo menos um pé de
algaroba, de caju, de sabiá, ou outra árvore
qualquer, até que o sertão todo seja uma mata só.
· Não plante serra acima, nem faça
roçado em ladeira muito em pé; deixe o mato protegendo a terra para que a água
não a arraste e não se perca sua riqueza.
APRESENTAÇÃO
O presente documentário é a transcrição “ipsis literis” dos textos que integram o chamado relatório elaborado pela 1ª Comissão de Inquérito, instalada para averiguar o que se convencionou anunciar como Fatos Extraordinários do Joaseiro, acontecidos em torno de 1889, ou até mesmo, poucos anos antes.
O presente documentário é a transcrição “ipsis literis” dos textos que integram o chamado relatório elaborado pela 1ª Comissão de Inquérito, instalada para averiguar o que se convencionou anunciar como Fatos Extraordinários do Joaseiro, acontecidos em torno de 1889, ou até mesmo, poucos anos antes.
Os documentos aquí transcritos foram reproduzidos do original que se encontra arquivado na Cúria Diocesana, em Crato, com a devida permissão da autoridade eclesiástica. Cópia xerográfica está disponível, para consulta, no Centro de Psicologia da Religião, da Paróquia de N. S. das Dores, em Juazeiro do Norte. Relevamos e agradecemos o trabalho paciente de Maria do Carmo Pagan Forti, a quem devemos a tarefa de transcrição fidedigna de todos os textos.
Anteriormente a este fato, somente nos arquivos do Vaticano e da Columbia University, New York – com o Prof. Ralph della Cava, seria possível a sua consulta.
O Ipesc, ao tomar a iniciativa de reproduzir, apenas 10 cópias numeradas, este documento, espera ter contribuído para a democratização do acesso a estas fontes, cumprindo, assim, a sua função de instituição moderna e atuante que está na permanência de programas de pesquisas, estudos e debates acerca de questões importantes para a comunidade na área de abrangência da URCA.
Penso que, assim procedendo, o IPESC marca este momento presente, com um tento de largo alcance, no seu ofício de colaborar com os pesquisadores de história regional, assinalando muito bem este seu primeiro ano de atividades.
Prof. Renato de Casimiro, UFC
Consultor do IPESC
CÓPIA AUTHÊNTICA DO PROCESSO INSTRUIDO
SOBRE OS FACTOS DO JOAZEIRO
Anno de mil oitocentos e noventa e um. Povoação do Joazeiro, freguesia do Crato. Commissariato Ecclesiastico. Inquerito acerca dos factos extraordinários occorridos nesta povoação do Joazeiro. O secretario Padre Doutor Antero Anno do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo, de mil oitocentos noventa e um, aos nove dias do mêz de Setembro do dito anno, em o Consistorio da Capella de Nossa Senhora das Dores da Povoação do Joazeiro, faço a autoação da portaria e mais papeis que adiante se seguem; do que para constar fiz este termo. E eu, Francisco Ferreira Antero, Secretario da Commissão Eclesiastica, nomeado author por sua Excellencia Reverendissima, o escrevi. Padre Clycerio da Costa Lôbo, Presbytero secular, dellegado de sua Excellencia Reverendíssima, etc. O muito Reverendo Padre Doutor Francisco Ferreira Antero, logo que esta lhe seja aprezentada, indo por mim assignada e munida com sello das armas de sua Excellencia Reverendissima, cite a Beata Maria de Araújo para comparecer ao Consistorio da Capella de Nossa Senhora das Dores do Joazeiro, hoje, às onze horas da manhã, afim de proceder ao auto de perguntas à mesma Beata, iniciando-se assim ao inquerito ordenado por sua Excellencia Reverendissima, acerca dos factos extraordinarios, occorridos nesta Povoação; passando ao pé desta a Certidão, como assim o fez. Assim o cumpra. Joazeiro, nove de Setembro de mil oitocentos e noventa e um. Padre Clycerio da Costa Lobo, Delegado Episcopal. Certifico que intimei a Beata Maria de Araújo a portaria retro do que ficou sciente. Dou fé. Joazeiro, nove de Setembro de mil oitocentos e noventa e um. Padre Doutor Francisco Ferreira Antero, Secretario da Commissão.
AUTO DE PERGUNTAS FEITAS AO PADRE CÍCERO ROMÃO BAPTISTA
EM 17 DE JULHO DE 1891.
Aos dezessete dias do mez de julho do Anno do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo, nesta cidade de Fortaleza em o Paço Episcopal, onde achavam-se prezentes o Excellentissimo e Reverendissimo Senhor Bispo Deocesano Dom Joaquim José Vieira e o Illustrissimo Reverendissimo vigario, digo, Monsenhor Hypolito Gomes Brazil, vigario geral e Provisor do Bispado, commigo secretario eleito para escrever este auto; e sendo ahi, compareceu o Reverendo Padre Cícero Romão Baptista, Capellão do Joazeiro, da Frequesia do Crato, deste Bispado, aquem depois de lhe ser deferido o juramento dos Santos Evangelhos, que o mesmo Reverendo prestou, pondo sua mão direita em um livro delles e promettendo dizer a verdade do que soubesse e lhe fosse perguntado, passou sua Excellência Reverendíssima a fazer as seguintes perguntas:
- Se conhecia Maria de Araújo?
Respondeu que sim e desde a idade de oito a dez annos, quando ella fez sua primeira fez sua primeira communhão.
- Perguntado sobre filiação, naturalidade, idade, estado e modo de vida daquella senhora,
Respondeu que ella é filha legitima de Antonio de Araújo, já falecido e de Anna de tal, natural da povoação do Joazeiro, da Frequesia do Crato, ter nascido no anno de mil oitocentos sessenta e quatro, ser ella solteira e occupar-se em trabalho de costuras e mais serviços domesticos.
- Perguntado em companhia de quem reside aquella mesma Senhora,
Respondeu que vivia em companhia de sua mãe ate o anno de mil oitocentos oitenta e nove, passando nesse mesmo anno a residir em casa delle em companhia de sua mãe e mana.
- Perguntado se Maria de Araújo tinha compleição forte ou fraca,
Respondeu que ella tem compleição fraca e é doentia tendo ainda em menor idade uma enfermidade qualificada espasmo, ficando sujeita, desde então, a soffrer por vezes de ataques nervozos que a prostravam até o ponto de perder os sentidos. Esse estado mórbido começou desde menina e continuou com maior ou menor intermittência até o anno de mil oitocentos e oitenta e nove, quando começaram a se manifestar nella alguns factos extraordinários havidos por muitos como maravilhosos.
- Perguntado se Maria de Araújo alimenta-se regularmente,
Respondeu que ella alimenta-se muito parcamente.
- Perguntado desde que tempo dá-se Maria de Araújo a practicas de piedade e quais sejam ellas,
Respondeu que desde a idade de dez annos mais ou menos, quando ella confessou-se pela primeira vez, o que praticava desde então muito frequentemente, juntamente com a communhão que ella recebia diariamente desde o anno de mil oitocentos setenta e quatro até esta data, salvo alguma interrupção que alguma vez dava-se.
- Perguntado se a dita Beata lançava alguma vez sangue
Respondeu não ter disso plena certeza, mas que tem alguma ideia della ter algumas vezes vomitado sangue por occasião dos ataques que sofria o que deu-se alguns annos antes desses phenomenos extraordinários, de que ora se trata.
- Perguntado se lhe constava alguma cousa acerca da regularidade do fluxo menstrual daquela pessôa,
Respondeu que lhe consta ser nisso bem regular, havendo alguma vez, algum accesso em o dito fluxo.
- Perguntado mais se lhe constava soffrer alguma outra enfermidade a dita senhora,
Respondeu que ella soffre algumas ligeiras pertubações de estomago, conservando apezar disso, bastante força tanto que pode, sem sacrificio maior ir do Joazeiro a Cidade do Crato.
- Perguntado quem tem sido o confessor e director espiritual daquella Beata,
Respondeu ter sido o proprio interrogado, tendo apenas duas a tres vezes se confessado com o Reverendo Soter, segundo aconselhara sua Excellência Reverendissima.
- Perguntado qual o motivo porque mostrou repugnância em fazer Maria de Araújo recolher-se a Casa de Caridade do Crato, tendo o interrogante assim ordenado por duas cartas,
Respondeu que ella tendo tentações particulares do demônio e por isso mesmo precisando de um director espiritual especial que a conhecesse e dirigisse como convinha, esperava que sua Excellência Reverendissima deziztisse de tal ordem, tanto mais que a propria mãe da Beata escrevêra a sua Excellência nesse sentido, significando a conveniência de haver tal dispensa, mesmo por se achar a dita devota, nesta occasião gravemente enferma de uma febre que lhe sobreveio e da qual foi tratada pelo Pharmaceutico, o Tenente Coronel Joaquim Secundo Chaves Mello, pelo que não julgou ter nisso commetido um acto de dezobediencia como disso se convenceo sua Excellência Reverendissima.
- Perguntado mais, qual o motivo porque chamou o Medico Doutor Marcos Rodrigues Madeira, na Quinta-feira Santa, dia vinte e seis de março do corrente anno, para examinar Maria de Araújo depois de haver esta commungado,
Respondeu que tendo-se dado, por varias vezes, durante o tempo quaresmal deste anno, o facto da Sagrada particula ter passado por algumas transformações, quando se conservava ainda na lingua da devota, quiz que um médico testemunhasse a reprodução de um tal facto que naquelle dia acabava de operar-se, afim de que o facto que tinhão sido testemunhas alguns sacerdotes e muitas outras pessôas de toda a condição e desta arte houvesse uma prova mais robusta em favor da verdade do facto.
- Perguntado se o sangue em que por vezes se convertera a Sagrada partícula, circunscrevia-se tão sommente às dimensões da mesma partícula, ou se derramava-se por toda a boca,
Respondeu que se o sangue derramava-se além das dimenssões da partícula, era em muito pequena porção que não se podia bem divisar, affirmando mais que taes transformações duram de duas a tres horas.
- Perguntado como o Reverendo Padre Laurino, tendo-se demorado apenas onze dias no Joazeiro, foi testemunha de ter-se a Sagrada Hóstia de transformado trinta e uma vezes em carne e sangue,
Respondeu que como a devota não podia commungar, ou por outra, engulir a Sagrada partícula sem uma benção de algum sacerdote, succedeu que tendo verificado este facto e querendo que se testemunhasse este facto, digo, phenomeno de que se trata, isto é, da transformação da partícula em carne e sangue mais de uma vez, tornou a partícula que ella não comungara, dando-lhe nova communhão o que se deu duas a tres vezes no dia, dahi resultando ter conservado muitas partículas em que se operavam aquellas mudanças e que achão-se guardadas em lugar especial ou em urna de vidro que tem-se guardado na Capella do Joazeiro.
- Perguntado se o povo têm dado culto ao sangue e às partículas em que se dão aquellas transformações,
Respondeu que sim, pois o povo suppunha ser o sangue verdadeiro de Nosso Divino Redemptor que ali via-se, acressentando que em muitas daquellas partículas, apezar das transformações nellas operadas, subsistia ainda uma porção, ainda que pequena das espécies sacramentais.
- Perguntado se Maria de Araújo tinha extasis e desde que tempo,
Respondeu que começou a observar extasis em a dita Beata desde mil oitocentos e oitenta e quatro, sendo que ainda nesse tempo soffria de seus antigos ataques nervozos. Disse mais que esses extasis dão-se assim em público, como em particular e especialmente por occasião de festas maiores e que ella em vez de fazer ostentação disso, ao contrário muito procura esconder do público, dando-se que taes extasis durão as vezes cinco horas.
- Perguntado se a mesma devota tinha feito prophecias,
Respondeu que nada de positivo podia dizer a este respeito.
- Perguntado mais se ella nada dissera a respeito aos chamados seus à Capital e do que aqui se passaria a respeito dos factos de que se trata,
Respondeu que não.
- Perguntado se alguma vez a partícula consagrada se transformou em sangue em suas mãos, por occasião de dar a communhão à Beata Maria de Araújo,
Respondeu que não, mas aconteceu uma vez de ter este interrogado tirado da boca da Beata uma partícula já em grande parte transformada em sangue, completando-se a transformação no concavo de sua mão esquerda.
- Finalmente ordenando sua Excellência Reverendissima que o Reverendo interrogado fizesse uma expozição circunstanciada de todos os factos ocorridos com a Beata Maria de Araújo, desde o principio até a prezente data, houve assim por encerrado este interrogatório.
Do que tudo, para constar fiz este auto que vae assignado por sua Excellência Reverendissima, pelo Monsenhor vigario geral e o Reverendo interrogado, commigo secretario adhoc eleito. + Joaquim – Bispo Diocesano, Monsenhor Hyppolito Gomes Brazil, Padre Cícero Romão Baptista. Padre Clycerio da Costa Lobo, secretario adhoc.
EXPOSIÇÃO CIRCUNSTANCIADA DO PADRE. CÍCERO.
Excellentissimo e Reverendíssimo Senhor Bispo, Em cumprimento a ordem de Vossa Excellência Reverendíssima, exarada no auto de perguntas retro, venho fazer a exposição dos factos extraordinarios que se hão operado em Maria de Araújo e dos quais tenho sido testemunha, ao menos com maior reflexão desde mil oitocentos e oitenta e quatro até a presente data. Irei por partes, começando pelas:
DISPOZIÇÕES E PROVAÇÕES DE MARIA DE ARAÚJO
Conheço Excellentíssimo Senhor á Maria de Araújo, desde menina, isto é, desde a idade de oito a dez annos, quando a confessei para fazer ella a sua primeira communhão. Notando aí então as melhores dispozições daquella menina para a vida interior, aconselhei-a a se consagrar a Nosso Senhor, o que ella executou do modo o mais intimo e perfeito, considerando-se desde aquella data como uma verdadeira espoza de Jesus Christo. Na idade de dezoito a dezenove annos, mais ou menos, foi Maria de Araújo, victima das mais graves tentações e pertubações de espírito, as quais todas convergiam para distrahil-a da oração e inspirar-lhe receio das praticas de piedade, além de serem contrárias à Santa Virtude da castidade. Algum tempo depois, mas pouco a pouco, vierão-lhe visões contrárias aquelas tentações e pertubações: inspiravão-lhe ellas paz d’espírito, animação e perserverança na oração. Maior fervor e tal generosidade na pratica de todas as virtudes, que seu dezejo, sua continua oração era condenar-se mais antes do que violar a virtude da castidade, consentindo naquellas tentações. Maria de Araújo muito receiava-se tanto das consolações como das provações que experimentava. Já ella conhecia os ardis do inimigo. Passo às visões:
VISÕES DE MARIA ARAÚJO
A principio e maiormente em mil oitocentos e oitenta, mais ou menos, pareceu-lhe ver a S.S. Virgem, mas não tendo então certeza disso, do que se receiava, fez a conselho meu, em qualidade de seu director espiritual uzo da água benta, quando aquella visão tornou-se-lhe mais patente, reprezentando-se-lhe tomar a dita visão, a atitude de quem ora e inclina a cabeça em sinal de veneração. É desta data em diante que apareceu-lhe Jesus Christo mas da primeira vez de passagem e dirigindo-lhe duas a tres palavras de animação, e isso por occasião de soffrer ella uma grande pertubação. Ella porém não conheceu bem ao Senhor. Renovando ella a conselho meu o acto de consagração a Nosso Senhor, deu-se que tal visão tornou-se mais patente e Nosso Senhor mandou-lhe então que, depois de uma confissão e com participação disso a seu director, ella celebrasse com elle, isto é, com Jesus Christo, mesmo um consorcio espiritual, o qual havia de se cellebrar na Capella do S. S. Sacramento, o que effectuou-se com grande solemnidade. Com esse facto accendeu-se-lhe o coração num verdadeiro incendio de amor. Desde aquelle facto Nosso Senhor se constituiu seu mestre e seu director: ensinava-lhe a orar, a ouvia mesmo em confissão, a preparava cada vez mais para a vida unitiva.
DOM DE ORAÇÃO
É desde aquelle tempo que sua meditação versou sobre a Paixão de Nosso Senhor, que com jaculatorias, as quais elle proprio lhe ensinava e de que ella não fazia uzo, se não com autorização do Director ordinario, a incitava a um mais perfeito amor. Quanto mais intimamente se communicava ella com o Divino Espozo, mais graves tentações e pertubações soffria da parte do inimigo, o que era compensado por maiores consolações. E teve ella ordem do Senhor para nenhuma atenção prestar a visão alguma, qualquer que ella fosse, sem que dissesse: “Louvada seja a Sagrada Morte e Paixão de Nosso Senhor Jesus Christo”; que de tudo Maria conta a seu confessor e lhe prestasse inteira obediência; meio este seguro para poder ella chegar ao conhecimento das cilladas do inimigo e dellas se livrar. Davam-lhe auzencias do Divino Espozo, o que lhe causava profundissima pena; era como a pena de danno. Chegamos aos colloquios:
COLLOQUIOS
Os colloquios que ella entretinha com o Divino Espozo eram taes que, com muita propriedade se podiam comparar com o dos Canticos dos Canticos. É assim que se preparava ella para o espírito de penitência a par do de oração que já chegava a seus mais elevados graos.
ESPIRITO DE PENITENCIA
O primeiro facto sensível que se operou na pessôa a que me refiro, relativamente a paixão de Nosso Senhor Jesus Christo, digo a Paixão de Nosso Jesus Christo, foi o seguinte: Assistia Maria de Araújo ao Mês das Almas, e isso na oitava de todos os Santos de 1883 a 1884, quando sentio ella que alguém lhe dava um amplexo, ficando impressa no peito uma cruz a deitar sangue, do que fui eu mesmo testemunha. Era a consagração della a vida de penitência. Nessa vida de união com os sofrimentos de Nosso Senhor, a bem das almas ficou ella até hoje. Offerece-se ella como vitima de expiação pelas almas do purgatório e pelos pecadores em geral.
FACTOS EXTRAORDINÁRIOS
Era a primeira Sexta-feira do mez de março de mil oitocentos e oitenta e nove. Então, a convite meu, fazia toda a Associação do S. Coração de Jesus, legitimamente instituida na Capella do Joazeiro, uma Communhão reparadora pelas necessidades da S. Igreja; em dezegravo as injurias feitas a N. Senhor, no Sacramento de seu amor para a Conversão dos pecadores, tudo segundo as intenções do terno e adorável Coração de Jesus. Ahi sente-se a devota disposta não somente a commungar sacramentalmente e com maior amor mas inda a uma communhão espiritual da maior intimidade que com razão dir-se-ia miraculoza. Passara Maria de Araújo com outras senhoras em vigilia, adorando em espírito de reparação ao S. S. Sacramento. Eram já cinco horas da manhã e attendendo eu ao Sacrificio que tinhão feito aquellas pessôas passando toda noite em adoração a N. Senhor, julguei conveniente dar-lhes a communhão, o que effectivamente se deu. Pela primeira vez a vi então tomada de um rapto extático, rezultando segundo ella affirmara a transformação da Sagrada Hóstia em sangue, tanto que além do que ella não sorveu, parte caio na toalha e parte caio mesmo no chão; do que tudo foram testemunhas seis a oito pessôas que com ella tinham commungado. Durante o tempo quaresmal daquelle anno e principalmente as quartas e sextas feiras de cada semana, observaram-se aqueles phenomenos; o que deu-se também uma vez, no sabbado da Paixão no mencionado anno, depois do que passaram a ser diários até a Ascensão do Senhor. Na festa do Preciozissimo Sangue reproduziram-se os phenomenos de que me ocupo. Era, por isso grande o temor de Maria de Araújo, que quiz até abster-se da Communhão no que porém continuou só por obediencia. Em suas communicações intimas com Deus, foi lhe dada a seguinte resposta, as respostas, digo, as perguntas que nesse sentido ella fizera: É isso uma manifestação de tua fé e da Mizericordia de Deus para com os homens, assim é preciso e que nada mais lhe era preciso saber.
EXTASES
De, há muito davam-se na devota de que me occupo raptos de espírito, verdadeiros extases, mas após a primeira Sexta-feira de Março de mil oitocentos e oitenta e nove é que tornaram-se mais longos e frequentes: duram algumas vezes, cerca de cinco horas e é deles revocada sempre que assim lhe é mandado por obediência. Suas intimas communicações com Deus, dam-se sempre em estado extático.
ESTYGMAS
Também há muito davam-se estes phenômenos na pessôa de que tratamos, talvez salvo o engano, desde o anno de mil oitocentos e oitenta e cinco, mas com interrupções. Nesse estado de estygmas, via-se sangue em sua testa a sair como de uma corôa de espinhos, nas mãos, como que cravos, no lado uma chaga que só na Quaresma do corrente anno chegou a cicatrizar, jorrando destes estymas copioso sangue. Confirma-se a Consagração de Maria de Araújo ao Senhor. Era o dia dezenove de Agosto de mil oitocentos e oitenta e nove. Naquelle dia orava a Beata na Capella do S. S. Sacramento. Então apareceu-lhe Nosso Senhor perguntando-lhe se ella queria de novo a elle consagrar-se e a fazer em seu logar penitencia por vivos e mortos e havido della o consentimento requezitou, intimou-lhe que de tudo desse parte ao confessor, que fizesse quinze estações com communhão; significando-lhe que era sua vontade fazer daquelle logar um Centro de atração ou de chamamento das almas para a salvação, recommendando-lhe para esse effeito a devoção às dores de sua Mãe Santíssima e ao seu preciozíssimo sangue para ser um meio de salvação para todos que alli fossem.
COMO NISSO PROCEDI
Direi nesse sentido que, como os diversos factos de transfusão da hóstia consagrada em sangue operados desde mil oitocentos e oitenta e nove até hoje não tinham sido ao princípio testemunhados sinão por mim, julguei de necessidade que outras pessôas, tanto ecclesiásticas como leigas, que fossem dignas de fé, as testemunhassem. Effectivamente assim aconteceu e guardo o registro de mais de mil pessôas que foram testemunhas prezenciais, entre as quais dous médicos e um pharmacêutico e que tudo isso observarão diversas vezes e no curso de duas a tres horas. Releva notar-se que aquella devota em vez de gloriar-se com a publicidade desses factos, muito ao contrario experimenta com isso o maior tormento. Quanto ao mais que possa ter aqui omittido e para o que não me sobejou tempo refiro-me aos diversos attestados que quanto me cabe confirmo e julgo authênticos. Eis, Excellentissimo Senhor, quanto me occorre agora; certo de que só a obediência, a maior honra e glória de Deus e a edificação dos fieis a isso me obrigão, isto é, a fazer público todos esses factos. Fortaleza, dezoito de julho de mil oitocentos e noventa e um. Pe. Cícero Romão Baptista.
DETERMINAÇÕES DO BISPO DIOCESANO
Em seguida a esta narrativa sua Excellencia o Senhor Bispo Diocezano, determinou o seguinte: Tendo nós ouvido attentamente e bem ponderado as respostas as nossas interrogações e outras narrativas feitas pelo Reverendo Cícero Romão Baptista, a nosso chamado, vindo a esta Capital, a cerca das condições de Maria de Araújo e dos e dos factos extraordinários com ella succedidos no Povoado do Joazeiro, da Freguesia do Crato, deste Bispado, factos estes attestados por dous médicos, um pharmaceutico, dous sacerdotes e mais pessôas: Primeiro que tudo declaramos que reconhecemos na pessôa do Reverendo Cícero Romão Baptista, um sacerdote de costumes puros, regularmente instruido, zeloso e em extremo dedicado a Santa Religião que professamos, incapaz por tanto de qualquer embuste ou de pretender enganar a quem quer que seja; o que não o impede de poder illudir-se. Não bastante porém, o que fica dito, desejamos Nós em observância ao que determina o Sagrado Concílio de Trento na sessão vinte e cinco, instruir um processo regular a tal respeito, no intuito de descobrir a verdade, ordenamos o seguinte: Prohibimos expressamente qualquer culto aos pannos ensanguentados, encerrados na caixa de vidro a que se referio o Reverendo Cícero Romão Baptista, o qual deverá guardar cautelozamente, a dita caixa com o conteúdo d’ella, até que chegue ao Joazeiro o Reverendo Sacerdote que pretendemos commisionar para o respectivo inquérito. Ordenamos ainda ao mesmo Reverendo Cícero se desdiga no púlpito da propozição que avançou affirmando que o sangue apparecido nas Sagradas partículas era Sangue de Nosso Senhor Jesus Christo, pois que não o é nem pode ser, segundo os ensinamentos da Theologia Católica. Outro sim, sendo necessário remover todos os obstaculos que possam impedir o descobrimento da verdade, em asumpto tão delicado e interessante, e tendo em consideração o facto de ter sido o Reverendo Cícero Romão Baptista o único director e quazi o único confessor de Maria de Araújo, acressendo a isto a circunstância de viver esta em casa do dito Reverendo onde é por elle sustentada, para que se não diga que taes circunstâncias actuam no animo de Maria de Araújo, produzindo os phenomenos extraordinários, cuja natureza se trata de averiguar, ordenamos mais que, dentro de oito dias impreterivelmente, depois da chegada ao Joazeiro do Sacerdote nosso Commissionado, deverá Maria de Araújo recolher-se à Casa de Caridade do Crato, onde permanecerá por seis mezes, a contar do dia da entrada naquella casa; então tomará outro confessor e director e observará o mais que for prescripto pelo sacerdote nosso enviado; findo o prazo acima marcado é nosso dezejo que continue Maria de Araújo a rezidir na dita Casa de Caridade, mas não exigimos, podendo ella, portanto, voltar para o Joazeiro, salvo ulterior deliberação nossa. Finalmente, recomendamos ao Reverendo Cícero Romão Baptista, obedeça e auxilie o Reverendo sacerdote nosso commissionado, em tudo o que for concernente no processo de averiguação dos factos extraordinários succedidos no povoado de Joazeiro. Rezidência nossa da Fortaleza, Dezenove de julho de mil oitocentos e noventa e um. + Joaquim, Bispo Diocezano. Dom Joaquim José Vieira, pela Divina Providência e Mercê da S. Sé Apostólica, Bispo desta Dioceze de Fortaleza, etc.
PORTARIA DO BISPO INSTAURANDO O PROCESSO
Tendo nos chegado a notícia de alguns factos maravilhosos, occoridos já há alguns annos, com a Beata Maria de Araújo, rezidente no Povoado do Joazeiro da Freguesia do Crato, deste Bispado; factos esses que acabam de ser attestados por dous médicos, um pharmaceutico e dous sacerdotes, os quais affirmam cada qual em sua especie, ter, por vezes, visto a hóstia consagrada, por occasião de dar-se a communhão a dita beata, fazer-se toda em sangue, transformar-se em coração humano e ter a propria beata em estado de extaze e com estygmas: constando-nos além disto que grande número de romeiros, os quais visitam a Capella de Joazeiro a testemunhar aquelles phenomenos, chegam até a dar culto aquelle sangue como se fôra o verdadeiro sangue de Nosso Divino Redemptor, e considerando nós em o Senhor, que, si com todo cuidado e vigilancia devemos procurar o augmento e a conservação de nossa Santa Fé Cathólica, somos também obrigados a trabalhar por impedir e até mesmo extinguir tudo quanto offender possa a sua pureza e Santidade, temos resolvido, em cumprimento de nosso officio pastoral e em observância do que a respeito dispõe o S. Concilio Tridentino na sessão vinte cinco - Invocatione Sanctorum – fazer examinar, como convem, os referidos factos. E por que ora não nos seja possível instruir o opportuno e necessário processo, reconhecendo na pessôa do Reverendo Clycerio da Costa Lobo os requisitos necessários para o tal inquerito proceder, havemos por bem commissional-o, como pela prezente nossa Portaria o fazemos, a exercer essa missão, para o que delegamos todos os poderes necessários. Em o dito processo de averiguação servirá como secretario, o muito Reverendo Doutor Francisco Ferreira Antero, ou na falta deste, outro qualquer sacerdote que ao nosso Commissionado bem pareça eleger; sendo o dito processo, tanto que seja concluido, a nós transmittido para os seus devidos effeitos. E a todos os sacerdotes deste Bispado, e a quaisquer pessôas sugeitas a nossa jurisdição episcopal, que esta nossa Portaria virem ou della tiverem conhecimento, muito recommendamos, em o Senhor, reconheçam ao Reverendo Clycerio da Costa Lobo por nosso Commissionado e como tal o auxiliem e obedeçam em tudo quanto for concernente a sua missão, como assim convém e exige o bem da Religião. Dada e passada nesta cidade Episcopal da Fortaleza, sob o nosso signal e o sello das nossas armas, aos vinte e um de julho de mil oitocentos e noventa e um. + Joaquim, Bispo Diocezano. Certifico ter sido publicada hoje, a estação da missa, a portaria retro. Ita in verbo sacerdotis. Joazeiro, seis de setembro de mil oitocentos e noventa e um. Padre Cícero Romão Baptista. Portaria pela qual sua Excellencia Reverendíssima há por bem commissionar o Reverendo Clycerio da Costa Lobo para proceder ao inquérito d’averiguação dos factos occorridos no povoado do Joazeiro com a Beata Maria de Araújo, d’aquelle mesmo logar. Para sua Excellencia Reverendíssimo assignar.
TERMO DE JURAMENTO
Aos nove dias do mêz de setembro do anno de mil oitocentos e noventa e um, no Consistório da Capella de Nossa Senhora das Dores da Povoação do Joazeiro, onde foi vindo o Reverendo Padre Clycerio da Costa Lobo, nomeado por sua Excellencia Reverendíssima, para como seu commissario proceder o inquerito a cerca dos factos extraordinários occorridos na mesma povoação, já declarada, commigo igualmente nomeado por sua Excellencia Reverendíssima para servir, como secretario da mesma Commissão; E sendo ahí, passou o mesmo Reverendo Commissário a prestar em minhas mãos o juramento, como o fez, pondo no peito a sua mão direita e declarando sob a fé do mesmo, cumprir bem e fielmente o Cargo de Commissário que lhe havia sido conferido, o que feito, eu igualmente prestei em suas mãos o juramento de como cumpriria bem e fielmente o Cargo de Secretario da Commissão episcopal encarregada do inquerito, de que acima se faz menção. Do que, para constar, fiz este termo que vai assignado pelo mesmo Reverendo Commissário e eu Secretario, ambos já acima nomeados. Eu, Pe Doutor Francisco Ferreira Antero, secretario da Commissão o escrevi. Padre Costa Lobo, Commissário Episcopal.
AUTO DE PERGUNTAS
Aos nove dias do mêz de Setembro do anno de Nosso senhor Jesus Christo, de mil oitocentos e noventa e um, no Consistório da Capella de Nossa Senhora das Dores, da povoação do Joazeiro, prezente o Reverendo Padre Clycerio da Costa Lobo, Commissário episcopal, commigo Secretario da dita Commissão, abaixo assignado, e sendo ahí, compareceu a Beata Maria de Araújo, aquem depois de lhe ser deferido o juramento dos Santos Evangelhos, que prestou, pondo sua mão direita sobre um livro delles, promettendo sob a fé do mesmo, dizer a verdade do que soubesse e lhe fosse perguntado, a cerca dos factos extraordinarios com ella occoridos nesta povoação, passou o Reverendo Commissário a fazer as seguintes perguntas:
Primeira: Como chama-se?
Respondeu chamar-se Maria Magdalena do Espírito Santo de Araújo.
Segunda: De quem é filha?
Respondeu ser filha legítima de Antonio da Silva de Araújo (já falecido) e de Anna Jozepha do Sacramento.
Terceira Donde é natural?
Ao que respondeu ser natural da povoação do Joazeiro.
Quarta: Que idade tem?
Respondeu que tinha vinte e nove annos commeçados.
Quinta: qual é o seu estado?
Ao que respondeu que é solteira.
Sexta: Qual é seu modo de vida?
Respondeu que se dá ao trabalho de costuras.
Setima: Sabe ler e escrever?
Ao que respondeu que não.
Oitava: Soffre de alguma enfermidade?
Respondeu que soffre ligeiros incommodos de estomago.
Nona: Soffreu alguma vez ataques nervozos e desde quando?
Ao que respondeu que desde a idade de dous annos começou a soffrer de ataques nervozos com maior e menor interrupção; tendo os ditos ataques cessado a cinco annos pouco mais ou menos.
Decima: Por occassião dos ditos ataques vomitou alguma vez sangue?
Respondeu que em consequencia de uma queda motivada pelos ditos ataques, teve uma vez um escarro de sangue.
Decima-primeira: Alimenta-se regularmente?
Ao que respondeu que sim.
Decima-segunda: Da-se a vida de piedade e desde quando?
Respondeu que sim e desde nove annos a esta parte.
Decima-terceira: Tem tido vizões maravilhosas e quais?
Ao que respondeu que sim, e desde a idade de nove annos; mas então com alguma interrupção e sem que bem conhecesse o que isso era, até que tornarão-se as ditas vizões mais frequentes desde seis annos a esta parte e com inteiro conhecimento dellas, porquanto Nosso Senhor Jesus Christo e a Virgem Santissima, se lhe communicavão, dando-lhe direções espirituais.
Decima-quarta: Quaes effeitos produzião em seu espirito aquellas vizões?
Ao que respondeu que sentia sua intelligencia melhor preparada para os conhecimentos dos mysterios divinos e sua vontade mais disposta ao amor de Deus e a todos os generos de sacrificos para attingil-o.
Decima-quinta : Tem uzo de meditar e qual o objeto especial de suas meditações?
Respondeu que sim, sendo o objecto especial de suas meditações a paixão de Nosso Senhor Jesus Christo que então lhe há recommendado por repetidas vezes applicar a si propria, os soffrimentos diversos de sua mesma paixão.
Decima-sexta : Tem tido colloquios com Nosso Senhor Jesus Christo e sobre que versão elles?
Ao que respondeu que sim, versando os ditos colloquios sobre manisfestar-lhe Jesus Christo ser de sua vontade que ella interrogada se lhe consagrasse e se preparasse para revelações futuras, referindo-se algumas destas revelações a indicar-lhe querer fazer deste logar uma porta do ceu e um logar de salvação para as almas.
Decima-setima : Por occasião de commungar tem a sagrada hóstia se convertido em sangue e em carne?
Respondeu que sim, convertendo-se a principio em sangue, pela primeira vez, na primeira Sexta-feira de março de mil oitocentos e oitenta e nove, interrompendo-se porem e continuando neste corrente anno até a prezente data, salvo a interrupção de poucos dias deste mesmo anno; não tenho porem certeza de se ter convertido em carne como outros testemunharão e isso em consequencia da perturbação em que então se achava.
Decima-oitava : Tem a hostia consagrada por occasião de sua communhão tomado também a forma de coração humano?
Ao que respondeu que pelo estado de perturbação a que já se referio não pode isso affirmar com certeza, referindo-se porem ao testemunho de muitas pessôas e particularmente de um médico e alguns sacerdotes que isso asseveraram.
Decima-nona : O sangue que aparrece na boca por occasião da communhão é em grande quantidade?
Respondeu que sim, a maior parte das vezes.
Vigesima : Tem certeza que este sangue não é seu proprio sangue e sente isto?
Respondeu que sim, tendo a este respeito revelação particular, e até mesmo sente que não é seu próprio sangue, tanto que não experimenta enfraquecimento algum, nem alteração de qualquer especie em sua saude, notando-se mais que nestas occasiões a Sagrada hóstia move-se de um modo bem sensível na boca e até sente dar algum salto na língua até tocar o ceu da boca; e isso sempre.
Vigesima-primeira : Tem tido extases e nesse estado contempla a alguns mysterios e quaes sejam estes?
Ao que respondeu que sim e que neste estado contempla Jesus Christo recommendando-lhe a consagração della a Elle proprio tanto por si mesma como por todos os que não o amão.
Vigesima-segunda : É revocada deste estado extático a mando do Director espiritual?
Respondeu que sim, e até a mandado de qualquer sacerdote debaixo de obediência.
Vigesima-terceira: Nesse estado tem tido revelações especiaes a cerca dos factos occoridos desde mil oitocentos e oitenta e nove até a prezente data nesta povoação do Joazeiro?
Respondeu que sim, porquanto Nosso Senhor Jesus Christo lhe tem revelado que tudo isso se opera para conversão dos peccadores e perseverança dos justos; chegando até queixar-se amargamente da ingratidão dos homens para com elle e chamando-os a aproveitarem-se de suas graças em quanto é tempo de mizericórdia.
Vigesima-quarta : O que pensa da espécie da carne e do sangue que apparecem na história consagrada, será a verdadeira carne e o verdadeiro sangue de Jesus Christo?
Respondeu que nosso Senhor por muitas vezes lhe tem revelado que aquella carne e aquelle sangue é verdadeiramente sua carne e seu sangue, recommendando-lhe até que a custa de sua propria vida desse testemunho de sua glória por esse facto manifestado, e que nisso lhe obedecesse por mais que os homens se recuzassem a crer nesse mysterio.
Vigesima-quinta: Teve noticia da decizão do Senhor Bispo de Diocezano nesse particular, isto é, a cerca da especie da carne e do sangue aparecido nas hostias consagradas, e que impressão lhe causou tal decizão?
Respondeu que a esse respeito não teve certeza, porquanto ouvio alguma cousa nesse sentido da boca de particulares e não de sacerdotes, sentindo-se sempre disposta, segundo recommendação a ella feita por Nosso Senhor, a obedecer sempre a autoridade da Igreja.
Vigesima-sexta: Tem sido estygmas e permanecem elles por longo ou por algum tempo?
Respondeu que sim, em quanto a primeira parte, durando estes estygmas as vezes por cinco ou seis horas, pouco mais ou menos.
Vigesima-setima: Tem sofrido exsudações sanguineas e em que occasiões?
Ao que respondeu que sim e de ordinário isso se da por occasião de meditar ella na paixão e bondade de Nosso Divino Redemptor.
Vigesima-oitava: E no estado de extase e quando soffre as exsudações sanguineas esperimenta vehemente dor que ande unida ao mesmo tempo a uma grande consolação da alma?
Respondeu que sim, sentindo-se então mais attrahida a Deus, e disposta a imitação de Jesus Christo e a conformar-se sempre à sua divina vontade.
Vigesima-nona: Tem chagas em seu corpo e julga que essas chagas são sobrenaturaes, verdadeiras chagas do amor divino?
Respondeu que sim porquanto tem nesse sentido, particular revelação de Deus, que lhe diz querer com isso communicar-lhe seu amor.
Trigesima: Tem se produzido em seu corpo algumas impressões adimiraveis, bem como dos diversos instrumentos da paixão de Nosso Senhor Jesus Christo e quaes sejam ellas?
Respondeu que sim, imprimindo-se muitas vezes em sua fronte a corôa de espinhos, em suas mãos e pés os cravos e em seu peito uma cruz, experimentando sempre a par de vehemente dor, grande consolação da alma e então Nosso Senhor, lhe revelava que isso se operava para que ella em união com os soffrimentos de sua paixão concorresse com elle a converter os peccadores, a santificar as almas e a liberar as almas do purgatorio.
Trigesima-primeira: Jesus Christo celebrou um consorcio espiritual com sua alma e de modo sensível?
Ao que respondeu que sim, tendo-se celebrado o consorcio espiritual com Jesus Christo com solemnidade na Capella de S. S. Sacramento, em prezença de Maria S. S., de S. José, de coros de anjos e de virgens; tendo a isso precedido diversos preparativos, quais outros despozorios espirituaes; então Jesus lhe entroduzio no dedo o anel nupcial, deu-lhe a mão chamando-lhe espoza e confirmando-a como tal, exigindo que a elle se consagrasse de um modo mais intimo ainda e anunciando-lhe que dahi em diante teria mais que soffrer por seu amor.
Trigesima-segunda: Teve revelações epeciaes em relação aos factos da conversão das hostias em carne e sangue?
Ao que respondeu que sim e isso mesmo communicara ao seu director por ordem divina, tendo-lhe sido ainda revelado este facto actual da affluencia de grande multidão de povo de diversos bispados a este povoado, todos dispostos a purificarem-se aqui no Sacramento da penitencia e assim preparados receberem o sacramento da eucharistia; relevando ainda notar-se que Nosso Senhor disse que isso se operaria para avivar a fé da prezença real delle na Eucharistia já muito enfraquecida nestes ultimos tempos.
Trigesima-terceira: Tem alguma revelação com relação as perseguições da Igreja nestes ultimos tempos?
Ao que respondeu que sim.
Trigesima-quarta: Lembra-se e pode communicar alguma das orações que aprendeu da boca de Nosso Senhor?
Respondeu que sim e disse ser uma dellas: Louvada seja a morte e paixão de Jesus Christo e as dores da Imaculada sempre Virgem Maria – e mandava dizer ainda – Meu pae abençoae a mim e as almas do Purgatório e tudo que Jesus, Maria e José queira abençoar; que sejam todos abençoados e salvos pelo Sagrado Coração de Jesus e seu preciozissimo sangue, com promessa de indulgência toda vez que fossem recitadas essas preces; disse mais que aprendeu e até recitava juntamente com Jesus Christo, tantas outras orações, sem que porém se lembre actualmente dos termos em que ellas eram concebidas.
Trigesima-quinta: Tem tido por vezes tentações diabólicas e em que occasião?
Ao que respondeu que sim, succedendoter sido muitas vezes espancada pelos demonios que se desfarçavão, ora na pessôa de Jesus Christo, ora na S. S. Virgem, ora em anjos e na do proprio confessor, das quaes tentações e iluzões muitas, todas no sentido de distrahil-a da vida interior, se livrava ella recitando a oração já acima exposta.
Trigesima-sexta: Tem tido muitas vezes communhões miraculozas, isto é, que não lhe são ministradas pelo ministro sacerdotal?
Respondeu que sim, sendo que as ditas communhões lhe eram ministradas por Nosso Senhor mesmo que as tirava de seu coração entreaberto, dizendo-lhe então: come da minha carne e bebe do meu sangue: dóra em diante será o sustento de tua alma o meu corpo e o meu sangue acrescentando que assim o fizesse para conversão dos pecadores, a perseverança dos justos e o augmento de sua glória.
Trigesima-setima: As ditas communhões lhe são administradas tanto sob a especie de pão como sob a de vinho?
Ao que respondeu que muitas vezes sob a especie de pão e algumas vezes sob a de sangue, dando-se que no dia vinte e um de agosto de mil oitocentos e oitenta e nove Nosso Senhor mesmo lhe administrou a communhão de seu sangue em um cálice de ouro repetindo-se este facto por mais algumas vezes; foram estes factos, como a preparação para os que estão dando-se actualmente.
Trigesima-oitava: Quando as ditas communhão lhe são administradas sob a especie de pão taes particulas aparecem tambem ensanguentadas?
Respondeu que quase sempre aparecem ensanguentadas, mandando então Nosso Senhor que ella se aprezente ao Confessor ou a outro qualquer sacerdote para receber a benção, como meio esse prezervativo de toda illuzão diabólica, convencendo-se ella assim de que taes communhões lhe erão dispensadas por operação divina, além de que Nosso Senhor muitas vezes lhe asseverava ser divinas taes communhões.
Trigesima-nona: Tem-lhe Deus Nosso Senhor permitido ir muitas vezes em espirito ao purgatório libertar algumas almas?
Ao que respondeu que sim, recomendando-lhe então Nosso Senhor que entrasse na participação dos soffrimentos das almas para assim alivial-as e que concorresse com elle para libertal-as como fosse de sua divina vontade, e effectivamente assim se tem dado por diversas vezes, libertando-se do purgatório muitas almas, algumas das quaes foram della conhecidas.
Quadragesima: Tem Deus Nosso Senhor promettido provar com algum signal mais evidente a sobrenaturalidade divina dos factos aqui occorridos?
Ao que respondeu que sim, e muitas vezes, não lhe revelando porém nada de especial a este respeito, recommendando-lhe que bastava amal-o; nesta occasião queixando-se ella que não sabia amar a Deus, ouvio de sua bocca estas palavras: Eu te darei um coração capaz de me amar. Perguntada se nada mais tinha a dizer, respondeu que na idade de seis annos, digo, de seis a sete annos brincava com o menino Deus, sem que porem o conhecesse então; entretanto aquelle divino menino que só agora lhe tem sido revelado quem fosse, lhe ensinava os mysterios de Deus; e a preparava para os sacramentos da penitencia e eucharistia promettendo-lhe que para aqui mandaria um sacerdote o qual havia de se encarregar de sua direcção espiritual e as tantas outras almas; sacerdote esse que somente se interessaria pela salvação das almas e nada mais, não poupando-se a sacrificio algum para concorrer com Deus na obra da Salvação das almas; terminando esse discurso que elle teve dizendo: Seja em tudo Deus sempre bendicto e louvado; e isto dito desapareceu no meio de uma grande luz. E mais não disse nem lhe foi perguntado, havendo-se assim por encerrado este auto de perguntas, que depois de ser lido e tido por conforme, vae assignado pelo Reverendo Commissário Episcopal Padre Clycerio Costa Lobo – comigo Secretario legitimamente nomeado, assignado a interrogada de cruz por não saber escrever, indo por mim authenticado. Do que para constar fiz este auto. E eu Padre Doutor Francisco Ferreira Antero o escrevi. Padre Costa Lobo, commissario episcopal. + cruz de Maria Magdalena do Espirito Santo de Araújo. Padre Doutor Antero.
TERMO DE VERIFICAÇÃO DA PRIMEIRA TRANSFORMAÇÃO DA HOSTIA
EM 10.09.1891
Aos dez dias do mez de Setembro do anno do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de mil oitocentos e noventa e um na Capella do S. S. Sacramento da Igreja do Joazeiro, da Freguesia do Crato, prezentes o Reverendo Padre Clycerio da Costa Lobo, Commissario Episcopal, commigo secretario de seu cargo, abaixo nomeado, o vigario Manuel Francisco da Frota, Padre Jose Jacomino Fontes Rangel e Padre Cícero Romão Baptista e os Senhores Capitão Fructuozo Manoel Dias, Antonio Alves de Carvalho Lima, Agostinho Pessôa de Queiroz, José Pereira da Silva, Zacharias Luiz Arnaud, Antonio Sobreira, Pedro Feitoza e Silva, Fructuozo Dias Ribeiro, Januario José de Aquino, José Augusto de Oliveira, Luiz da Cunha Figueira Dantas, Francisco Manoel Dias, José Gonçalves Ferreira, Joaquim Francisco das Chagas Moreno, Manoel Ferreira Ferro, Vicente Ferreira Dias, Bento Ferreira Lima, Manoel Alves Teixeira, João Alves da Cruz, Eduardo Guilherme da Corte e Guilherme Moreira Ramos de Maria; e sendo ahi mandou o Reverendo Commissario ja acima nomeado que o Padre Cícero Romão Baptista administrasse a communhão a Beata Maria de Araújo o que foi feito; dentro de dois minutos cahio a dita Beata em estado de extases e desmaiando foi sustentada pelo vigario Manoel Francisco da Frota e logo depois por uma beata, conservando-se neste estado durante um quarto de hora: era deste estado revocada mas de um modo imcompleto, ora a mando de seu director espiritual, ora do proprio commissario, do Secretario da Commissão e de outros sacerdotes, até que só quando o Reverendo Commissario mandou terminante e internamente em obediência a Jesus Christo e a Santa Igreja, que ella dispertasse e se ajoelhasse, realizou-se a completa revocação do estado extático em que ella antes se achava. Desta vez, por mais que se mandasse a Beata abrir a bocca e estender a lingua sobre os labios, não bem podia ella fazel-o, notando-se certa contração que a isto obstava; e quando instava-se ainda a abrir ella a bocca e estender a lingua para assim se poder observar a transformação que por ventura se operasse, dava ella signal tanto por gestos, como de viva voz, que o não podia fazer em consequencia de estar a sagrada forma em movimento na sua bocca. Então o Reverendo Padre Cícero Romão Baptista extrahio a Sagrada particula e a Beata nesta occasião teve de communicar-lhe ser vontade de Deus que não se operasse naquelle ponto a transformação da hostia por um motivo que então ella não percebeu bem. Alguns minutos depois significou o Padre Cícero ao Reverendo Comissario, que preparava-se para celebrar, que elle, commissario mesmo é quem havia de dar a communhão a Beata dentro da missa. Effectivamente foi dentro da missa administrada a communhão à Beata pelo Reverendo Commissario. Concluida que foi a missa e apenas tendo o celebrante deposto a casula, foi incontinente chamado a observar o que se passava. A Beata, prezentes as testemunhas já nomeadas e mais pessôas que concorreram a testemunhar o facto, estava em estado de extases, do qual era revocada a mando do Reverendo Commisssario debaixo de obediência e em virtude da mesma obediência é que ella abria bem a bocca e estendia a lingua sobre os lábios de modo que podia-se bem observar a sagrada hostia em via de transformação. Pouco a pouco se hia transformando a hostia consagrada divizando-se ao principio alguns globulos de sangue que foram crescendo de ponto até que, mandando o Reverendo Padre Cícero que ella deitasse a sagrada particula numa salva guarnecida com um sanguineo distinguindo-se então melhor a transformação em parte, da mesma particula em sangue que foi pouco a pouco tomando mais cor. Uma vez não tendo a Beata verdadeiramente commungado por haver sido extrahida a particula com o fim de ser melhor observada por todos os circunstantes, houve o Reverendo Comissario de adminstrar-lhe a communhão pela segunda vez; então, ainda de modo mais distinto operou-se a transformação a que referimos de novo tendo sido extrahida a particula pelo mesmo Reverendo Padre Cícero e para o mesmo fim já referido, teve, terceira vez de lhe ser administrada pelo Reverendo Commissario a Sagrada Communhão e terceira vez de modo ainda mais distinto operou-se a transformação da hostia em sangue subsistindo ainda algumas parcellas das especies sacramentais. Mediante a benção que então lhe deu o Reverendo Padre Cícero à Beata pôde ella commungar verdadeiramente; devendo notar-se que em todas essa três vezes, tanto depois da extração das particulas, como depois de ter ella verdadeiramente commungado, a boca e a língua conservavão-se perfeitamente limpas, sem nenhum resquicio de sangue. Tudo isto uma vez verificado e testemunhado, mandou então o Reverendo Commissario que para constar, se tomasse por termo que ora faço e vae assignado pelo Reverendo Commissario, commigo Secretario de seu cargo e as testemunhas retro nomeadas, as quais todas reconheço pelos proprios e dou fé. Eu Padre Doutor Francisco Ferreira Antero, secretario da commissão o escrevi. Padre Costa Lobo, Commissário Episcopal. (assinatura de todas as testemunhas).
TERMO DE VERIFICAÇÃO DA CRUCIFICAÇÃO DA BEATA MARIA DE ARAÚJO EM 10.09.81.
E logo no mesmo dia mez e anno retro declarados em Casa da Residência do Reverendo Cícero Romão Baptista, onde cerca de onze horas da manhã, achava-se o Reverendo Commissario Clycerio da Costa Lobo comigo Secretario da Commissão legitimamente ordenado, e estando nós a meza para almoçar, fomos chamados pelo Reverendo Joaquim Sother de Alencar para verificar a crucifixão da Beata Maria de Araújo: Achava-se a dita Beata deitada em uma rede diante de um santuário contendo diversas imagens sagradas e entre ellas a de Jesus Crucificado. Verificou o Reverendo Commissario comigo Secretario acima nomeado, achar-se a dita Beata em estado de extases e em attitude de crucifixão: de sua fronte gotejava sangue tanto que ensopava o véo que trazia ella na cabeça e com a face abaixada em suas mãos e em seus pés divizava-se sangue em forma de chagas e a correr em fitas; observando-se mais que seus olhos estavam imóveis; e isso não obstante tomarem por vezes aplicação diversa. Isto verificado, mandou o Reverendo Comissario vir pessôas que testemunhassem o facto, os quais vieram dentro em poucos minutos e com attenção observaram o facto alludido e são os seguintes: Reverendo Vigario Manoel Francisco da Frota, Joaquim Sother de Alencar, Cícero Romão Baptista, José Jacome de Fontes Rangel, Fructuozo Manoel Dias, Antonio Alves de Carvalho Lima, Guilherme Moreira Ramos de Maria, José Pereira da Silva, Zacharias Dias Ribeiro, José Augusto de Oliveira, Luiz da Cunha Siqueira Dantas, José Gonçalves Ferreira, as quais todas reconheço pelas proprias e dou fé. Do que para constar, mandou o mesmo commissario fazer este termo que vae por elle assignado comigo secretario de seu cargo e as testemunhas já acima nomeadas. E eu, Padre Francisco Ferreira Antero, secretario episcopal o escrevi. Padre Costa Lobo, commissario episcopal. (segue os nomes das demais testemunhas).
TERMO DE VERIFICAÇÃO DA SEGUNDA TRANSFORMAÇÃO DA HOSTIA
Aos onze dias do mez de Setembro de mil oitocentos e noventa e um, na Capella do S. S. Sacramento da Igreja do Joazeiro, freguesia do Crato, pelas oito horas e quarenta minutos da manhã, prezentes o Reverendo Comissario Padre Clycerio da Costa Lobo, comigo secretario de seu cargo e como testemunhas o Reverendo vigario Manoel Francisco da Frota, Padre Cícero Romão Baptista e os senhores: Fructuozo Manoel Dias, Antonio Alves de Carvalho Lima, Agostinho Pessôa de Queiroz, Guilherme Moreira Ramos de Maria, José Pereira da Silva, Zacharias Luiz Arnaud Januario, José de Aquino, José Augusto de Oliveira, Luiz da Cunha Siqueira Dantas, Francisco Manoel Dias, José Gonçalves Ferreira, Joaquim Francisco das Chagas Moreno, Manoel Ferreira Ferro, Vicente Ferreira Dias, Bento Ferreira Lima, Manoel Alves Teixeira, João Alves da Cruz, Eduardo Guilherme da Corte, Antonio Gonçalves Dias Sobreira, Doutor Herculano de Oliveira Torres Galindo, Joaquim de Aguiar Cordeiro, Antonio Lopes Ferreira Ventura, Manoel Marinho Torres, Benjamim Fiuza Ligna; e sendo ahi passou logo o Reverendo Commissario a celebrar o Santo Sacrificio da Missa, na qual administrou a communhão a Beata Maria de Araújo. Logo que lhe foi dada a communhão, caio a beata em estado de extazes e um quarto de hora depois a mandado do já nomeado Reverendo Commissario, foi ella despertada do estado extático em que se achava, abrindo bem a bocca e estendendo sobre os lábios a lingua, de modo que poderam todos os circunstantes, especialmente as testemunhas acima nomeadas, observar a hóstia em via de transformação. Ainda para este facto ser melhor testemunhado mandou o Reverendo Comissario que a Beata, já nomeada, deitasse n’uma salva garnecida com um sanguinho a particula que começava se transformar em sangue; transformação essa que se foi tornando mais completa quando já a particula se achava depositada na salva referida. O sangue que desta vez observava-se era um pouco denegrido, subsistindo porém algumas parcellas das espécies sacramentais, sendo ainda para notar-se que a língua da beata, apenas deitava ella a hóstia sobre a salva, conservava-se, como todos attentamente testemunharão, perfeitamente limpa convencendo-se assim todos de que aquelle sangue não era o próprio sangue da beata. Houve o Reverendo Commissario de dar a segunda vez a Communhão pelo facto de ter sido extrahida a primeira particula e operou-se pela segunda vez, e por modo ainda mais distincto, a transformação da hóstia em sangue que foi então em maior quantidade aprezentando uma côr como que de violeta. Ainda para ser bem observada a transformação referida, teve o Reverendo Commissário de, fazendo-a debaixo de obediência, despertar do extase em que segunda vez cahira e mandal-a abrir a boca, estender a língua e finalmente deitar na salva a particula transformada em sangue e de modo mais completo que da primeira vez. Terceira vez, finalmente, foi administrada a Beata a sagrada Communhão na intenção de fazel-a commungar verdadeiramente; mas succedendo ter-se operado, desta vez, a transformação já referida, de um modo ainda mais distincto e aprezentando maior copia de sangue o qual aprezentava uma côr como que de escarlate e corria pelo sanguinho que guarnecia a salva, houve ainda o mesmo commissario e do mesmo modo já acima relatado, de a mandar depozitar aquella particula da mesma salva, com o fim de ser tal facto bem observado e testemunhado, como effectivamente o foi, subsistindo ainda, embora em menor quantidade, algumas particulas das espécies sacramentais. Em concluzão lhe foi administrada pela quarta vez a Sagrada Communhão, quando então, mediante a benção do Reverendo Pe. Cícero pôde ella beata commungar realmente. Uma vez isto bem observado e verificado, mandou o Reverendo Commissario que de tudo se fizesse o competente termo, para constar, o qual ora faço e vai assignado pelo Reverendo Commissario já nomeado, commigo Secretario de seu cargo, e as testemunhas supra. Eu Padre Doutor Francisco Ferreira Antero, secretario episcopal o escrevi. Em tempo: Declaro que durante as trez vezes que a Beata deitou na salva as particulas consagradas, observou-se que tanto a bocca quanto a lingua da mesma se conservavão perfeitamente limpas e sans, entretanto que em quanto as sagradas formas se conservação na bocca da mesma divizavão-se-ellas tintas de sangue. E eu Padre Doutor Francisco Ferreira Antero o escrevi. (Todas as testemunhas acima nomeadas)
ADITAMENTO AO AUTO DE PERGUNTAS FEITAS À BEATA MARIA DE ARAÚJO
Aos onze dias do mez de Setembro do anno do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo, de mil oitocentos, noventa e um, no Consistório da Capella de Nossa Senhora das Dores da povoação do Joazeiro, onde achava-se o Reverendo Commissário Padre Clycerio da Costa Lobo, commigo Secretario de seu cargo, e sendo ahi, compareceu a Beata Maria de Araújo, pedindo para ser de novo admittida a fazer algumas outras declarações que lhe tinham escapado da primeira vez, o que sendo admitido pelo mesmo Reverendo Commissario já nomeado, passou elle a dirigir a Beata a seguinte pergunta:
O que tem mais a declarar à cerca dos factos extraordinários occorridos consigo nesta povoação? Ao que respondeu: Que no dia vinte e um de agosto de mil oitocentos e oitenta e nove, quando então morava ella em casa de sua mãe, cerca de seis horas da tarde d’aquelle dia, teve ella uma visão de Jesus Christo, o qual aparecendo-lhe em forma humana e perguntando-lhe se o conhecia, ao que ella respondendo que não, aprezentou-se-lhe a derramar sangue desde a cabeça até os pés e do proprio lado, protestando ser elle o seu espozo que tanto a amava, com recommendação de que o amasse, e que viesse à Igreja a fazer uma confissão, segundo a intenção delle, como preparação para se consagrar toda a elle e assim dispor-se para outras graças que de futuro lhe tinha de dar: então Nosso Senhor lhe recommendou que fizesse quinze estações em união com sua Paixão e em honra das Dores de sua mãe S. S. terminando cada uma das estações com sete Padre Nosso e sete Ave Marias. Durante aquellas estações Nosso senhor lhe apareceu diversas vezes, mas de relance e sempre coberto de sangue, declarando a seu pedido que assim soffria para que ella o amasse e pela conversão dos pecadores, instando para que tomasse sobre si todos os seus soffrimentos, para a realização do que lhe promettia novas graças que lhe aproveitarião tanto a ella propria como a este lugar. No fim das ditas estações, cerca de duas horas da manhã do dia vinte e dous de agosto de mil oitocentos, oitenta e nove, é que Nosso Senhor Jesus Christo pela segunda vez lhe ministrou a Communhão por suas proprias mãos, sob a especie propria de sangue n’um calice de ouro que lhe deu a beber, derramando parte delle sobre sua cabeça que chegou a ensopar o véo e a murça que ella trazia, ficando ella então em estado de extazes do qual despertando e sentindo-se afflicta por não saber o que fizesse do sangue que cahira sobre si, houve de Jesus a seguinte resposta: que de tudo desse parte ao confessor o qual fizesse a esse respeito o que bem entendesse, accressentando que se preparasse para muito soffrer por amor delle; que dias haveria que ella havia de soffrer tanto que se supporia delle a abondonada, mas que assim não era; que se reanimasse em seu serviço e o seguisse, pois que, por maiores que sejam os soffrimentos dessa vida são elles passageiros, declarando ainda que ella nesta vida nunca teria paz e nem alegria por quanto elle nunca as teve. Declarou mais que muito antes da manifestação destes phenomenos actualmente aqui occorridos, succedeu que benzendo ella mesma um pouco de vinho que lhe fôra ministrado por occasião de se sentir muito enfraquecida, converteu-se o dito vinho em sangue o qual só ella bebeu por obediência ao seu confessor; resproduzindo-se facto semelhante ao tomar ella pouco de leite e algum chá que lhe era dado como medicina tudo isto declarava Nosso Senhor ser como uma preparação para maiores graças de futuro; que elle ia manifestar sua divina pessôa prezente na eucharistia, fazendo nella aparecer sangue e que ella acreditasse que ali estava elle proprio; o que tudo elle fazia para confirmar a fé della e de tantas outras pessôas na prezença real delle na eucharistia; sangue esse que servia de salvação para muitos e de condenação para outros. Declarou mais que ao tempo em que o Reverendissimo Monsenhor Monteiro, digo, Francisco Rodrigues Monteiro achava-se com sua Excellencia Reverendissima em visita na Freguesia de Sobral, achando-se ella em vigilia diante do S. S. Sacramento, lhe foi revelado que o Seminario do Crato se havia de abrir, que delle seria reitor o mesmo Monsenhor já acima nomeado o qual seria coajuvado por mais dois sacerdotes os quais pouco depois lhe foram revelados quaes eram elles, do que tudo deu ella conhecimento ao seu proprio director, recommendando-lhe até que disso se desse conhecimento ao mesmo Monsenhor, declarando mais que do dito seminário sahirião bons padres; graça essa que elle devia pedir. Finalmente nessa mesma occasião Nosso Senhor mesmo lhe significou ser elle o proprio dono do dito Seminário, juntamente com Maria e José. Além das vizões de Nosso Senhor, declarou ella ter tido muitas vezes as de Nossa Senhora que lhe aparecia vizivelmente. Numa dessas vizões a S. S. Virgem recommendou que nesta Igreja do Joazeiro se cantasse, das seis para as sete horas da tarde o officio em honra de suas dores, promettendo muitas graças particulares que Deus tinha de dar a este logar, juntando-se aquelle officio a ladainha e o Pranto. Assim nesta occasião como em tantas outras, a S. S. Virgem lhe revelou que grandes provas aguardavam ao sacerdote que aqui se achava e a si mesma, promettendo porem que de tudo se haviam de livrar, mediante a confiança em Deus e a intercessão da mesma S. S. Virgem. Até a propria seca de mil oitocentos setenta e sete a mil oitocentos setenta e nove lhe foi revelada de parte da mesma S. S. Virgem, que muito recommendava que orasse para alcançar melhor tempo, indicando mesmo diversas especies de praticas de piedade para esse fim, como sejam novenas das almas, das suas dores, em honra das Cinco Chagas, ordenando nessa mesma intenção vigilias cada hora, as quais vigilias haviam de ser praticadas por diversas pessôas revesadamente; tudo porem com participação de seu Confessor, salvo um ou outro caso do qual não tem maior lembrança. Declarou mais que tudo quanto tem ella exposto, já no auto de perguntas já no additamento a ella feito, o que tem feito de si mesma e por inspiração de Deus e não por insinuação de seu director espiritual de cuja direccção, em consequencia da grande affluencia de povo a esse lugar, como fim de chegar-se ao Sacramento da penitencia acha-se ella privada já há muitos dias e conseguintemente como que abandonada neste particular. Em continuação e especialmente a respeito dos factos occorridos no Joazeiro, disse que desde Agosto de mil oitocentos oitenta e nove a esta parte, teve ella de ser mandada em espírito por ordem immediata de Deus a ir ter com o Papa em Roma a recommendar-lhe a approvação destes factos, com promessa da dispensação de maiores graças para a Igreja Universal, se por ventura tal approvação se effectuasse. Então Nosso Senhor lhe dizia que muitos não queriam acreditar nesses milagres, que diziam mesmo ser iluzão, se approvados não fossem pela Igreja, a isso accressentando: E não posso eu fazer de mim mesmo milagres como na primitiva Igreja?! Ao mesmo tempo lhe dizia Nosso Senhor: muitos dizem que eu não posso mais derramar meu Sangue, mas não... se me goso eu na gloria não posso deixar de soffrer no mundo, a isso accrescentando – homens que fazeis que não vindes a mim enquanto é o tempo de mizericordia!!.. de novo vou reproduzir todos os tormentos de minha Paixão para a salvação dos homens. Trez vezes teve ella de ir em espirito a Roma a tratar com o Papa sobre esse assumpto e com as circunstancias já expostas por ordem mesmo de Deus, alem de ter ido uma outra vez a mandado do confessor, como penitencia sacramental; não se lembrando se em todas essas vezes o Papa prestou-lhe attenção. Muitas vezes já na missa, já na Communhão, já em diversos arrebatamentos de seu espirito a Deus, lhe tem sido revelado que grande perseguição está iminente e já em começo a Igreja Brasileira, havendo de ser perseguidos e encarcerados e talves mesmo mortos muitos Padres por cauza do Cazamento Civil; que muitos povos se levantariam, uns a favor outros contra a Igreja, mas que afinal se daria o triumpho da Igreja. No correr desse processo, já a cerca de dezoito dias, lhe tem sido divinamente revelado e isso por occasião das communhões miraculozas a ella administradas por Jesus Christo mesmo e recebidas debaixo de obediencia a Deus, que cumpria se desse pressa ao dito processo, porque assim fosse quanto antes encaminhado ao Papa a merecer sua approvação; revelações estas que houveram lugar tanto na povoação do Joazeiro, como na Casa da Caridade, onde por ordem do Senhor Bispo Diocezano acha-se recolhida já há quinze dias e conseguintemente privada da direcção de seu proprio director espiritual ordinário, o que declara aqui por uma especial recommendação de Deus nesse particular o qual então lhe dizia que com quanto se achasse ella privada de seu confessor ordinário, não seria privada de seu Deus. Que aquilo que elle operava em outra parte, operava igualmente aqui, o que serveria para mais confundir os homens, por mais inventos que houvessem para tanto isso se contrariar, declarando que até uma solução de ferro, a qual lhe fora administrada para experiencia pelos médicos lhe tinha sido revelada já há doze dias pouco mais ou menos, com todas as circuntancias que se haviam de dar como de facto se deram. Além das revelações já expostas, declarou mais ter, assim antes da transformação das hostias em sangue, como depois do facto, visto choros de Anjos, precedidos de Jesus e Maria entrando processionalmente na Igreja do Joazeiro com tochas accezas e entoando cânticos, todos em direcção ao altar do Santissimo para ali adoral-o sendo então revelado da parte de Deus, a seu pedido, que aquelles que ali estavam eram anjos que vinhão adorar a Deus e que assim também com cânticos e tochas viriam muitos romeiros a adorar seu preciozo sangue, muitos dos quaes se haviam de converter e d’ali se haviam de retirar chorando, por não poderem ali ficar. E n’uma dessas occasiões, como em tantas outras, que ella vio Nosso Senhor em pé sobre o suppedaneo, a derramar sangue da fonte, do lado, das mãos e pés, abrindo mesmo muitas vezes seu coração, dizendo-lhe: ficae aqui dentro do meu coração para me amar, não somente por ti mas por outros que não me amão; quero aqui derramar abundantes graças que muitos hão de aproveitar, aqui adorando meu proprio sangue; quero aqui ainda criar apostolos do meu coração para a salvação de muitas almas, tanto deste lugar como de outras partes. Estava eu já recolhida na Casa de Caridade da Cidade do Crato, segundo ordenara sua Excellencia Reverendissima o Senhor Bispo Diocezano, appareceo Jesus Christo em pé no suppedaneo do altar da Capella da dita Casa, tendo suas mãos e pés ensanguentados, o coração aberto e a derramar sangue, tendo nas mãos uma hostia ensanguentada, dizendo então: Isto faço para manifestação de minha glória e salvação dos homens, como para confirmal-os na crença de que o sangue derramado nas hostia é o meu proprio sangue, a isto accrescentando – vinde todos a mim, em quanto é tempo de mizericordia – finalmente disse: Cumpre que se dê pressa no processo para que meu sangue não continue a ser profanado. Iguais apparições de Jesus houvéram na mesma Capella nos dias trinta do mez próximo passado, no dia primeiro e segundo do corrente mez de Outubro, sendo porem os primeiros de que acima se trata, nos dias vinte e um, vinte e dous e vinte e tres do mes passado; declarando Nosso Senhor em todas essas apparições que qualquer demora no processo era como um abuzo de graças. Diversas vezes, já na oração, já antes e depois da missa, como ainda antes, no acto e depois da communhão, Nosso Senhor me appareceu todo ensanguentado, revelando-me que, para confirmar os padres da commissão na verdade de seu sangue, apparecido nas hostias, ia elle fazer-lhes ver duas hostias ensanguentadas que elle tiraria de seu proprio coração, para que não somente vissem, mas ainda commungassem. Era no dia vinte e oito do mez passado (Setembro). Estava eu meditando na Paixão de Nosso Senhor Jesus Christo, juntamente com Monsenhor Monteiro e ao mesmo tempo fazia a renovação de meus votos particulares quando nosso Senhor appareceu-me e poz-me nas mãos duas particulas que tirara de seu coração dizendo que dava aquellas particulas para que vissem os poderes da Communhão, digo, da Commissão, sendo de sua vontade que até mesmo commungassem, como de facto commungarão logo depois, os padres da Commissão dessas particulas miraculozas – ensanguentadas. Desde o dia em que me recolhi a Casa de Caridade até hoje tenho commungado assim miraculozamente aparecendo as particulas ensanguentadas, o que communico por assim me ter sido ordenado divinamente. Há cerca de dous annos me apparece com o Coração ensanguentado Nosso Senhor Jesus Christo, mandando-me recommendasse que os padres e os bispos fizessem preces e celebrassem muitas missas pelo bom exito dessa cauza, promettendo abundantes graças a quantos assim fizessem; que se não conheciam esse mysterio, por ser um mysterio novo de que não tratam os theologos, se recolhessem em seu divino coração onde beberiam o conhecimento e a crença desse mysterio, como conheceriam também o seu poder, sua bondade e mizericordia para com os homens. Em conclusão disse que muitas vezes Nosso Senhor lhe revelou ser de sua divina vontade a fundação aqui de uma ordem que se encarregasse do culto perpettuo da S. S. Trindade, bem como que fosse sempre aqui bendicto e louvado seu preciozo sangue. Que nos dias tres e quatro do corrente mez, tanto depois da missa, como ao rezarem-se as vesperas na festa do S. S. Rozario, appareceu-me a S. S. Virgem com ar de tristeza e me disse: Todos esses factos aqui occorridos são graças rezervadas para os últimos tempos. O meu divino filho quer castigar os homens, acabando com o mundo e por mais que eu ore em favor do mundo, respondeu-me que já não pode mais, que já se vê obrigado a castigar o mundo. Finalmente disse que eu tinha vindo da Igreja em dias do corrente anno muito afflicta com os phenomenos dados nas hostias consagradas, então alguém me consolava dizendo-me que tudo isso era vontade de Deus. Que aquelle sangue derramado nas hostias consagradas era o sangue de Jesus Christo para a salvação dos homens. Nesse interim uma criança de sete mezes que até então se conservava callada respondeu bem distinctamente – é – o que foi testemunhado por duas pessôas além de outra que ouvio do quarto contíguo em que estava. E assim houve por concluido este additamento que vae assignado pelo Reverendo Comissario, commigo secretario, assignado de Cruz da testemunha por não saber escrever, o que posto por fé. E eu Padre Doutor Francisco Ferreira Antero, secretario da Commissão o escrevi. Padre Costa Lôbo, Commissario Episcopal, + Cruz de Maria Magdalena do Espirito Santo de Araújo.
TERMO DE VERIFICAÇÃO DA TERCEIRA TRANSFORMAÇÃO DA HOSTIA
EM 12 DE SETEMBRO DE 1891
Aos doze dias do anno de mil oitocentos noventa e um na Capella do S. S. Sacramento da Igreja do Joazeiro, Freguesia do Crato, pelas oito horas da manhã presentes o Reverendo Commissario Padre Clycerio da Costa Lobo, commigo secretario de seu cargo e como testemunhas o Reverendo vigario Manoel Francisco da Frota, Padre Cícero Romão Baptista, e os senhores: Fructuozo Manoel Dias, Doutor Herculano de Oliveira Torres Galindo, Antonio Alvez da Cruz Lima, Agostinho Pessôa de Queiroz, Guilherme Moreira Ramos, José Pereira da Silva, Zacharias Luiz Arnaud, Luiz da Cunha Siqueira Dantas, Francisco Manoel Dias, Joaquim Francisco das Chagas Moreno, Manoel Ferreira Ferraz, Vicente Ferreira Dias, Bento Ferreira Lima, Manoel Alves Teixeira, João Alves da Cruz, Joaquim de Aguiar Cordeiro, Antonio Lopes Ferreira Ventura, Manoel Maninho Torres, Antonio Augusto Brazil, Antonio Carolino da Nobrega, Josué Alves da Nobrega, Manoel Gomes de Sá, Anízio Silverio da Nóbrega, João Severiano da Silva Sobrinho, Francisco da Silva Bezerra, Manoel Marinho Torres, Antonio Nunes de Maria e sendo ahi passou o mesmo Reverendo Commissario a celebrar o Santo Sacrificio da Missa, na qual administrou a Communhão a beata Maria de Araújo. Terminada a missa verificou o mesmo Reverendo Commissario achar-se a beata em estado de extases, do qual mandou que despertasse debaixo de obediência a Santa Igreja e que abrisse a bocca e estendesse a lingua ao que ella promptamente obedeceo. Verificou-se então achar-se a particula quase totalmente transformada em sangue e de um modo mais distincto que das outras vezes, notando-se mais, como foi testemunhado e verificado pelos circunstantes e especialmente pelas testemunhas retro nomeadas, haver algumas parcellas de carne, além de que a particula aprezentava dimensão muito superior a de uma particula commum. Para ser bem verificado esse facto fez o Reverendo Commissario depositar a beata a particula de que se trata n’uma salva como de outras vezes e então todos os que estavam prezentes observaram bem e verificaram a transformação da hostia como acima fica mencionado como ainda observarão, apenas a Beata depozitou na salva a dita particula, achar-se a bocca e a lingua della perfeitamente limpa e san. Houve de se dar segunda vez a communhão à Beata, o que foi feito pelo mesmo Reverendo Commissario e voltando elle do altar já achou a mesma Beata em estado extatico, do qual fez-a despertar como d’outras vezes e mandando abrir a bocca e estender bem a lingua, verificou-se de um modo ainda mais distincto a transformação da hostia em sangue que então foi em maior quantidade, aprezentando nessa occasião uma cor mais viva como de proprio sangue e sentindo-se mesmo que bem distinctamente cheiro de verdadeiro sangue. Ainda desta vez foi depozitada a particula em uma salva, digo, a particula transformada em uma salva a ser bem observada e verificada por todos, como effectivamente o foi. Terceira vez finalmente foi-lhe administrada a Communhão, mas então pelo Reverendo Padre Cícero, verificando-se a transformação da hostia em sangue ainda em maior quantidade o que sendo bem verificado, achou o Reverendo Commissario excuzado fazel-a extrahir, commungando assim a Beata realmente com a benção que lhe foi dada pelo mesmo sacerdote retro nomeado, relevando notar-se que nestas duas ultimas vezes, como da primeira a bocca e a lingua da Beata conservarão-se perfeitamente limpas e sans, já logo depois da extração da particula, já logo depois da Communhão. Do que tudo para constar, mandou o Reverendo Commissario fazer este termo que vai por elle assignado, comigo Secretario de seu cargo e as testemunhas retro nomeadas, as quaes todas reconheço pelas proprias e dou fé.E eu, Padre Doutor Francisco Ferreira Antero, secretario da commissão o escrevi. Padre Costa Lobo, commissario episcopal. (nomes das testemunhas novamente citados)
TERMO DE ABERTURA E DE VERIFICAÇÃO DA CAIXA DE VIDRO CONTENDO DIVERSOS PANNOS ENSANGUENTADOS
EM 12 DE SETEMBRO DE 1891
Aos doze dias do mez de Setembro do anno de mil oitocentos e noventa e um, as cinco horas da tarde na Capella do S. S. Sacramento da Igreja de Joazeiro, freguesia do Crato, onde foi vindo o Reverendo Commissario Padre Clycerio da Costa Lobo, commigo secretario de seu cargo, prezentes como testemunhas o Reverendo vigario Manoel Francisco da Frota, Padre Cícero Romão Baptista e os Senhores: Doutor Herculano de Oliveira Torres Galindo, Joaquim de Aguiar Cordeiro, Antonio Lopes Ferreira Ventura, Manoel Marinho Gomes, Joaquim Francisco das Chagas Moreno, Guilherme Moreira Ramos de Maria, Antonio Alves de Carvalho Lima, Zacharias Luiz Arnaud, José Manoel Correia e Silva, Saturnino Correia da Silva, Serafim José Vianna, Manoel Francisco de Sá Araújo, Joaquim Gomes Correia, Laurentino Ferreira da Costa Ventura e, sendo ahi, fez o mesmo Reverendo Comissario abrir a Caixa que continha diversos pannos ensanguentados e são os seguintes: sessenta sanguinhos aprezentando diversas manchas de sangue e cinquenta e cinco destes contendo particulas transformadas em sangue de modo tal que assemelhava-se a carne; sendo para notar-se que havia mais um sanguinho contendo as particulas miraculozas de que trata o Doutor Ildefonso em seu atteztado, uma das quaes particulas achava-se convertida em sangue, se bem que se distinguissem nella especies de pão; onze corporais contendo outras particulas transformadas também em sangue e mais dous que aprezentavão somente manchas d’agua de sangue; um amido todo ensanguentado; duas palas também com manchas de sangue; quatro toalhas do mesmo modo ensanguentadas e dois pedaços de pannos, cortado de duas toalhas, aprezentando um uma porção de sangue, outro somente algumas pintas; um véo e uma murça tintas de sangue em grande quantidade, sangue esse que sobre ella foi derramado por occasião da Communhão miraculoza, a ella administrada n’um calice de ouro, como disso se faz menção já no auto de perguntas, já no adittamento por ella feito; uma outra murça com algumas manchas. Deve-se observar que dous ou tres dos sanguinhos ensanguentados de que trata-se acima foram os que se serviram para purificar o sangue derramado na occasião de duas ou tres communhões miraculozas a que se referem alguns attestados que correm impressos. Vistos e verificados todos os pannos de que retro se faz menção, mandou o Reverendo Comissario que, para constar, se fizessse o competente termo que ora faço e vae assignado pelo Reverendo Comissario, commigo secretario de seu cargo e as testemunhas já nomeadas, as quaes reconheço como proprias e dou fé. Eu Padre Doutor Francisco Ferreira Antero o escrevi. Padre Costa Lôbo, Commissario episcopal (assinatura dos já nomeados)
ADDITAMENTO AO RELATORIO APREZENTADO A SUA EXCELLENCIA REVERENDISSIMA PELO REVERENDO PADRE CÍCERO ROMÃO BAPTISTA
Como retro se vê lançado. Aos quartoze dias do mez de Setembro do anno de mil oitocentos noventa e um em Casa de moradia do Reverendo Comissário Padre Clycerio da Costa Lobo, onde me achava prezente, eu Secretario da Commissão, abaixo assignado e sendo ahi compareceu o Reverendo Cícero Romão Baptista, pediu para ser admittido a rectificar alguns topicos do relatório por elle aprezentado a sua Excellencia Reverendissima, Senhor Bispo Diocezano, acerca dos factos occorridos nesta povoação do Joazeiro e bem assim a cerca de algumas couzas particulares concernentes a pessoa da Beata Maria de Araújo. O que sendo admittido pelo mesmo Reverendo Commissario passou o Reverendo Padre Cícero a fazer as seguintes declarações: Que tendo dito no auto de perguntas a que procedeu sua Excellencia Reverendissima haver a beata Maria de Araújo como suppunha ter alguma vez vomitado sangue, vinha agora isso rectificar declarando que em consequencia de uma queda motivada por ataques nervozos de que ella soffria, teve ella por uma vez de deitar escarros de sangue. Ainda para retificação tinha a declarar que a resposta dada por Nosso Senhor a pedido da Beata Maria de Araújo a cerca da transfusão de sangue da hostia consagrada nos termos: É isso uma manifestação de tua fé e da mizericordia de Deus para com os homens; assim é preciso e que nada mais lhe era preciso saber, não foi extamente nestes termos e sim nos seguintes: É isso uma manifestação de fé e de sua mizericordia, que assim era preciso e o mais não carecia ella saber. Declarou mais em additamento ao relatório alludido, que, no dia quinze do mez de Novembro do anno de mil oitocentos oitenta e nove, de ordem de Nosso Senhor Jesus Christo, foi a Beata Maria de Araújo ao purgatório para em logar della mesmo fazer penitencia pelas almas com recommendação antes que, para esse effeito, fizesse uma confissão de ordem delle e isso manifestasse ao confessor para fim de haver delle o consentimento e até mesmo o real mandado, dando-se que apenas o fez assim o confessor que era o proprio declarante e lhe deu a benção nessa mesma intenção cahio a dita Beata em profundo extases, ficando a derramar copiozo sangue logo depois de sua prostração por terra: corria-lhe então sangue da fronte e dos olhos pela face abaixo, sendo para notar-se que esse facto se reproduzio durante o resto do mez de novembro do dito anno, permanecendo nesse estado, cada vez pelo espaço de cinco horas. Nessas occasiões entrava ella effectivamente na participação dos soffrimentos das almas do Purgatorio que lhe affetavam assim a alma como ao corpo. Ao seu proprio mandado, como Confessor, teve ella por muitas vezes que repetir essa penitencia indo ao Purgatorio. Além de ir a Beata de que trata-se ao Purgatorio, já de ordem immediata de Deus, já de seu confessor, teve ella também de ir ao Inferno de ordem do confessor que a mandava em companhia de Jesus, Maria e José, e dos anjos de sua guarda e do proprio Confessor, a prender alli os demônios para maior bem da Santa Igreja e Salvação das almas dando-se realmente a prisão dos demônios por intermédio de um anjo conforme mandado della em nome de Deus; succedendo em taes occasiões banhar-se em copiozo sangue, sempre em estado de extases. Finalmente a Beata, a convite de Deus, se não lhe falha a lembrança, teve também de ir no ceu o que por outras vezes aconteceo, mandando-lhe isso fazer o Confessor como penitencia sacramental para o augmento da gloria de Deus; verificando-se em algumas occasiões de sua ida ao ceu verificar-se, digo, ficar em extases e a derramar sangue. É para notar-se que toda vez que lhe foi permittido ir ao ceu ou ao purgatorio, ella recitava a seguinte jaculatoria, que de Nosso Senhor mesmo aprendera e é a seguinte: Louvada seja a Paixão e Morte de Jesus Christo e as dores da Imaculada sempre virgem Maria. Jaculatoria essa que quando por ella recitada em suas descidas ao inferno mandava os horrores do mesmo, provocando os demonios a blasfemias, ao passo que os anjos e os santos no ceu lhe correspondião dizendo: Para sempre seja louvado. Era essa jaculatoria como a arma de que ella se servia sempre para conhecer e livrar-se das illuzões e malicias do inimigo. Com relação a verdade das actuaes manifestações aqui dadas com a transformação das hostias consagradas em coração humano, bem como em sangue, cumpre-me declarar que isso já me tinha sido revelado muito antes dos factos como uma prova sensivel da verdade dos mesmos factos já anteriormente acontecidos e isso via de outra pessôa. Consultando eu a Nosso Senhor diante de uma hostia consagrada, sobre a especie do sangue apparecido nas hostias que se davam em communhão a Beata, obtive a seguinte resposta no dia quatro de Agosto do corrente anno, digo, deste anno: Ego sum Jesus, hostia Sancta, hostia pura, hostia immaculata: vivificavi sanguinem cordis ad peccatores; palavras estas que eu ouvi bem distinctamente. No dia seguinte, cinco de agosto do mesmo anno, dia de Nossa Senhora das Neves depois de eu ter celebrado a missa em honra ao Sagrado Coração de Jesus como havia promettido e instando eu para que Nosso Senhor se dignasse cumprir a promessa feita, isto é, de me revelar aquelle mysterio, começou elle a dizer as seguintes palavras, que eu ia escrevendo uma por uma e até corregindo alguma quando acontecia errar, eil-as: Vide me feceris... Conservus tuus sum et frutuum suorum habetium testimonium Jesu. Deum adora testimonium sanguinis mei et spiritum prophetiae. Ego sum vitis vera, hostia sancta, hostia pura, hostia immaculata, jurando elle proprio e mandando-me jurar por elle mesmo como Creador, como amigo, como espozo, como Redemptor. Finalmente no dia seguinte, dia da transfiguração do Senhor eu com instancia que nosso Senhor se dignasse de dar-me outro testemunho de como aquelle sangue apparecido nas hostias era o verdadeiro sangue delle de modo que eu formasse a esse respeito minha consciência, succedeu que por ocassião de reconciliar eu a Beata, me senti inspirado a exigir que Nosso Senhor mesmo lhe desse a Communhão e que Maria S. S. fosse quem commungasse em logar della; apenas eu proferi a benção que se costuma dar aos que preparam para a communhão, tomou-se a Beata de um rapto extático, apparecendo em sua bocca que conservava-se entre aberta, uma particula, a qual particula eu proprio extrahi, adorei tendo-a em minhas mãos, enquanto ella propria n‘aquelle estado de extases a adorava também, tirando della uma parcella com a qual communguei e dando a outra parte em communhão à Beata. Continuava eu a pedir um testemunho da verdade desses mysterios de modo que minha consciencia ficasse tranquilla e segura a esse respeito e Nosso Senhor accedendo ao meu pedido por vezes começou a dar o testemunho pedido, que só por motivos particulares veio agora a ser completo. Ahi a expozição substancial que recebi de parte de Nosso Senhor: A eucharistia é o mysterio dos mysterios. A eucharistia é o retrato de toda Redempção e todo amor. Para que assim os homens o divizassem, institue este Sacramento em hora em que o meu coração estava mui repleto de amargura, de dor e tristeza. E como aproximava-se a minha morte, não quiz-me separar de voz, ainda mesmo morrendo; mas sim fixar-me no meio destes filhos, captivo de minha ternura para os não deixar nunca, consolando-os, animando-os e sacrificando-me continuamente por elles. E do mesmo modo como foi instituido ficara perpetuado até o fim dos seculos. A humanidade está possuida de um modo mysteriozo até então desconhecido dos homens e ao mesmo tempo está impassivel, como depois da Ressurreição com todas as propriedades dos corpos gloriozos. Segundo a opinião dos theologos está impassivel na eucharistia; mas também está em estado de victima real, possível existente desde toda a eternidade na mente divina. E para satisfazer este ardente desejo que consome o meu coração, para de novo manifestar-me aos homens, foi necessário eu despojar-me da força de meu braço e multiplicar as mais espantozas maravilhas, vindo de novo derramar o meu sangue entre vós. Sempre que olhares para este sacramento lembra-te da profundeza impenetravel deste mysterio. Do mesmo modo que entreguei-me aos homens permanecerei até o fim dos seculos. Assim como a minha palavra é infalível do mesmo modo as minhas obras serão permanentes. Por tanto não há nada aqui, nestas novas manifestações que seja contrario ao ensino da Igreja e dos theologos, mas antes é como luz soberana e como manancial de todas as perfeições divinas que vos transportará através do véo que involve as vossas almas nesta fé quazi sem vida, e depois disto as vossas almas serão inundadas n’estas ineffaveis profundezas que divizareis no mysterio da eucharistia: hoc est corpus meam – et non, hic pauis est corpus meum. São estas as palavras textuais de Jesus Christo. Em relação a minha humilde pessôa, disse Nosso Senhor assim: Te ergo, fili mi, confortare ingratia qua est in Christo Jesu. Et quae audivisti me per multus testes, hoc commenda fidetibus hominibus qui idonei crunt et ... docere: Labora sicut bonis miles Christi Jesu. Intellege quae dico, dabit enim tibi Dominus in omnibus intellectum. Em conclusão, faço aqui estampar as palavras seguintes que Nosso Senhor mandou-me dizer, tanto que eu vim fazer perante esta Commissão o presente additamento. Eil-as: Non possem ego a me ipso facere quidquam. Sicut audio, judico et judicium neum justum est, quia nom quero voluntatem emam, sed voluntatem ejus qui misit me. Si ego testemonium perhibeo de ipso, testemonium meum non est verum. Alius est qui testemonium perhibet et scio guia est testemonium quod perhibet de me. Foi-me por vezes communicado como ultimamente se repetio, ser da vontade de Deus que se fundasse nesta povoação do Joazeiro uma ordem encarregada do culto perpetuo da S. S. Trindade, e isso como condição sem a qual não se dispensarião em toda sua plenitude as graças promettidas no correr dessas mysteriozas manifestações aqui occorridas; o que digo por me ser recommendado que assim o fizesse, a fim de que chegasse compettentemente o conhecimento disso a Santa Sé para a decretação legitima do dito culto. E assim houve por encerrado este additamento que fez ao seu relatorio, e vae assignado pelo Reverendo Comissario, commigo secretario da Commissão e pelo proprio relator retro nomeado e abaixo assignado. E eu Padre Doutor Francisco Ferreira Antero, secretario da commissão o escrevi. Padre Costa Lobo, Commissario Episcopal. Padre Cícero Romão Baptista.
CONCLUSÃO
Aos quinze dias do mez de setembro do anno de mil oitocentos e noventa e um, em casa de morada do Reverendo Commissario Padre Clycerio da Costa Lobo, onde me achava eu Secretario da Commissão, faço estes autos conclusos ao mesmo Reverendo Commissario, do que para constar fiz este termo. E eu, Padre Doutor Francisco Ferreira Antero, Secretario da Commissão o escrevi.
CONCLUSAS. O muito Reverendo Padre Doutor Secretario da Commissão Episcopal, cite aos senhores José Pereira de Sá Magalhães e as Beatas Jael Wanderlei Cabral e Maria Leopoldina Ferreira da Solidade para, como testemunhas, comparecerem no Consistório da Capella desta Povoação, hoje, as onze horas da manhã, afim de depor a respeito dos factos extraordinários aqui occorridos. Joazeiro, quinze de setembro de mil oitocentos noventa e um. Padre Costa Lobo, Commissario Episcopal.
TERMO DE RECEBIMENTO.
E logo no mesmo dia, mez e anno e lugar supra declarados forão-me entregues estes autos com o despacho supra; do que para constar fiz este termo. E eu Padre Doutor Francisco ferreira Antero, secretario da Commissão o escrevi. CERTIFICO que intimei o despacho supra às testemunhas já nomeadas, e ficaram scientes. Dou fé: Aera et locus ut supra. E eu Padre Doutor Francisco Ferreira Antero, Secretario Commissão o escrevi.
TERMO DE ASSENTADA
Ainda no mesmo dia, mez e anno retro declarados no consistório da Capella do Joazeiro, em prezença do Reverendo Commissario já nomeado, passo a escrever o depoimento das testemunhas citadas cujos nomes, cognomes, filiação, naturalidade, idade, profissão, rezidencia são como ao diante se seguem. Do que para constar fiz este termo. E eu Padre Doutor Francisco Ferreira Antero, Secretario da Commissão o escrevi.
PRIMEIRA TESTEMUNHA
José Pereira da Silva Magalhães, natural da Freguesia de Villa Bella, bispado de Pernambuco, ora rezidente na Freguesia de Jardim deste bispado do Ceará, agricultor, idade de cincoenta anos incompletos, casado, testemunha jurada dos Santos Evangelhos, em um livro delles em que pós sua mão direita, promettendo dizer a verdade do que soubesse e lhe fosse perguntado acerca dos factos extraordinarios occorridos nesta povoação com a Beata Maria de Araújo. E logo o Reverendo Commissario passou a fazer-lhe as seguintes perguntas:
Primeira: Conhece a Beata Maria de Araújo, sabe de quem é filha e de onde é natural?
Respondeo quanto a primeira parte que sim, não sabendo porém de quem é filha, constando-lhe ser ella natural desta povoação.
Segunda: Sabe de si mesmo ou consta-lhe alguma couza com relação à transformação da hostia em sangue em occasião que a Beata communga?
Ao que respondeo que elle proprio vio muitos pannos manchados em sangue, e contendo particulas que aprezentavão forma de carne, constando-lhe que isto acontecera por occasião de commungar a Beata.
Terceira: Consta-lhe que a Beata tinha tido muitas vezes communhões miraculozas?
Ao que respondeo que sim, tudo isso foi ouvido da bocca de tres ou quatro pessôas fidedignas alem de que lhe constou pela leitura do attestado do Doutor Ildefonso.
Quarta: Consta-lhe que a Beata goza do melhor conceito perante o publico de modo que todos a julgão incapaz de qualquer impostura nesse particular?
Ao que respondeo que sim, sendo este o conceito que elle proprio faz de sorte que todos reputam aquelles factos por divinos e não nascidos de qualquer impostura.
Quinta: Sabe ou ouvio dizer a alguem que a Beata tem, muitas vezes, tido extases e estygmas miraculozos?
Ao que respondeo que sim, tendo isso ouvido de muitas pessôas de fé as quaes foram testemunhas prezenciaes desses factos, por ellas havidos por divinos.
Sexta: Consta-lhe que a mesma Beata em raptos extaticos tem ido tanto ao Ceo como ao Inferno e ao Purgatório, prendendo no Inferno demonios e libertando do Purgatório algumas almas?
Respondeo que sim, tudo isso ouvido de pessôas de fé que por sua vez ouvirão isso dizer ao Padre Cícero.
Setima: Apezar dos factos occorridos com a Beata sabe ou consta-lhe gozar ella de saude regular?
Ao que respondeo que sim, tendo esse phenomeno sido por elle testemunha observado com grande attenção.
Oitava: Que conceito faz ou consta-lhe que geralmente se faz quanto ao espirito que reina nesta povoação?
Ao que respondeo que nota em todas as pessôas que aqui se consagrão à vida de piedade verdadeiro espirito de Santidade e pureza sendo esse mesmo o conceito geral de todos.
Nona: Consta-lhe que se tinhão operado algumas maravilhas desde que se tem dado os diversos factos alludidos?
Respondeo que sim, porquanto por occasião de levarem duas beatas de nome Lucia e Julia, salvo o engano, a imagem do menino Jesus, para o fim de colherem esmolas a bem da Igreja e tendo-se depozitado a dita imagem no santuario particular da familia, exalou-se d’aquelle logar um odor esquizito, o que foi bem sentido por elle testemunha, e toda sua familia, além de outras pessôas que lhe são aggregadas, sendo para notar-se que esse facto se reproduzio quando foi depozitada em seu oratorio a imagem do Sagrado Coração de Jesus ahi levada pelo devoto Jacintho. E al não disse e nem lhe foi perguntado, havendo-se assim por encerrado esse termo, que depois de lhe ter sido lido e achado conforme, vae assignado pelo Reverendo Commissario e pela propria testemunha que reconheço pela propria, commigo secretario dessa commissão. E eu Padre Doutor Francisco Ferreira Antero, secretario da Commissão o escrevi. Padre Costa Lobo, commissário episcopal. José Pereira de Sá Magalhães.
SEGUNDA TESTEMUNHA
Jael Wanderlei Cabral, natural desta povoação do Joazeiro, deste bispado, idade de trinta e um annos, solteira, testemunha jrada dos Santos Evangelhos, em um livro delles em que poz sua mão direita, promettendo dizer a verdade do que soubesse e lhe fosse perguntado, a cerca dos factos extraordinários occorridos nesta povoação com a Beata Maria de Araújo. E logo o Reverendo Commissario passou a fazer-lhe as seguintes perguntas:
Primeira: Conhece a beata Maria de Araújo, sabe de quem é filha e donde é natural?
Ao que respondeo que sim, e sabe ser ella filha legitima de Antonio de Araújo, já fallecido e de Anna de Tal, sendo natural mesmo dessa povoação.
Segunda: Sabe se ella se dá a vida de piedade e desde quando?
Respondeo que sim, conhecendo-a como tal a quatorze annos, pouco mais ou menos, e constando-lhe por testemunho de outras pessôas que assim o fôra desde menina.
Terceira: Sabe ou ouvio dizer que a Beata tenha tido visões maravilhosas algumas vezes?
Ao que respondeo que isso ouvio dizer a diversos padres e que sabe de si mesma, chegando até a ouvir muitas vezes Nosso Senhor fazendo a Beata Maria de Araújo muitas recommendações para sua direccção espiritual, além de que ella propria vio muitas vezes Nosso Senhor a derramar Sangue, o que se deo cerca de dous annos antes das actuais manifestações, revelando então Nosso Senhor que acontecia isso para effeito de se confirmar o povo na fé da prezença real de Jesus Christo na eucharistia.
Quarta: Testemunhou alguma vez a transformação das hostias em sangue, carne e coração humano?
Ao respondeo que sim e muitas vezes.
Quinta: O que lhe foi particularmente revelado a cerca da especie do sangue, da carne e do coração humano apparecido nas hostias?
Respondeo que sim e muitas vezes, o que se deu em espírito.
Sexta: O que lhe foi particularmente revelado a cerca da especie do sangue, da carne e do coração humano apparecido nas hostias?
Ao que respondeo que Deus Padre lhe revelara há pouco tempo e precisamente depois da chegada do Padre Cícero, da Capital, ser aquelle sangue, carne e coração apparecido nas hostias, o verdadeiro sangue, a verdadeira carne e o verdadeiro coração humano de Jesus Christo e isso não obstando sua impossibilidade, por quanto se os anjos adoravão a Deus uno e trino sem o comprehender assim tambem todos seriam obrigados a conhecer e adorar esses prodigios novos de seu coração muito embora seja impassivel o coração de Deus. Relevando ainda observar-se que n‘uma communhão miraculoza que ella fez no proprio coração de Jesus o vio a derramar sangue dizendo: esse sangue que derramei e hei de derramar servirá de castigo para os que não acreditarem na minha onipotencia. Declarou mais que, Deus ordenando-lhe que fosse ella em espirito fazer uma communhão em Roma, dada pelo Papa, para o fim de o fazer confirmar com sua autoridade os milagres do Joazeiro, succedeo que entrando ella em duvida sobre a verdade d’aquella revelação, foi-lhe ainda imposto debaixo de obediencia, a assim fazel-o; o que realizou-se com a circunstancia de ter o Santo Padre perguntado de onde era e qual seu nome e a que vinha, quando então ella lhe significou que vinha da parte de Deus, anunciar-lhe que Deus mesmo queria, que, por sua autoridade, confirmasse os milagres operados no Joazeiro.
Setima: Deus a encarregou de registrar em livro essas revelações?
Ao que respondeu que sim; sendo ainda por elle obrigada debaixo de juramento não somente a escrevel-as, sinão ainda communical-as ao confessor.
Oitava: Pode disso dar um memorial?
Ao que respondeu que sim e se obrigava quanto era possivel a assim fazel-o. Declarou mais que muitas outras revelações lhe foram feitas com relção a esses factos, das quais fará conveniente exposição no memorial que se comprometteo a dar. Finalmente declarou que hoje mesmo logo depois da communhão e depois de já ter sido citada para aqui comparecer a depôr, vio o Padre Eterno que pondo-lhe a mão direita sobre o hombro esquerdo della lhe ordenou fosse perante o Padre confessor, para receber a benção e em seguida recebesse, digo, obedecesse à citação para maior honra e gloria delle, pois para isso se achava ella encarregada da parte delle. Nada mais lhe tendo sido, por ora, perguntado, houve-se por encerrado esse depoimento, que depois de lido e achado conforme, vae assignado pelo Reverendo Commissario e a testemunha já nomeada. Commigo Secretario da Commissão. EM TEMPO: Declarou mais, sendo perguntada, que apezar de todos esses factos occorridos com a Beata Maria de Araújo, goza ella de saude regular. E eu Padre Doutor Francisco Ferreira Antero, secretario da commissão o escrevi. Padre Costa Lobo, commissario episcopal. Jael Wanderlei Cabral
TERCEIRA TESTEMUNHA
Maria Lepoldina Ferreira da Soledade, natural da freguesia do Crato, ora rezidente na povoação do Joazeiro, idade de vinte nove annos incompletos, solteira, testemunha jurada dos Santos Evangelhos em um livro delles, em que poz sua mão direita, promettendo dizer a verdade do que soubesse e lhe fosse perguntado acerca dos factos extraordinarios occorridos nessa povoação com a Beata Maria de Araújo. E logo o Reverendo Commissario passou a fazer-lhe as seguintes perguntas:
Primeira: Conhece a beata Maria de Araújo, sabe de quem é filha e de onde é natural?
Ao que respondeo que sim, sabe ser ella filha legítima de Antonio de Araújo já fallecido e Anna de tal, ignorando porem donde seja natural.
Segunda: Sabe se ella se dá a vida espiritual e desde muito?
Respondeo que sim e desde menina.
Terceira: Sabe ou ouvio dizer que a Beata tinha visões maravilhosas?
Respondeo que não somente sabe de si mesma, mas ouvio dizer ao proprio confessor ter a dita Beata muitas vezes, visões maravilhosas as quaes consistem em lhe aparecerem Jesus, Maria e José, o próprio anjo da guarda e até mesmo as almas do purgatório, succedendo ter elle nessas occasiões revelações que ora não se lembra, quaes ellas sejam.
Quarta: Por occasião da Communhão da Beata vio muitas vezes as hostias consagradas se transformarem em sangue, em carne e n’um coração humano?
Ao que respondeu que sim e muitas vezes a cerca de tres annos a esta parte.
Quinta: Antes da manifestação destes factos já tinhão sido elles revelados a alguem?
Respondeo que não sabe com certeza.
Sexta: Teve alguma revelação particular a cerca da especie de sangue, da carne e do coração humano apparecidos nas hostias?
Respondeo que sim, pois sendo a isso obrigada abaixo de obediencia e como penitencia sacramental, lhe foi revelado achar-se alli o Corpo, o Sangue, e a alma e a divindade de Nosso Senhor Jesus Christo e mais, que alli estava Jesus – hostia – offerecendo-se de continuo como victima de expiação ao Eterno Padre pela salvação do mundo, que tudo aquillo era esforço da mizericordia e do amor de seu coração. Em continuação passou a dizer, acerca do ponto em questão assim: no dia dezoito de Dezembro de mil oitocentos noventa, depois da communhão a que se seguio a missa, tive uma revelação a respeito nesses termos: É isso um mysterio de amor, alem da rasão humana, nessa segunda vinda mystica minha ao mundo, eu hei de ser do mesmo modo trahido, blasfemado, injuriado, odiado, escarnecido e vilipendiado ainda mais que dantes por aquelles mesmos aquem vinha salvar e remediar; e explicação ao sentido das palavras supras, disse alem de outras palavras, no dia dezenove de dezembro do dito anno as seguintes: Estate parati quia tempus est labore, accendite lampadam suam et vigilate. No dia oito de abril do corrente anno, fez-me Nosso Senhor uma nova revelação sobre o Caso de que se trata, dizendo assim: Sou (neste sangue) uma victima eucharistica, como também uma hostia de expiação por todos os crimes do mundo inteiro e para restaurar e augmentar a gloria da S. S. Trindade roubada pelos homens. Instando o Padre Cícero para se pedisse a Nosso Senhor um novo testemunho sobre esse mesmo caso, teve ella testemunha uma revelação concebida nesses termos: Ego sum Jesus, hostia pura, hostia sancta, hostia immaculata: vivificavi sanguinem cordis ad peccatores. Vide ne feceris. Conservus tuus sum et fratum suorem habentium testemonium Jesu. Deum adora testemonium sanguinis mei et espiritus prophetiae. Ego sum vitis vera, hostia sancta, hostia pura, hostia immaculata. Beatus et Sanctus Qui habet partem in redemptione secunda. Sendo sua alma testemunha de como a mesma revelação e no mesmo tempo era feita ao Padre Cícero, o que se deo logo depois da Communhão; tudo isso sendo pedido e obtido de Deus debaixo de obediencia do confessor.
Setima: Vio ou consta-lhe que n‘esta Igreja do Joazeiro alguem visse anjos, como adoradores, e testemunhas d’estes factos?
Respondeo que no dia 25 de março, tendo-lhe ordemnado o confessor, depois de uma benção a ella dada em honra da S. S. Virgem, que ella testemunha adorasse a Nosso Senhor ali presente no Sacramento da eucharistia, especialmente manifestado n’aquellas hostias transformadas em sangue, logo depois de sua communhão, teve ella de ver na Capella do S. S. Sacramento diversos anjos e dentre elles tres que se nomearão por seus proprios nomes, sendo um – Testes Fidelis – outro – Reverentia – outro finalmente – Maravilha.
Oitava: Foi testemunha de algumas communhões miraculosas que tem tido a beata Maria d’Araújo e serão ellas divinas?
Ao que respondeo que foi muitas vezes testemunha d’essas communhões miraculosas; não tendo certesa de haver tido n’esse particular alguma revelação, mas ouvio muitas vezes diser ao Pe. Cícero ser as ditas communhões divinas; sendo para notar-se que as particolas d’quellas communhões miraculosas se convertião as veses, mas em parte, em sangue, notando-se n’ellas certo movimento e como que saltos da lingua em busca do ceo da bocca.
Nona: Sabe ou consta que a beata Maria d’Araújo em certos raptos d’espírito vae, tanto por ordem immediata de Deus, como a mandado do confessor como penitencia sacramental, já no ceo, já no inferno, já no purgatorio; e o que se tem dado n’essas occassiões?
Ao que respondeo que ella testemunha além de ter visto, em espírito esses factos que se derão com a Beata; o que aconteceo por ter sido a isso obrigada pelo confessor, debaixo de obediencia, dentro de sua confissão sacramental, o soube também particularmente da bocca do Pe.Cicero. Nessas occasiões pronunciava a Beata a seguinte jaculatoria: Louvada seja a sagrada morte e paixão de Nosso Senhor Jesus Christo e as dores da Immaculada Virgem Maria, e o preciozissimo sangue de Jesus por nós derramado, com a qual glorificava no ceo a S. S. Trindade, libertava do Purgatorio algumas almas e prendia no inferno alguns demonios mais infensos a Igreja. Iguais factos se derão com outras pessôas, e do mesmo modo acima exposto, o que sabe com certesa. É assim que com ella testemunha deo-se o seguinte facto: No dia 23 de dezembro de 1890, por occasião de confessar-me, foi-me imposta como penitencia sacramental dar-me toda a Deus para a honra do preciosissimo sangue de Jesus, das dores de sua Mãe S. S. e maior gloria da Trindade S. S., tomar sobre si as penas de tres almas que fossem de papas e assim libertal-as do purgatorio. Succedeo, porem, que Nosso Senhor não acceitou essa oblação em relação aos papas e substituio applicando-a as almas de um Cardial e dous bispos. No mesmo dia apparecerão estas tres almas, na occasião da missa, e perguntando-lhes o Pe. Cícero quem erão, o que fez em nome e em obediencia a Deus, responderão uma que era um Cardial, e as outras que erão – Episcopus Joachinus et Episcopus Petrus – o primeiro que foi antecessor do Arcebispo da Bahia D. Luiz, o segundo, que foi bispo do Rio de Janeiro. Desde esse dia até o dia 6 de janeiro do anno seguinte, estas tres almas vinhão todos os dias a assistir a missa, collocando-se os dous bispos de um e outro lado e o Cardial no meio; todos possuidos do maior acatamento. No dia 26 de Dezembro do anno passado; succedeo que, ao tocar o Sanctus, o Cardial, inflamado com as chamas de amor que, saindo do Sacrario envolvião o Sacerdote officiante e se transmittião ao mesmo Cardial, sentio-se incitado a subir ao altar, onde prostrado com a face em terra, em adoração ao sangue de Jesus que então cahia sobre elle, como chuva, exclamou: oh, amor! conservando-se nessa posição até o fim da missa. No dia 28 do mesmo mêz e anno já declarados continuando-se a suffragar as ditas almas; por occasião da consagração na missa, o Cardial elevando as mãos eos olhos, e seu rosto desfasendo-se então em chamas, exclamou: Oh! Levita do Sanctuario, tenro arbusto sacerdotal, vaso de eleição, chamado a serdes sentinella em Israel, vos doce esperança de nossos gosos e resplendores ternos, chegae-nos a este vulcão de amor, (e isso disendo, apontava para um retabulo do Sagrado Coração de Jesus e o tabernaculo e a caixa de vidro contendo as particulas transformadas em sangue;) atirae-vos as ardentes chamas, accendei-vos em seu abrasado ardor para serdes luz e calor no meio das nossas trevas; terminando com dizer duas veses - ‘luce mea, ardens, ardens.’ Continuou esse phenomeno, com manifestações mais ou menos semilhantes, até que no dia 5 de janeiro do anno seguinte, interrogado, digo, tendo sido ordenado ao Cardial pelo officiante que, em obediencia a Jesus Christo que ali estava derramando do seu sangue sobre elle, dissesse quem era, houve a seguinte resposta: Ego sum Cardinalis Pecci – o que repetio tres veses. Finalmente, no dia seguinte, 6 do mez e anno já declarado, assistindo missa aquellas três almas, levados todos e possuidos do maior acatamento, depois da benção do S. S. Sacramento a que assistirão o Cardial, como que fora de si, somente possuido de Deus, erguendo as mãos exclamava: Oh Carissimo e delicado irmão, que amor, que ternura e que reconhecimento não devo eu ter para com vosco, quando considero que fostes o instrumento pelo qual quebrarão-se cadeias que me detinham nesse carcere, depois de minha morte; por intermedio de vós é tempo hoje de eu consumar todos os meus trabalhos, subindo da terra ao céo para habitar, reinar e glorificar aquelle que é principio e o fim de todas as cousas, vou por tanto entrar no gozo do meu Senhor; e assim, como tomastes parte no meu doloroso e delatado exilio, tomae hoje parte nesta enchente de alegria de que a minha alma está penetrada, e que é o fim de tantas dores, lágrimas e gemidos. Eu me vou para o seio de Deus... para acabar de consumar as minhas victorias sobre o mundo, o inferno e o peccado, pela minha entrada gloriosa e triunphante em seu reino; e lá, onde todas as virtudes serão retemperadas, em particular a caridade, nunca jamais nos separaremos n’aquelle coração que é nossa vida e nosso amor; a gratidão e o reconhecimento me fazem nunca de vós retirar os olhos, e tambem de vos outros que ainda gemeis e suspiraes, debaixo do jugo de tão dilatado exilio... mas eu vos recommendo, cumprir a missão a que sois chamados, que vossas recompensas serão eternas; por tanto adeus... até ao Paraiso onde nos abraçaremos; e isto dizendo, voou para o ceo, acompanhado de seu Anjo Custodio e de todos os santos que forão seus protectores e advogados neste mundo. Continuarão as almas dos dous bispos a ser suffragadas, como de principio, até que no dia 18 de janeiro do corrente anno a alma de D. Joaquim Arcebispo da Bahia, subio triumphante ao ceo, e a de D. Pedro, bispo do Rio de Janeiro, subio ao ceo no dia 2 de fevereiro, na occasião da elevação na missa; sendo precedidas as subidas triumphantes de um e de outro, não somente de exclamações cheias de amor, como também de reconhecimento a pessôa do Padre e da propria testemunha, por intermedio do mesmo Padre.
Decima: Sabe se a beata Maria de Araújo tem extases, bem como estymas, chagas e impressões admiraveis no corpo?
Ao que respondeo que sabe com certeza, e de si mesma, além do que lhe há communicado, nesse particular, o seu director espiritual, sabendo-o ainda, por alguma revelação de Deus a esse respeito, serem aquelles phenomenos de operação divina, fazendo esse extensivo as exsudações sanguineas que soffre a mesma Beata.
Decima-primeira: Sabe que a Beata Maria de Araújo, apesar de todos esses phenomenos, goza de saude regular?
Respondeo que sim e que é cousa notoria.
Nada mais lhe sendo perguntado, houve assim por encerrado seu depoimento que, depois de lido e achado conforme, vae assignado pelo Reverendo Comissario e a testemunha que reconheço como propria, commigo secretario. E eu Padre Doutor Francisco Ferreira Antero, secretario da Commissão o escrevi. Assignado Padre Costa Lôbo, Commissario episcopal. Assignada Maria Leopoldina Ferreira da Solidade
CONCLUSÃO
Aos dezessete dias do mez de Setembro do anno de mil oitocentos noventa e um, em casa de moradia do Reverendo Comissario Padre Clycerio da Costa Lobo, onde me achava eu Secretario da Commissão, faço estes autos conclusos ao mesmo Reverendo Commissario; do que para constar fiz este termo. E eu, Padre Doutor Francisco Antero, Secretario da Commissão o escrevi.
CONCLUSOS
O muito Reverendo Padre Doutor Secretario da Commissão cite os senhores Vigario Manoel Rodrigues Lima, Cristão Manoel Gonçalves Dantas de Quintal e Joaquim Gonçalves Dantas de Quintal, para virem depor neste Commissariato, a cerca dos factos extraordinarios occorridos com a Beata Maria de Araújo, hoje, na Capella desta Povoação as 12 horas da manhã, passando-se disso a certidão. Joazeiro, 17 de setembro de 1981. Assignado Padre Costa Lobo, Commissario Episcopal.
TERMO DE RECEBIMENTO
E logo no mesmo dia e anno e lugar supra declarados forão-me entregues estes autos com os despachos supra; do que para constar fiz este termo. E eu Padre Doutor Francisco Ferreira Antero, Secretario da Commissão o escrevi. Certifico que intimei o despacho supra às testemunhas já nomeadas e ficarão scientes.Dou fé. Aera et locus ut supra. E eu Padre Doutor Francisco Ferreira Antero, Secretario da Commissão o escrevi.
TERMO D’ASSENTADA
Ainda no mesmo dia, mez e anno retro declarados, no Conssitório da Capella dessa povoação do Joazeiro, em presença do Reverendo Commissário já nomeado, passo a escrever os deppoimentos das testemunhas por mim citadas, cujos nomes, cognomes, naturalidades, idade, profissão e rezidencia, são como se seguem. Do que para constar, fiz este termo.E eu Padre Doutor Francisco Ferreira Antero, Secretario da Commissão o escrevi.
PRIMEIRA TESTEMUNHA
Vigario Manoel Rodrigues Lima, Natural de Missão Velha, hoje povoado da freguesia de Milagres, idade de cincoenta e quatro annos, testemunha jurada dos Santos Evangelhos em um livro d’elles em que poz sua mão, digo pondo sua mão direita sobre o peito, jurou promettendo dizer a verdade do que soubesse e lhe fosse perguntado a cerca dos factos extraordinários occorridos nessa povoação com a Beata Maria de Araújo. E logo o Reverendo Commissario passou a fazer-lhe as seguintes perguntas:
1ª. Conhece a beata Maria d’Araújo, sabe de quem é filha e d’onde é natural?
Ao que respondeo que a conhece desde há muito e sabe ser ella filha legítima de Antonio d’Araújo, já fallecido e Anna de tal, presumindo ser ella natural d’esta povoação.
2ª.Sabe se ella se dá a vida espiritual e de há muito?
Respondeo que sim e que por informação do Pe. Cícero consta-lhe ter ella se dado a este genero de vida desde menina.
3ª. Sabe ou consta-lhe ter ella algumas vezes visões maravilhosas?
Ao que respondeo que consta-lhe, por ouvir dizer ao Padre Cícero, ter a Beata visões, ainda quando menina, de Jesus o qual em forma de menino com ella brincava, dando isso occasião de ser ella castigada pela propria mãe. Disse mais que ha cinco ou seis annos passados consta-lhe, por igual informação, ter-lhe apparecido, tanto Jesus como Maria S. S., manifestando-se-lhe Jesus como crucificado e outras vezes a dar-lhe a communhão, a qual lhe era administrada por Christo mesmo, tanto sob a especie de pão, como de sangue; e é numa dessas occasiões que Christo, depois de lhe haver dado a communhão sob a especie de sangue, dizendo-lhe – comei não só do meu corpo e bebei do meu sangue, mas ainda n’elle banhae-vos, - derramou sobre ella um pouco de sangue que tirara com a mão de um calis, ensopando-se assim o véo e a murça que trazia. É n’uma d’essas visões que Jesus Christo fez-lhe a seguinte revelação; - que o sangue que aqui derramava era como uma nova redempção e que esta povoação de Joazeiro era por elle escolhida para ser um logar de salvação.
4ª. Vio ou consta-lhe ter a beata Maria d’Araújo extases, e bem assim estygmas e exsudações sanguineas?
Ao que respondeo que de Junho a Agosto do anno passado teve elle testemunha de ver a Beata em estado de extases, apparecendo-lhe então exsudações sanguineas; n’esse estado seus olhos erão immoveis e como a comtemplar um objecto invisivel, com ar calmo e sereno, sendo para notar-se que n’este mesmo estado ella conheceo por uma revelação divina quem ali estava e a tocava.
5ª. Consta-lhe que a Beata Maria d’Araújo tinha communicações espirituais com seu director ou outro sacerdote, ainda achando-se em grande distância?
Respondeo que isso lhe constou por informação tanto do Padre Cícero, como do Monsenhor Monteiro, dizendo-lhe mais o Padre Cícero que iguaes communicações tem tido com o Papa.
6ª. Consta-lhe que a mesma Beata tenha o Dom de discernir entre diversos objectos, qual é bento, qual não, bem como quaes outros tinhão sido reservados para ella?
Ao que respondeo que isso igualmente lhe consta por informação de muitas pessoas fidedignas.
7ª. Consta-lhe ainda que a Beata vae, por ordem de Deus, e a mando do proprio confessor, como penitencia sacramental, ja ao ceo, ja ao inferno e ao purgatorio?
Ao que respondeo que ouvio por muitas vezes ao Padre Cícero dizer-lhe que a seu mandado, como confessor e como penitencia sacramental, tem ido a Beata em espirito já ao ceo, já ao inferno e ao purgatorio; dando-se que, quando ella subia ao céo, era convidada por Deus a ficar ali, ao que respondia que só faria com consentimento do confessor; e quando descia ao Purgatório, libertava d’allli algumas almas que chegava mesmo a conhecer, ao passo que, quando descia ao inferno, tinha então o poder de, por meio de um anjo, prender ali alguns demonios; entretanto, n’essas occasiões ficava a Beata em extases, a derramar copioso sangue, dando signaes de muito soffrer. Em tempo, rectificando; disse a testemunha que, quando Deus convidava a Beata em suas subidas em espirito ao céo, a ficar ali, fazia tal convite, se por ventura consentisse n’isso o confessor.
8ª. Presenciou algumas vezes transformarem-se as hostias em sangue, por occasião da communhão da Beata?
Respondeo que sim, sendo disso testemunha, pela primeira vez, na Quinta feira sancta do corrente anno mais duas vezes depois, o que aconteceo na segunda feira que se segue ao Domingo de Paschôa e um mez depois; sendo que, nessa ultima vez, vio mesmo, com exame mais acurado, deitar a Beata numa salva bastante sangue, subsistindo ainda parte das especies sacramentais, o qual foi exposto ao povo pelo Padre Cícero que então dizia: vejão e examinem bem; é este o verdadeiro sangue de Jesus Christo, o que eu vos garanto, porque Deus m’o disse, isto é, que era o sangue exprimido do seu coração, que derramava para a salvação do mundo.
9ª. Consta que a Beata tenha feito alguma predição relativa a expulsão de D.Pedro II?
Respondeo que sim, ignorando porem se esse facto foi predicto pela beata Maria de Araújo ou uma outra.
10ª. Apesar dos diversos phenomenos observados na Beata, goza ella de saude regular?
Ao que respondeo que sim. Finalmente declarou que a Beata, de que trata-se, tem muitas vezes visões diabolicas das quais se livra, recitando uma oração que aprendera da bocca de Jesus Christo.
E al não disse, nem lhe foi perguntado, dando-se por encerrado esse depoimento que, depois de lido e achado conforme, vae assignado pelo Reverendo Commissario e a testemunha que reconheço pela propria, commigo secretario. E eu Padre Doutor Francisco Fereira Antero, secretario da commissão, o escrevi. Assignado Padre Costa Lôbo, Commissario episcopal, Padre Manoel Rodrigues Lima.
SEGUNDA TESTEMUNHA
Miguel Gonçalves Dantas de Quintal, natural da freguesia de Milagres deste bispado e ali rezidente, agricultor, idade de quarenta e tres annos, casado, testemunha jurada dos Santos Evangelhos, em um livro delles em que pós sua mão direita, promettendo dizer a verdade do que soubesse e lhe fosse perguntado acerca dos factos extraordinarios occorridos nesta povoação com a Beata Maria de Araújo. E logo o Reverendo Commissario passou a fazer-lhe as seguintes perguntas:
1ª. Conhece Maria de Araújo, sabe de quem é filha e d’onde é natural?
Ao que respondeo que conhece a Beata, sabendo ser ella natural desta povoação, ignorando porém de quem é filha.
2ª. Sabe que a Beata dá-se desde menina à vida de piedade?
Respondeo que sim, o que sabe por informação de muitos.
3ª. Sabe ou consta-lhe ter a Beata algumas visões?
Ao que respondeo que sim, pois que informão-lhe ter-lhe apparecido muitas vezes Jesus e Maria, revelando-lhe serem os milagres das transformações das hostias uma manifestação de sua gloria.
4ª. Consta-lhe ter a Beata extases, estygmas e chagas miraculosas?
Respondeo que tudo isso lhe tem sido communicado por pessôas de fé as quaes foram testemunhas presenciaes dos factos, entre ellas alguns sacerdotes; notando-se que em alguns desses extases ella fica em atitude de crucifixão, gotejando sangue da fronte, como se estivesse coroada de espinhos, das mãos e dos pés, dos joelhos e do lado.
5ª. Consta-lhe que a Beata vae em espírito tanto por ordem de Deus como a mandado do confessor, e isso como penitencia sacramental, já ao ceo, já ao inferno e ao purgatório?
Ao que respondeo que isso lhe tem sido communicado pelo Padre Cícero e mais outros sacerdotes, além de outras pessoas fidedignas, as quaes todas lhe tem communicado que quando sobe ella aos céo glorifica a Deus; quando desce ao Purgatorio, d’ali liberta algumas almas e finalmente quando desce ao Inferno, leva o poder de prender, por ordem de Deus, e por intermedio de um anjo, alguns demonios que erão mais infensos a Igreja.
6ª. Testemunhou por alguma vez a transformação da hostia em sangue e em carne, por occasião da communhão da Beata?
Respondeo que na Quinta Feira Sancta do corrente anno, já concluida a missa teve de presenciar, bem distinctamente, a transformação da hostia em carne e sangue, sendo para notar-se que a hostia, na lingua da Beata tomava maior volume.
7ª. Sabe que tem havido alguma revelação particular de Deus, relativamente àquella carne e aquelle sangue, apparecidos nas hostias?
Ao que respondeo que ouvio dizer a muitas pessoas haver Deus revelado tanto a Beata, como ao Padre Cícero, achar-se naquella carne e naquelle sangue, o verdadeiro corpo e o verdadeiro sangue de Jesus Christo, derramado para a conversão dos homens.
8ª. Consta-lhe ter tido a Beata communhões miraculozas?
Respondeo que não somente o Padre Cícero, como também os Padres Manoel Rodrigues, Manoel Furtado e Manoel Antonio, alem de outras pessoas, lhe communicarão ter se dado por vezes aquelle facto; succedendo que, d’uma vez, Nosso Senhor lhe dera a communhão sob a especie de sangue, que se continha num calis de ouro, derramando parte desse sangue sobre o veo e a murça que trazia a Beata dizendo então: Comei de minha carne, bebei de meu sangue, não só para purificação de tua alma como também de teo corpo.
9ª. Consta-lhe que alguém tenha visto anjos a adorar o sangue derramado das hostias?
Ao que respondeo que consta-lhe, por ouvir dizer a muitas pessoas, ter não somente a Beata Maria de Araújo, como outras, visto alguma vez anjos, na Igreja, a adorar o sangue d’aquellas hostias, como tambem padres desfallecidos.
10ª. Sabe se a Beata tinha feito algumas predições?
Respondeo que sim, e a respeito de diversas cousas, nomeadamente a respeito das secas de 1877 ou 1879, como tambem a respeito desta ultima.
11ª. Tem a Beata communicações espirituaes, ainda que em grande distancia, com alguem?
Ao que respondeo que sabe, por isso ouvir dizer a diversas pessoas, entreter ella communicações espirituais, assitindo em espirito a solemnidades sagradas celebradas em lugar distante; o que consta ter-se dado até mesmo em Roma, onde ella segundo consta-lhe, tem communicado com o Papa; notando-se mais, segundo o testemunho de muitos sacerdotes, que ella conhece e executa ordens de seu director e de outro sacerdote, a ella transmittidas em grandes distancia, como de tres legoas.
12ª. Sabe se a Beata gosa saude regular?
Ao que respondeo que sim, havendo nesse sentido o testemunho de um medico. Declarou mais que não somente na Quinta Feira Sancta, mas outra vez ainda teve de ver a transformação da hostia em sangue, subsistindo porem ambas as vezes algumas parcellas das especies sacramentaes; declarou finalmente que apesar de ser a beata analfabeta, sabe que alguma vez tem ella recitado hymnos de muita elegancia, por onde se crê terem sido a ella ensinados divinamente.
E al não disse a nem lhe foi pergutando, encerrando-se assim este depoimento que, depois de lido e achado conforme, vae assignado pelo Reverendo Commissario e a testemunha já nomeada, commigo secretario da commissão. E eu Padre Doutor Francisco Ferreira Antero, secretario, o escrevi. Assignado Padre Costa Lobo, Commissario episcopal. Assignado Miguel Gonçalves Dantas de Quintal.
TERCEIRA TESTEMUNHA
Joaquim Gonçalves Dantas de Quintal, natural da freguesia de Milagres, deste bispado e ali residente, solteiro, idade de dezenove annos, estudante, testemunha jurada dos Santos Evangelhos, em um livro delles em que pós sua mão direita, promettendo dizer a verdade do que soubesse e lhe fosse perguntado acerca dos factos extraordinarios occorridos nesta povoação com a Beata Maria de Araújo. E logo o Reverendo Commissario passou a fazer-lhe as seguintes perguntas:
1ª. Conhece a beata Maria de Araújo, d’onde ella é natural e de quem é filha?
Respondeo que conhece pessoalmente a dita Beata, ignorando porem de quem seja filha e d’onde é natural.
2ª. Sabe desde quando se dá Maria de Araújo a vida de piedade?
Ao que respondeo que sabe, por ouvir dizer a muitas pessoas dignas de fé, ter-se dado ella a vida de piedade desde menina.
3ª. Consta-lhe ter a Beata extases, como também estygmas, chagas e exsudações sanguineas?
Respondeo que sim, tendo isso ouvido dizer a diversos sacerdotes e mais pessoas de fé, as quaes todas tinhão esses phenomenos por divinos, devendo notar-se que, em alguns desses extases, ficava a Beata como que crucificada e a deitar sangue, apresentando nas mãos e nos pés, como que chagas.
4ª. Consta-lhe ter a Beata communicações espirituais com alguém, ainda em grande distancia?
Ao que respondeo que isso consta-lhe por ouvir dizer a muitas pessoas, entre ellas alguns sacerdotes, as quaes contaram assistir ella em espirito, a solemnidades sagradas celebradas à grande distancia.
5ª. Consta-lhe que a Beata, já por ordem divina, já a mandado de seu director, e como penitencia sacramental, vae assim ao céo, como ao Inferno e ao Purgatório?
Respondeo que isso ouvio dizer a seu pai, a quem o Padre Cícero communicara tal facto, acrescentando-se que no Céo, quando a elle subia, muito glorificava com isso a Deus, no purgatorio, quando a elle descia, libertava algumas almas; no inferno ia com o poder de prender demonios.
6ª. Presenciou transformar-se em sangue a hostia, por occasião da communhão da Beata?
Ao que respondeo que somente vio na mão do Padre Cícero um pouco de sangue que constou-lhe então ter sido sangue derramado da hostia.
7ª. Constou-lhe tambem que a Beata tivera a revelação particular de como aquelle sangue apparecido nas hostias era o verdadeiro sangue de Jesus Christo?
Respondeo que ouvio dizer haver alguem contado que a Beata Maria d’Araújo garantia ter de Deus uma revelação deste mesmo sentido, isto é, de ser aquelle sangue o verdadeiro sangue de Jesus.
8ª. Consta-lhe ter a Beata visões, digo, communhões miraculosas, tanto sob a especie de pão como sangue?
Ao que respondeo que sim, dizendo-se que taes communhões lhe erão dadas por Nosso Senhor.
9ª. Gosa a Beata Maria de Araújo de saude regular?
Respondeo que sim, tanto pelo que lhe parece, como pelo que lhe tem contado a respeito.
E al não disse, nem lhe foi perguntado, dando-se assim por encerrado esse depoimento que, depois de lido, vae assignado pelo Reverendo Commissario e a testemunha citada, commigo secretario da commissão. E eu Padre Doutor Francisco Ferreira Antero, secretario, o escrevi. Assignado Padre Costa Lobo, commissario episcopal. Assignado Joaquim Gonçalves Dantas de Quintal.
CONCLUSÃO Aos dezoito dias do mez de setembro de anno de mil oitocentos e noventa e um, em casa de morada do Reverendo Commissario Padre Clycerio da Costa Lôbo, onde me achava eu secretario da commissão, faço estes autos conclusos ao mesmo Reverendo Commissario, do que para constar fiz este termo. E eu Padre Doutor Francisco Fereira Antero secretario da commissão, o escrevi.
CONCLUSOS: Que o Reverendo Pe. Dr. Secretario desta commissão cite as Beatas Joanna Tertuliana de Jesus, Joaquina Themoteo de Jesus, Senhora Maria das Dores do Coração de Jesus, para virem depor a cerca dos factos que trata-se d’averiguar, hoje, no Consistório da Capella d’esta povoação, a 1 hora da tarde, do que passara certidão. Joaseiro, 18 de setembro de 1891 (os demais dados são iguaes aos anteriores)
TERMO DE RECEBIMENTO
E logo no mesmo dia, mez e anno e lugar supra declarados forão-me entregues estes autos com o despacho supra; do que para constar fiz este termo. E eu Padre Doutor Francisco ferreira Antero, secretario da Commissão o escrevi. CERTIFICO que intimei o despacho supra às testemunhas já nomeadas, e ficaram scientes. Dou fé: Aera et locus ut supra. E eu Padre Doutor Francisco Ferreira Antero, Secretario Commissão o escrevi.
TERMO DE ASSENTADA
Ainda no mesmo dia, mez e anno retro declarados no consistório da Capella do Joazeiro, em prezença do Reverendo Commissario já nomeado, passo a escrever o depoimento das testemunhas citadas cujos nomes, cognomes, filiação, naturalidade, idade, profissão, rezidencia são como ao diante se seguem. Do que para constar fiz este termo. E eu Padre Doutor Francisco Ferreira Antero, Secretario da Commissão o escrevi.
PRIMEIRA TESTEMUNHA
Maria das Dores do Coração de Jesus, natural da freguesia de Missão Velha deste bispado e ora aqui rezidente, costureira, idade de quinze annos, solteira, testemunha jurada dos Santos Evangelhos, em um livro delles em que pós sua mão direita, promettendo dizer a verdade do que soubesse e lhe fosse perguntado acerca dos factos extraordinarios occorridos nesta povoação com a Beata Maria de Araújo. E logo o Reverendo Commissario passou a fazer-lhe as seguintes perguntas:
1ª. Conhece a Beata Maria de Araújo e sabe se se dá a vida de piedade?
Ao que respondeo que a conhece desde que deo-se a communhão miraculoza com a mesma Beata, na Semana Sancta do corrente anno, e que a tem, como todos em geral, como uma pessoa piedosa.
2ª. Sabe que por occasião de commungar a Beata transformão-se as hostias em sangue?
Respondeo que foi muitas vezes testemunha desses factos; indo ella testemunha muitas vezes em busca do Pe. Cícero para que elle viesse dar a benção a Beata afim de poder ella commungar realmente, o que fazia a pedido da mesma Beata.
3ª. Teve alguma revelação particular de Deus a respeito da especie de sangue nas hostias apparecido?
Ao que respondeo que por tres vezes lhe foi revelado por Jesus Christo mesmo, ser aquelle sangue o proprio sangue d’elle, dizendo que assim jurava e mandando que do mesmo modo o jurasse ella neste commissariato, encarregando a ella testemunha que dissesse, de sua parte ao Reverendo Commissario que celebrasse uma missa em honra do preciosissimo sangue, afim de que não fosse o sangue delle, aqui derramado, por alguém profanado, além da recommendação a ella testemunha feita de resar uma via sacra nesta mesma intenção.
4ª. Teve tambem alguma revelação com relação dos extases, estigmas e exsudações da Beata?
Ao que respondeo que por duas vezes, a seu pedido, Nosso Senhor revelou ser tudo aquillo de operação divina; por quanto queria assim por meio de taes impressões maravilhosas, fazer d’aquella pessôa um instrumento de manifestação de sua Paixão.
5ª. Consta-lhe que a Beata tenha communicações espirituaes com alguem ainda em grande distancia, de modo que assiste a festas celebradas em Igrejas daqui muito distantes?
Ao que respondeo que ouvio a muitas pessoas, entre ellas Monsenhor Monteiro, dizer que ella assiste, estando aqui no Joaseiro, a festas celebradas no Seminario do Crato, bem como estando na Casa de Caridade do Crato assiste, em espirito, a festas celebradas na Capella desta povoação; ouvindo dizer mais que dá-se o mesmo facto em outras Igrejas como da Capital e mesmo de Roma.
6ª. Vio algumas vezes anjos e mesmo a S. S. Virgem em adoração àquelle sangue derramado das hostias, e exposto no altar e recluso na caixa de vidro, contendo as particulas transformadas?
Ao que respondeo que vio uma vez Nossa Senhora em adoração àquelle sangue, a chorar e queixar-se que, apesar da renovação da Paixão de seu divino filho, parecia que quase ninguem se convertia; tendo visto muitas vezes anjos exercendo o mesmo culto. Em continuação disse que uma vez vio a ambola cheia de sangue a trãsbordar e derramar-se por todo o altar, apparecendo então Nosso Senhor todo ensanguentado, o qual nessa mesma occasião deo a communhão a Beata Maria de Araújo sob a especie de pão tirando para esse fim uma particula da mesma ambola. Disse finalmente que estando ella testemunha, no dia de sabbado, dose do corrente mez, a meditar na Paixão de Nosso Senhor na Capella desta povoação, vio então Nossa Senhora acompanhada de quatro anjos tirar duas almas do purgatorio; depois do que Nosso Senhor, apparecendo-lhe deo a communhão que tirava do seo proprio lado, dando nessa mesma occasião a communhão a mais duas pessôas, sendo uma dellas Maria D’Araújo. Continuando disse que, já ha um mez tendo ella testemunha já commungado, em um Domingo ja pelas tres horas da tarde do mesmo dia, appareceo-lhe Nosso Senhor recommendando-lhe que fosse em busca do Padre Cícero para elle, digo, para que elle lhe desse a communhão em tres particulas, em honra da S. S. Trindade e em honra de seu preciosissimo sangue, aqui derramado, para que não fosse elle profanado; tudo isso para maior gloria de seu Eterno Padre; e que já ha dous mezes passados teve de vêr em muitas missas, no acto da elevação, as hostias do sacrificio ensanguentadas, quando então a seu pedido, lhe revelou Nosso Senhor haver de ser aquelle sangue de salvação para uns e condemnação para outros. Ao tempo em que estava o Pe. Cícero na Capital, indo ella testemunha a commungar na Casa de Caridade, do Crato, vio então a particula sagrada a qual, na mesma occasião, fôra dada a Maria de Araújo, saltava na bocca d’aquella Beata, cahindo no chão, do qual apanhada por ella e dada ao Sacerdote, pôde commungar então. Na vespera da chegada do Commissario do Excellentissimo Bispo diocesano, na occasião de achar-se a testemunha resando a Via-Sacra durante a missa, appareceo-lhe Nosso Senhor recommendando-lhe uma communhão na intenção do padre enviado pelo Senhor Bispo a averiguar esses factos aqui occorridos, porque assim elle tomasse conta do seo sangue não consentindo que fosse elle profanado por elle. E mais não disse nem lhe foi perguntado, encerrando-se assim este depoimento, que vae assignado pelo Reverendo Commissario, commigo secretario, assignado de cruz, por não saber escrever, a testemunha já nomeada, o que vae competentemente authenticado. E eu Padre Doutor Francisco Fereira Antero, secretario da commissão, o escrevi. Assignado, Padre Costa Lôbo, commissario episcopal, + Cruz de Maria das Dores do Coração de Jesus.
SEGUNDA TESTEMUNHA
Joanna Tertulina de Jesus, natural da freguesia do Riacho do Sangue ora residente nesta povoação, trabalho domestico, idade de vinte e oito annos, solteira, testemunha jurada dos Santos Evangelhos, em um livro delles em que pós sua mão direita, promettendo dizer a verdade do que soubesse e lhe fosse perguntado acerca dos factos extraordinarios occorridos nesta povoação com a Beata Maria de Araújo. E logo o Reverendo Commissario passou a fazer-lhe as seguintes perguntas:
1ª. Conhece a beata Maria de Araújo e sabe se se da ella a vida de piedade?
Ao que respondeo que sim, conhecendo-a como pessoa de grande piedade já ha cerca de sete annos.
2ª. Testemunhou transformar-se a hostia em sangue pela occasião da communhão da Beata?
Respondeo que presenciou algumas vezes este facto bem distinctamente, precisamente d’uma vez em que assistia o Doutor Madeira.
3ª. Consta-lhe que alguem tivesse alguma revelação particular a cerca da especie de sangue e da carne nas hostias apparecidos?
Ao que respondeo que ouvio ao Pe. Cícero dizer ter Nosso Senhor revelado ser aquelle sangue e aquella carne, o verdadeiro sangue e a verdadeira carne de Jesus; disse mais que, conversando-se justamente nesse sentido, succedeo ouvir uma creança de sete mezes dizer por duas vezes, de modo bem distincto, - é -; o que lhe significavão depois referir-se àquella conversação, notando-se que aquelle – é – se distinguia perfeitamente como resposta justa a duas proposição distinctas n’aquelle sentido.
4ª. Consta-lhe que os extases, estygmas, chagas, exsudações sanguineas da Beata sejão havidas como operação divina?
Ao que respondeo que isso ouvio dizer a diversas pessoas entre ellas alguns padres, serem aquelles phenomenos de operação divina, sendo para notar-se que n’um d’esses extases, ainda continuando o estado estático, foi-lhe revelado, isto é, a Beata a presença d’uma pessoa que ella não queria, por modo especial, que então ali se achasse.
5ª. Consta-lhe que a Beata communica-se espiritualmente com alguem ainda em grande distancia?
Respondeo que ouvio dizer a Mons. Monteiro communicar-se a beata espiritualmente com elle, na occasião de certos exercícios de piedade por elle mesmo praticados, havendo mais outros bôatos n’este sentido.
6ª. Consta-lhe que a Beata vae, em espirito, ao Céo, ao Inferno e ao Purgatório?
Ao que respondeo que muitas veses, durante o mez das Almas, vio-a em estado de extases, a derramar sangue, disendo-se-lhe então que ella estava no Purgatório a fazer penitencia em lugar das almas; facto este testemunhado por outras pessoas e talvez pelo Padre Joaquim Sother; quanto porem à sua ida em espirito, ao Céo e ao Inferno, sabe d’alguma cousa de mais positivo a respeito de suas subidas ao Céo pois que até anotou, por escripto, alguma cousa a respeito; referindo-se, em quanto as suas descidas ao Inferno, ao que geralmente corre aqui nesse sentido.
7ª. Attribue à enfermidade alguns dos phenomenos que na beata s’observarão?
Respondeo que não pois à excepção de alguns ligeiros incommodos de estomago e alguma febre que soffre alguma vez, n’ella não se nota enfermidade grave. Finalmente disse que presenciou as communhões miraculosas a que se refere o Dr. Ildefonso em seu attestado, além de outra que se deo ha poucos dias e que foi testemunhada por algumas pessoas, entre ellas o Pe. Cícero, o Monsenhor Monteiro. Notou mais em conclusão que foi testemunha do sangue derramado por occasião de uma communhão, nessa especie, a ella dada miraculosamente, como foi testemunha de haver cahido sangue sobre uma vela e o castiçal em que estava a mesma vela; sangue este que foi por ella purificado, sabendo mais que em dias do mez passado e precisamente nos dias de Nossa Senhora das Neves e da Transifiguração do Senhor, pedindo o Pe. Cícero que Nosso Senhor lhe desse um testemunho da verdade daquelle sangue, houve de Jesus Christo presente na hostia Consagrada necessaria resposta em termos latinos.
E al não disse nem tambem lhe fora perguntado encerrando-se assim este depoimento, que vae assignado pelo Reverendo Commissario, commigo secretario, a testemunha já nomeada, o que vae competentemente authenticado. E eu Padre Doutor Francisco Fereira Antero, secretario da commissão, o escrevi. Assignado, Padre Costa Lôbo, commissario episcopal. Joanna Tertulina de Jesus.
TERCEIRA TESTEMUNHA
Joaquina Thimoteo de Jesus, natural da freguesia do Crato, rezidente nesta povoação, costureira, trinta e um annos, solteitra, testemunha jurada dos Santos Evangelhos, em um livro delles em que pós sua mão direita, promettendo dizer a verdade do que soubesse e lhe fosse perguntado acerca dos factos extraordinarios occorridos nesta povoação com a Beata Maria de Araújo. E logo o Reverendo Commissario passou a fazer-lhe as seguintes perguntas:
1ª. Conhece a Beata Maria de Araújo e sabe ser ella pessôa pia?
Ao que respondeo que sim, e que sabe ser ella dada a piedade desde menina.
2ª. Prezenciou a transformação das hostias em sangue, em occasião da communhão da Beata?
Respondeo que por duas vezes vio as hostias transformando em sangue, mas já nas mãos do Padre Cícero e do Padre Laurindo, tendo ainda visto diversos pannos manchados de sangue, que se dizia ser sangue derramado das hostias.
3ª. Houve alguma revelação relativamente ao sangue apparecido nas hostias?
Ao que respondeo que em dias do mez de Abril do corrente anno, conversando ella testemunha com a beata Maria d’Araújo, affirmando que aquelle sangue era o verdadeiro sangue de Jesus, ali derramado para a salvação de uns e condemnação de outros, ouvio-se em seguia dizer uma creança de sete mezes – é – bem distinctamente o que se repetio, apenas se tinha affirmado segunda vez a proposição já acima exposta; facto esse que, tanto a Beata, como outras pessôas, houveram por revelação.
4ª. Testemunhou alguma vez alguma communhão miraculosa da Beata
Respondeo que presenciou uma dessas communhões sob especie de pão constando-lhe ter-se dado outras, tanto sob as especies de pão, como sangue, o que era geralmente havido por uma operação divina.
5ª. Consta-lhe que a Beata ainda em estado de extases, obedece a ordem tanto do director espiritual, como de outro sacerdote?
Ao que respondeo que sim, o que é observado por muitas pessôas.
6ª. Communica-se a beata espiritualmente com alguem ainda estando em grande distancia?
Respondeo que consta-lhe, por testemunho de muitas pessoas, ter-se dado tal facto, o que ouvirão da bocca de Monsenhor Monteiro.
7ª. Consta-lhe que a Beata vae em espirito ao céo, ao Inferno e ao Purgatório?
Ao que respondeo que ouviu dizer muitas vezes ao Monsenhor Monteiro, que ella ia, em espirito ao Purgatório para libertar d’ali almas, constando-lhe ainda por testemunho de outras pessoas que ella sobe tambem ao Céo glorificar a Deus, como desce ao Inferno.
8ª. Sabe ou consta-lhe que a Beata goza de saúde regular?
Ao que respondeo que sim pois a conhece pessoalmente.
E mais não disse, nem lhe foi perguntado, encerrando-se assim este depoimento, que vae assignado pelo Reverendo Commissario, commigo secretario, assignado de cruz, por não saber escrever, a testemunha já nomeada, o que vae competentemente authenticado. E eu Padre Doutor Francisco Fereira Antero, secretario da commissão, o escrevi. Assignado, Padre Costa Lôbo, commissario episcopal, Joaquina Thimoteo de Jesus.
CONCLUSÃO Aos dezenove dias do mez de setembro de anno de mil oitocentos e noventa e um, em casa de morada do Reverendo Commissario Padre Clycerio da Costa Lôbo, onde me achava eu secretario da commissão, faço estes autos conclusos ao mesmo Reverendo Commissario, do que para constar fiz este termo. E eu Padre Doutor Francisco Fereira Antero secretario da commissão, o escrevi.
CONCLUSOS: Que o Reverendo Pe. Dr. Secretario desta commissão cite o Vigario Manoel Antonio de Jesus em 19.9.91 e o Vigario Felix Aurchio Arnaud em 22.9.91, para virem depor a cerca dos factos que trata-se d’averiguar, no Consistório da Capella d’esta povoação, a 1 hora da tarde, do que passara certidão. Joaseiro, 19 de setembro de 1891
TERMO DE RECEBIMENTO
E logo no mesmo dia, mez e anno e lugar supra declarados forão-me entregues estes autos com o despacho supra; do que para constar fiz este termo. E eu Padre Doutor Francisco ferreira Antero, secretario da Commissão o escrevi. CERTIFICO que intimei o despacho supra às testemunhas já nomeadas, e ficaram scientes. Dou fé: Aera et locus ut supra. E eu Padre Doutor Francisco Ferreira Antero, Secretario Commissão o escrevi.
TERMO DE ASSENTADA
Ainda no mesmo dia, mez e anno retro declarados no consistório da Capella do Joazeiro, em prezença do Reverendo Commissario já nomeado, passo a escrever o depoimento das testemunhas citadas cujos nomes, cognomes, filiação, naturalidade, idade, profissão, rezidencia são como ao diante se seguem. Do que para constar fiz este termo. E eu Padre Doutor Francisco Ferreira Antero, Secretario da Commissão o escrevi.
PRIMEIRA TESTEMUNHA
Manoel Antonio Martins de Jesus, natural de freguesia de Missão Velha, hoje vigario do Salgueiro, bispado de Pernambuco, idade de cincoenta e nove annos commeçados, testemunha jurada dos Santos Evangelhos, em um livro delles em que pós sua mão direita, promettendo dizer a verdade do que soubesse e lhe fosse perguntado acerca dos factos extraordinarios occorridos nesta povoação com a Beata Maria de Araújo. E logo o Reverendo Commissario passou a fazer-lhe as seguintes perguntas:
1ª. Conhece a Beata Maria de Araújo e sabe ser ella, desde menina, dada a piedade?
Respondeo que a conhece e sabe ser ella dada a piedade desde menina, constando-lhe que desde aquella idade ouvia ella uma voz, convidando-a a vir para casa do Pe. Cícero, que ahi seria feliz; facto esse que reproduzio-se por varias veses.
2ª. Consta-lhe tambem que desde menina tinha ella visões maravilhosas?
Ao que respondeo que consta-lhe, por testemunho quasi geral dos fieis os quais disião que lhe apparecia desde então Jesus e Maria.
3ª. Sabe se os extases, estigmas, chagas, exsudações sanguineas da Beata tem caracter divino?
Respondeo que assim o cre isso sendo confirmado pela vida que ella tem, pelos prodigios que Deus nella tem operado, além de não serem curadas essas chagas com remedio algum humano; notando-se mais que tem havido revelação particular a esse respeito, a qual lhe foi communicada, a seu pedido pelo proprio confessor, que disso tinha pleno conhecimento, para segurança de sua propria consciência e dos seus parochianos; constando-lhe ainda que em estado extatico ella tem conhecimento do que se passa em redor de si, e que desperta promptamente daquelle estado a mandado de seu director espiritual e de outro sacerdote auctorizado.
4ª. Consta-lhe que a beata communica-se espiritualmente com alguem ainda em grande distancia?
Ao que respondeo que consta-lhe por testemunho de pessoas de fé, communicar-se ella ainda achando-se a grande distancia, com algumas pessoas, asistindo a festas em algumas matrises, bem como na Capital, em Roma, onde até commungava; entretanto que achava-se presente nesta povoação do Joazeiro, ao tempo daquellas communicações espirituais, disendo mais que havia provas disso.
5ª Sabe que a Beata tinha o dom de discernir entre diversos objectos qual seja bento, qual não e qual seja a ella reservado?
Ao que respondeo que sim, pois assim affirmou-lhe pessôa de toda fé a qual garantio ter-se verificado tal facto, dizendo mais que elle testemunha tem rasão particular para nella reconhecer o dom de discernimento, em caso que lhe affecta muito intimamente.
6ª. Vio por occasião de commungar a Beata, transformar-se a hostia em sangue e num coração humano?
Respondeo que muitas vezes vio transformar-se em sangue a hostia, na occasião de commungar a beata, tendo presenciado a transformação em coração humano, em Quinta Feira Sancta do corrente anno, dando-se a circunstancia de ter vindo a esta povoação na primeira sexta feira de Dezembro de 1889, a testemunhar as ditas transformações, o que não aconteceo promettendo-lhe porem o Padre Cícero, apesar da prohibição de Sua Exc. Reverendissima de mostrar-lhe em particular os pannos ensanguentados, contendo as particulas trasnformadas, quando, no acto de bem observar taes phenomenos, sentio-se obrigado a ajoelhar e a render culto àquellas particulas, rebentando-se-lhe espontaneamente, lágrimas dos olhos.
7ª. Consta-lhe ter havido alguma revelação particular quanto a especie de sangue nas hostias apparecido?
Ao que respondeo que o povo, em geral, que aqui tem vindo affirma ter se dado alguma revelação nesse sentido e isso mesmo lhe foi em segredo communicado pelo Padre Cícero, isto é, que Nosso Senhor lhe havia revelado estar naquelle sangue, nas hostias apparecido, o seu verdadeiro sangue.
8ª. Consta-lhe ter tido communhões miraculosas a mesma Beata?
Respondeo que sim, dando-se a primeira communhão miraculosa sob a especie de sangue que se continha num calis; outras sob a especie de pão apparecendo alguma vez a particula ensanguentada, outras, finalmente, ainda sob a especie de sangue, que a mandado do Padre, ella recebêra em communhão da chaga da mão direita de Jesus Christo, applicando-lhe então o padre o dorso de sua mão direita aos lábios della, com o que esquichou sangue em tanta quantidade que, além do que ella sorveo, parte derramou-se e chegou a manchar a manga da batina e camisa do padre.
9ª. Há alguma predição da parte da Beata relativamente a expulsão de D. Pedro II?
Respondeo que o Pe. Cícero lhe communicara ter a Beata predicto esse facto alguns meses antes de sua realisação.
10ª. Gosa a Beata Maria de Araújo de saude regular?
Ao que respondeo que a seu vêr, gosa ella de bôa saude, tanto que, há dous annos, frequentando este lugar, nunca a vio soffrendo o menor incommodo. Em retificação disse mais que, recusando-se o Pe. Cícero a mostrar-lhe os pannos ensanguentados contendo as particulas transformadas, em consequencia da prohibição do Sr. Bispo Diocesano a esse respeito, teve o mesmo padre já nomeado, de affirmar em tom de grande convicção, que tinha fé em Deus como se havia de mostrar, por um modo divino, a realidade destes factos.
E al não disse nem lhe foi perguntado encerrando-se assim este depoimento, que vae assignado pelo Reverendo Commissario, commigo secretario, a testemunha já nomeada, o que vae competentemente authenticado. E eu Padre Doutor Francisco Fereira Antero, secretario da commissão, o escrevi. Assignado, Padre Costa Lôbo, commissario episcopal, Pe. Manoel Antonio Martins de Jesus.
SEGUNDA TESTEMUNHA
Felix Aurchio Arnaud, natural da freguesia de Missão Velha deste bispado e vigario collado da mesma freguesia, idade de sessenta e nove annos completos, testemunha jurada dos Santos Evangelhos, em um livro delles em que pós sua mão direita, promettendo dizer a verdade do que soubesse e lhe fosse perguntado acerca dos factos extraordinarios occorridos nesta povoação com a Beata Maria de Araújo. E logo o Reverendo Commissario passou a fazer-lhe as seguintes perguntas:
1ª. Conhece a Beata Maria de Araújo e sabe que desde menina consagra-se a vida de piedade?
Ao que respondeo que sabe por testemunhos de pessôas de fé que desde menina ella cultiva as praticas de piedade.
2ª. Consta-lhe que a Beata tenha extases, estigmas, chagas e impressões admiráveis no corpo e bem assim exsudações de sangue, de modo que em tudo isso note-se algum caracter divino?
Respondeo que por testemunho de pessoas de toda fé, testemunhas presenciaes desses factos, consta-lhe ter a Beata extases, estigmas, chagas e impressões admiraveis no corpo, como também exsudações de sangue, de modo que se tem por factos divinos.
3ª. Consta-lhe que a Beata assita algumas vez, em espirito, a actos celebrados em Igrejas daqui distantes, bem como assistido a missa celebrada pelo Summo Pontifice, em Roma, e até nella commungado?
Ao que respondeo que não tem disso certesa, mas que as pessoas de fé, as quaes tem frequentado este lugar, lhe asseverarão ter-se dado tal facto, isto é, não só d’assistir a missa do Summo Pontifice em Roma, mas tambem nella commungar.
4ª. Sabe se a Beata, ainda sob a ação do extases obedece promptamente a seu director?
Respondeo que isso lhe consta por affirmação de pessôas que presenciarão diversas veses esse facto.
5ª. Presenciou, por occasião de commungar a Beata, transformar-se a hostia em carne, sangue e Coração humano?
Ao que respondeo que em Quinta-Feira Sancta do corrente anno, depois de ter a Beata commungado, vio distinctamente, não só uma vez mas outra, transformar-se a hostia numa pasta de carne a verter sangue e representando uma forma como que de coração humano.
6ª. Consta-lhe que a Beata tenha tido também communhões miraculosas?
Respondeo que sim o que lhe foi communicado por Mons. Monteiro e pelo Pe. Cícero, os quais lhe asseverarão ter a Beata commungado algumas veses miraculosamente sob a especie de sangue de suas proprias mãos.
7ª. Tem-se produzido aqui, em consequencia desses factos, muitas conversões?
Ao que respondeo que é facto publico, notorio, dado diariamente a vinda a esse lugar de grande numero de pessoas, de diversos estados e bispados, as quaes vem regenerar-se com a recepção dos sacramentos da penitencia e eucharistia.
8ª. Consta-lhe que alguem tenha aqui espirito de prophecia?
Respondeo que consta-lhe ter tido alguem algumas revelações divinas as quaes ha mesmo registrado convenientemente.
9ª. Consta-lhe que a Beata gosa de saude regular?
Ao que respondeo que consta-lhe que a beata Maria de Araújo goza de saude perfeita.
E al não disse nem lhe foi perguntado, dando-se por encerrado este depoimento que vae assignado pelo Reverendo Commissario e a testemunha já nomeada, commigo secretario da commissão. E eu Padre Doutor Francisco Ferreira Antero, sercretario da commissão o escrevi. Assignado Padre Costa Lobo, commissario episcopal. Assignado Padre Felix Aurchio Arnaud.
TERMO DE VERIFICAÇÃO DA QUARTA TRANSFORMAÇÃO DA HOSTIA
EM 24 DE SETEMBRO DE 1891.
Aos vinte e quatro dias do mez de Setembro do anno de Nosso Senhor Jesus Christo de mil oitocentos e noventa e um, na Casa da Caridade da Cidade de Crato, onde foi vindo o Reverendo Commissario, commigo Secretario de seu cargo e as testemunhas presentes: Dr. Ignacio de Sousa Dias, Dr. Marcos Rodrigues Madeira, Luiz Francellino de Mendonça Beltrão, Dr. Francisco Antonio d’Oliveira Praxedez, juiz de direito desta Comarca, José Torquato de Sá Cavalcante, Herculano Ferreira de Carvalho, José Rodrigues Monteiro, Manoel Rodrigues Monteiro, Joaquim Secundo Chaves, Antonio Alves de Carvalho Lima, Laurenio Bricenio da Silva, Pe. Manoel Furtado de Figueiredo, Pe. Joaquim de Alencar Sother, e sendo ahi, passou o Reverendo Commissario a celebrar o Santo Sacrificio da Missa, na qual administrou a Communhão a beata Maria de Araújo.Concluido a missa, e voltando o mesmo Reverendo Commissario da Sacristia, onde despia os paramentos, achou a dita Beata em estado de extases, do qual logo fasendo-a despertar sob obediencia à Santa Igreja e mandando-a abrir a bocca e estender a lingua, verificou-se, em presença das testemunhas acima nomeadas, achar-se a sagrada forma transformada em sangue, se bem se distinguissem ainda parcellas das especies sacramentaes. E logo mandando o mesmo Reverendo Commissario que a Beata deitasse a particula em uma salva, guarnecida com um sanguinho, verificarão melhor os peritos Dr. Ignacio Dias e o Dr. Marcos Madeira o facto da transformação da particula em sangue o qual, segundo o exame a que procederão, verificarão ser o sangue verdadeiro o que igualmente foi supposto pellas testemunhas presentes, sentindo todos cheiro de verdadeiro sangue. Depois desse exame fiserão os peritos tomar a Beata um pouco d’agua na bocca, que deitada depois em uma bacia não apresentou nenhum vestigio de sangue, sendo para notar-se que a bocca e a lingua da Beata, apenas ella deitou a particula na salva, como fica referido, não apresentarão tambem nenhum vestigio de sangue. Dada a segunda vez a Communhão a Beata pelo Reverendo Commissario e despertada ella do extases, como das outras veses ha acontecido, verificou-se ainda a transformação da hostia em sangue, mas somente uma parte, o que foi observado pelos peritos já citados. Então o Reverendo Commissario, dando a benção a Beata, fel-a commungar realmente, como foi testemunhado. Porquanto fazendo-a em seguida abrir a bocca, já não se vio mais a particula, e lingua como toda a bocca da Beata mostravão-se perfeitamente limpa e sans. Do que, para constar, mandou o Reverendo Commissario faser este termo, que vae por elle assignado, commigo secretario e as testemunhas acima nomeadas. Eu Padre Doutor Francisco Ferreira Antero, Secretario da Commissão, o escrevi. Assignados: Padre Costa Lobo, Commissario Episcopal, Padre Manoel Furtado de Figueiredo, Padre Joaquim Secundo Chaves, Dr. Ignacio Dias, Dr. Marcos Rdrigues Madeira, Dr. Francisco A. d’Oliveira Praxedes, juiz de direito, José Rodrigues Monteiro, José Torquato de Sá Cavalcante, Laurenio Bricenio da Silva, Luiz Francelino de M. Beltrão, Herculano Ferreira de Carvalho, Manoel Rodrigues Monteiro, Antonio Alves de Carvalho Lima, Pe. Joaquim Sother d’Alencar.
TERMO D’ABERTURA E VERIFICAÇÃO D’UMA PEQUENA CAIXA CONTENDO ALGUNS PANNOS ENSANGUENTADOS EM 24 DE SETEMBRO DE 1891
No mesmo dia, mez e anno retro declarados, presentes o Reverendo Commissario Pe. Clycerio da Costa Lôbo, commigo secretario do seo cargo e as testemunhas: Herculano Ferreira de Carvalho, José Rodrigues Monteiro, Manoel Rodrigues Monteiro, Joaquim Secundo Chaves, Antonio Alves de Carvalho Lima, Reverendo Padre Joaquim Sother d’Alencar, mandou o mesmo Reverendo Commissario que o Pe. Sother abrisse uma pequena caixa que se achava dentro de um Sanctuario de imagens sagradas na Sachristia da Capella da Casa de Caridade já referida; o que feito verificou-se, com as testemunhas já nomeadas, acharem-se contidas na dita caixa os seguintes objectos: tres sanguinhos e quatro pedaços tirados de algumas toalhas todos manchados de sangue, e alguns em grande quantidade, sangue esse proveniente de algumas Communhões miraculosas, que tivera a Beata por occasião de retiro espiritual havido na casa já referida, communhões que forão sob a especie de sangue: o que tudo foi testemunhado e verificado pelas testemunhas retro nomeadas. E para isso constar, mandou o Reverendo Commissario faser este termo que vae por elle assignado commigo secretario e as testemunhas retro. E eu Padre Doutro Francisco Ferreira Antero Secretario da Commissão o escrevi. Assignados Pe Costa Lobo, commissario episcopal e (todas as testemunhas citadas)
TERMO DE VERIFICAÇÃO DA SEGUNDA CRUCIFIXÃO
DA BEATA MARIA D’ARAÚJO EM 14 DE SETEMBRO DE 1891
Ainda no mesmo dia, mez e anno e lugar retro declarados, achando-se o Reverendo Commissario, já nomeado, na Sachristia da Capella da Casa de Caridade já mencionada, commigo secretario da commissão, fomos pelo Reverendo Joaquim Sother d’Alencar chamados a observar o que com a Beata se passava; e indo ao quarto da dita Beata, observamos achar-se ella deitada ali em uma rede, em attitude de crucifixão a gotejar-lhe sangue da fronte, das mãos e dos pés e em estado de extases. Isto observado fez o mesmo Reverendo Commissario vir os médicos Dr. Ignacio de Souza Dias e Marcos Rodrigues Madeira, como peritos e como testemunhas: Dr. Carlos Alves da Nobrega, Joaquim Secundo Chaves, Luiz Francelino de Mendença Beltrão, Herculano Ferreira de Carvalho, José Rodrigues Monteiro, Manoel Rodrigues Monteiro, Raimundo de Alcantara Maia, Pe. Joaquim Sother de Alencar, Pe. Manoel Furtado de Figueiredo, Antonio Alves de Carvalho Lima, e sendo todos ahi tratarão os peritos de proceder ao exame na pessôa da Beata que continuava no mesmo estado já descripto, verificando que em sua fronte, mãos e pés não se devisava lesão ou talho algum, dando assim a entender que tal phenomeno não se explicava como causa natural; passando em seguida a bem observar o dito phenomeno as testemunhas já citadas e grande numero de pessoas que affluirão para o mesmo fim; achando todos que observava-se um facto sobrenatural, que alguem reputou até de estupendo. E para isso constar, mandou o Reverendo Commissario fazer este termo que vae por elle assignado, commigo secretario e as testemunhas ja citadas. E eu Padre Doutor Francisco Ferreira Antero, secretario da commissão o escrevi. Em tempo declaro que este facto deo-se depois da communhão da Beata, e quando já ella se tinha recolhido em seu quarto, o que posto fé. E eu, Padre Doutor Francisco Ferreira Antero o escrevi.
CONCLUSÃO
Logo no mesmo dia, mez e anno já retro declarados, no Seminário Episcopal da freguesia do Crato, faço estes autos conclusos ao Reverendo commissario; o que, para constar, faço este termo. E eu, Padre Doutor Francisco Ferreira Antero, Secretario da Commissão o escrevi.
CONCLUSOS
Que o muito Reverendo Padre Doutor Secretario desta commissão cite os Reverendos Manoel Furtado Figueiredo e Nazario David de Sousa Rolim, para virem depôr neste commissariato acerca dos factos dados com a Beata Maria D’Araújo, hoje no Seminário episcopal da Cidade do Crato, a uma hora da tarde; citando igualmente os Reverendissimo Joaquim Soter d’Alencar, Quintino Rodrigues d’Oliveira e Silva e ao Monsenhor Francisco Rodrigues Monteiro para o mesmo fim, aquelles para o dia 25 e 26 e o ultimo para o dia seguinte; do que passará certidão. Seminario do Crato, 24 de Setembro de 1891. Assignado Pe. Costa Lobo, commissario episcopal.
TERMO DE RECEBIMENTO
No mesmo dia, mez, anno e lugar retro declarados forão-me entregues estes autos com o despacho retro; do que para constar fiz este termo. E eu, Padre Doutor Francisco Ferreira Antero, secretario da commissão, o escrevi.
TERMO D’ASSENTADA
Ainda no mesmo dia, mez, anno e lugar retro já declarados passo a escrever os depoimentos das testemunhas cujos nomes, cognomes, idades, naturalidades, profissão e residencia são como ao diante se seguem; E eu, Padre Doutor Francisco Ferreira Antero, secretario da commissão o escrevi.
PRIMEIRA TESTEMUNHA
Manoel Furtado de Figueiredo, natural da frequesia de Milagres, capellão da Igreja do Rosario da mesma freguesia., idade de trinta e oito annos incompletos, testemunha jurada dos Santos Evangelhos, em um livro delles em que pós sua mão direita, promettendo dizer a verdade do que soubesse e lhe fosse perguntado acerca dos factos extraordinarios occorridos nesta povoação com a Beata Maria de Araújo. E logo o Reverendo Commissario passou a fazer-lhe as seguintes perguntas:
1ª. Conhece a Beata Maria de Araújo e sabe se desde menina cultiva ella a piedade?
Ao que respondeo que conhece a Beata de que se trata e sabe por ouvir diser ao Monsenhor Monteiro e Pe. Cícero cultivar ella a piedade.
2ª. Consta-lhe que a Beata tenha extases, estygmas e impressões de alguns instrumentos da Paixão de Christo em seu corpo, e tudo isso com algum caracter divino?
Respondeo que tudo isso lhe consta por testemunho de alguns sacerdotes, os quaes narravão-lhe que isso se dava algumas vezes por occasião de se tratar ou d’ella meditar na Paixão de Nosso Senhor, notando-se que, nessas occasiões, citando-se algumas dessas passagens em latim, ella as comprehendia e se tomava então de extases, despertando promptamente do estado extatico a ordem de seu director ou de outro sacerdote auctorizado.
3ª. Consta-lhe que a Beata assista a actos celebrados em Igrejas muito distantes do lugar em que mora, e bem assim que se tenha communicado espiritualmente como Santo Padre em Roma?
Ao que respondeo que consta-lhe, por testemunho de alguns sacerdotes, ter ella assistido ao acto de renovação de seus votos particulares na Capital deste Estado, e bem assim, que se tenha communicado com o Santo Padre em Roma, com a circunstância de haver-lhe então perguntado o Papa, se ella era viva ou morta.
4ª. Terá a Beata o dom de discernir entre diversos objetos, qual seja bento, qual não?
Respondeo que constou-lhe isso.
5ª. Presenciou alguma vez, em occasião de commungar a Beata, transformar-se a sagrada hóstia em carne e sangue?
Respondeo que quatro vezes foi testemunha ocular desses factos, distinguindo-se em todas ellas parcellas das especies sacramentaes.
6ª. Consta-lhe que alguém tenha tido alguma revelação, relativamente a especie de sangue nas hostias apparecido?
Respondeo que sim, pois o Pe. Cícero tem lhe communicado alguma revelação que elle tem tido nesse sentido, como bem a Beata, as quaes revelações versão sobre ser aquelle sangue verdadeiro sangue de Jesus Christo.
7ª. Sabe se a Beata tem tido communhões miraculosas?
Ao que respondeo que alguns sacerdotes lhe asseverarão a verdade desses factos, os quaes se tem dado, tanto sob a especie de pão, como sob a especie de sangue.
8ª. Consta-lhe que a Beata seja arrebatada, em espirito, já ao Céo, já ao Inferno e ao Purgatorio?
Ao que respondeo que também isso lhe consta, por ouvir aquelles mesmos sacerdotes, os quaes disião-lhe que isso se dava, a mandado do confessor, como penitencia sacramental.
9ª. Tem-se produsido em consequencia desses factos, muitas conversões?
Ao que respondeo que há dous annos a esta parte, apenas propalarão-se esses factos, começou a affluir à povoação do Joaseiro, grande numero de povos de diversos bispados e Estados, para receberem os sacramentos da penitencia e eucharistia.
10ª. Tem-se dado alguns milagres, mediante votos feitos ao sangue derramado das sagradas particulas?
Respondeo que consta-lhe por testemunho de alguns sacerdotes ter-se dado alguns milagres, mediante taes votos.
11ª. Sabe que alguma vez, meditando a Beata na Paixão de Nosso Senhor, correo sangue de um crucifixo de bronze?
Ao que respondeo que vio mesmo o crucifixo de bronze que deitava sangue, na occasião de meditar a Beata na Paixão de Nosso Senhor Jesus Christo, o que observou já algum tempo depois do facto; tendo igualmente visto alguns pannos manchados desse sangue, que se lhe desse ser o sangue derramado do dito crucifixo.
12ª.Terá a Beata predicto alguma cousa?
Ao que respondeo que isso lhe consta por lhe ter dito alguns sacerdotes, referindo-se essa predição a perseguição a Igreja Brasileira.
13ª. Sabe ou consta-lhe que a Beata tenha saude regular?
Ao que respondeo que sabe por observação propria alem do testemunho de medicos.
E al não disse, nem lhe foi perguntado dando-se por encerrado este depoimento que vae assignado pelo Reverendo Commissario e a testemunha já nomeada, commigo secretario da commissão. E eu Padre Doutor Francisco Ferreira Antero, sercretario da commissão o escrevi. Assignado Padre Costa Lobo, commissario episcopal. Assignado Padre Manoel Furtado de Figueiredo.
SEGUNDA TESTEMUNHA
Nazario David de Sousa Rolim, natural de Cajaseiras, Estado da Parahyba, ora coadjutor de Missão Velha deste bispado. idade de 45 annos completos, testemunha jurada dos dos Santos Evangelhos, em um livro delles em que pós sua mão direita, promettendo dizer a verdade do que soubesse e lhe fosse perguntado acerca dos factos extraordinarios occorridos nesta povoação com a Beata Maria de Araújo. E logo o Reverendo Commissario passou a fazer-lhe as seguintes perguntas:
1ª. Conhece a Beata Maria de Araújo e sabe que desde menina é dada a piedade?
Ao que respondeo que a conhece e sabe por ouvir dizer ao Pe. Cícero que ella desde menina é dada a piedade.
2ª. Consta-lhe que a Beata tenha tido extases, chagas, estigmas e impressões dos instrumentos da Paixão em seu corpo, e tudo isso com caracter divino?
Respondeo que vio a Beata em estado de extases, como crucificada, com estigmas nas mãos e nos pés e a gotejar-lhe sangue da fronte, tendo ouvido diser as pessoas de criterio, como alguns sacerdotes, ter ella chagas e a impressão dos instrumentos da Paixão em seu corpo, julgando-se tudo isso um facto divino.
3ª. Consta-lhe que a Beata, em estado de extases, obedeça promptamente a qualquer mandado de seu director ou de outro sacerdote auctorizado.
Ao que respondeo que sim, o que lhe foi communicado por alguns sacerdotes que tem inteiro conhecimento e obedece as ordens que lhe são transmittidas ainda em grande distancia pelo director espiritual...
4ª. Consta-lhe que a Beata communica-se espiritualmente com alguem ainda em grande distancia, que assiste, em espirito, a actos religiosos celebrados em Igrejas daqui distante?
Respondeo que sim, o que sabe por testemunho de alguns sacerdotes, os quaes disserão-lhe que ella tem assistido a alguns actos religiosos celebrados na Cidade de Fortaleza e em Roma, onde communica-se com o Papa.
5ª. Consta-lhe que em mesma Beata é arrebatada, em espirito, ao Céo, ao Inferno e ao Purgatorio?
Ao que respondeo que o Pe. Cícero deo-lhe a entender que a mesma Beata vae, em espirito ao Purgatorio, ignorando porem se vae ao Céo e ao Inferno.
6ª. Sabe se a Beata tem o dom de discernimento?
Respondeo que numa occasião em que a vira, como que crucificada, ou vira algumas beatas diserem, em resposta a alguma pergunta por elle então feita, que ella distinguia o espirito de alguem, tanto que cessava o estado de extases em que se achava no caso em que apparecia ali alguma pessoa inconveniente.
7ª. Presenciou alguma vez, que a Beata commungava, transformar-se a hostia em carne, em sangue e em coração humano?
Respondeo que em Quinta-Feira Santa do corrente anno, viu, junctamente com outros sacerdotes, transformar-se a hostia dada em communhão à Beata, numa pasta de carne a deitar sangue, representando como a forma dum coração humano, distinguindo no centro uma pequena porção das especies sacramentaes.
8ª. Sabe ou consta-lhe que a Beata tinha tido também communhões miraculosas?
Ao que respondeo que ouvio diser a pessoas de fé ter-se dado diversas veses esses factos, o que por sua vez tinhão ellas ouvido da bocca do Pe. Cícero.
9ª. Sabe que em consequencia desses factos tenha-se operado muitas conversões de grande numero de pessoas de diversos bispados e Estado?
Respondeo que diariamente chega a povoação do Joaseiro grande numero de pessôas as quaes vem impellidas por esses factos, a tratar de receberem ali os sacramentos da penitencia e eucharistia, facto esse que se dá igualmente nas freguesias visinhas.
10ª. Ter-se-hão dado alguns milagres mediante votos feitos ao sangue derramado nas hostias?
Ao que respondeo que muitas pessoas lhe tem communicado esses factos os quaes passam por verdadeiros.
11ª. Consta-lhe que alguma vez, meditando a Beata na Paixão de Nosso Senhor, correra sangue de um crucifixo de bronse que ella tinha na mão?
Ao que respondeo que Monsenhor Monteiro, além de outras pessoas de fé, lhe communicarão esse facto.
12ª. Consta-lhe que a Beata tenha feito alguma prophecia?
Respondeo que isso tem ouvido diser a diversas pessoas, ignorando em que sentido erão essas prophecias.
13ª. Sabe se a Beata gosa saude regular?
Ao que respondeo que sabe ter muita saude tanto por si mesmo, como por testemunho de médicos.
E mais não disse nem lhe foi perguntado dando-se por encerrado este depoimento que vae assignado pelo Reverendo Commissario e a testemunha já nomeada, commigo secretario da commissão. E eu Padre Doutor Francisco Ferreira Antero, sercretario da commissão o escrevi. Assignado Padre Costa Lobo, commissario episcopal. Assignado Padre Nazario David de Sousa Rolim
TERMO DE VERIFICAÇÃO DA QUINTA TRANSFORMAÇÃO DA HOSTIA
EM 25 DE SETEMBRO DE 1891.
Aos vinte e cinco dias do mez de Setembro do anno de Nosso Senhor Jesus Christo de mil oitocentos e noventa e um, Casa da Caridade da Cidade do Crato, onde foi vindo o Reverendo Commissario Pe. Clycerio da Costa Lobo, commigo secretario de seu cargo e as testemunhas presentes: Dr. Ignacio de Sousa Dias, Dr. Marcos Rodrigues Madeira, Dr. Francisco Antonio de Oliveira Praxedes, José Rodrigues Monteiro, Manoel Rodrigues Monteiro, Joaquim Secundo Chaves, Antonio Alves de Carvalho Lima, Rev. Joaquim Sother d’Alencar, e sendo ahi passou o Reverendo Commissario a celebrar ao santo sacrifico da missa, na qual administrou a communhão a Beata Maria de Araújo; já antes tendo sido examinada pelos peritos, perante o commissario e o Rev. Joaquim Sother, a bocca e a lingua da mesma Beata, achando-as perfeitamente sans, alem do exame mais acurado que tinhão procedido os mesmos peritos antes da celebração da missa, com o qual exame verificarão não haver na Beata nenhuma lesão nos pulmões, nem no coração, etc.. Terminada que foi a missa e voltando o Reverendo Commissario ao lugar em que se achava a Beata, achou-a, como d’outras veses, em estado de extases, do qual, para maior experiencia fel-a despertar em termos latinos, obedecendo ella promptamente, abrindo e estendendo a lingua, na qual distinguiu-se a hostia transformada em sangue, como testemunhado foi por todos os peritos e mais testemunhas já nomeadas, fasendo-a o mesmo Reverendo Commissario deital-a numa salva guarnecida com um sanguinho, afim de ser melhor observada e verificada por todos. Isto feito, depois de terem os peritos examinado a bocca e a lingua da Beata que acharão sem nenhum vestigio de sangue, e ainda depois de terem feito a Beata tomar na bocca, por tres veses, um pouco de solução com perchlorureto de ferro, deo segunda vez o Reverendo Commissario a communhão a dita Beata, operando-se ainda desta vez, e com os mesmos phenomenos já dados em outras communhões, a transformação da hostia em sangue o que igualmente foi testemunhado e verificado pelas testemunhas presentes e mais circunstantes. E tanto que forão de novo examinadas a bocca e a lingua da Beata, depois que, com a benção do mesmo Reverendo Commissario, pode ella realmente commungar. Verificarão todos não haver na bocca e na lingua da mesma nenhum resquicio de sangue ha pouco nellas observado. Do que tudo, para constar, mandou o Reverendo Commissario faser este termo, que vae por elle assignado e as testemunhas já nomeadas, commigo secretario de seu cargo. E eu Padre Doutor Francisco Ferreira Antero, secretario da commissão o escrevi. Assignados: Padre Costa Lobo, Commissario Episcopal, Dr. Ignacio Dias, Dr. Marcos Rodrigues Madeira, Manoel Rodrigues Monteiro, Joaquim Secundo Chaves, Antonio alves de Carvalho Lima, Pe. Joaquim Sother d’Alencar.
TERCEIRA TESTEMUNHA
Quintino Rodrigues d’Oliveira e Silva, natural da cidade de Quixeramobim, deste Estado, professor do Seminário Episcopal da Cidade do Crato, idade de vinte e oito annos incompletos, testemunha jurada dos Santos Evangelhos, em um livro delles em que pós sua mão direita, promettendo dizer a verdade do que soubesse e lhe fosse perguntado acerca dos factos extraordinarios occorridos nesta povoação com a Beata Maria de Araújo. E logo o Reverendo Commissario passou a fazer-lhe as seguintes perguntas:
1ª. Conhece a Beata Maria de Araújo e sabe que se dá a vida de piedade e desde quando?
Respondeo que a conhece e sabe por testemunho do proprio confessor e de mais pessoas de fé ter-se ella dado a piedade desde menina, além disso ouvido diser a ella mesma.
2ª Consta-lhe que ainda menina tinha visões maravilhosas?
Ao que respondeo que desde menina lhe apparecia Nosso Senhor Jesus Christo em forma de menino, com quem, segundo consta, ella brincava dando isso occasião de ser castigada ou ameaçada de castigo pela propria mãe, a qual ignorava que menino fosse aquelle; sendo para notar que actualmente ella é avisada por Nosso Senhor a faser de tudo isso a conveniente manifestação ao Confessor.
3ª. Consta-lhe que a Beata tenha extases, estigmas, chagas, exsudações sanguineas e impressões dos instrumentos da Paixão de Christo no corpo; e tudo isso com caracter divino?
Ao que respondeo que elle testemunha vio a Beata em estado de extases com estygmas e exsudações sanguineas, a gotejar-lhe sangue com abundancia da fronte, das mãos e pés, constando-lhe mais por testemunho de pessoas de criterio ter ella chagas e impressões admiraveis no corpo, no que tudo descobre-se um caracter divino, por quanto de ordinario dão-se quasi todos esses phenomenos em occasião de tratar-se ou ella meditar na Paixão de Nosso Senhor; a isso acrescentando que em algumas desses occasiões notava-se, até ella mesmo confessou, sentir vehemente dor junctamente com grande goso espiritual, lamentando não amar a Deus tanto quanto elle merecia, pedindo mesmo que a ensinasse a amál-o, e finalmente mostrando comprehender algumas phrases do Cantigo dos Canticos que lhe causavão consolação tanto que proferia uma phrase significativa de ternura.
4ª. Consta-lhe que a Beata ainda sob acção do extases conhece o que se passa ao redor della, especialmente alguma leitura espiritual que então se fassa?
Ao que respondeo que ouvio diser a um sacerdote que em tal estado ella ouvira o officio da Paixão que elle resava, como ella propria o confessou, parecendo à mesma testemunha ter ella, em igual estado de extases, prestado attenção a uma parte do officio que elle testemunha então resava.
5ª. Consta-lhe que a Beata communica-se com alguém espiritualmente, ainda em grande distancia e até mesmo que assista a algum acto de religião celebrado em algumas Igrejas bem distantes daqui, bem como em Roma?
Respondeo que um sacerdote lhe communicou ter ella Beata communicações espirituaes com elle proprio ainda em grande distância, tendo ouvido diser a este mesmo sacerdote haver ella assistido e continuar a assistir missas por elle celebradas em Igrejas distantes do lugar donde ella mora, bem como outros actos de piedade que elle practica, tudo por uma graça especial que supõe elle ter obtido para esse fim; sabendo mais por communicação do director espiritual da mesma Beata ter ella assistido a um acto religioso em Roma, celebrado pelo Santo Padre, assistido por alguns cardiaes, com a circunstancia ainda de haver ella commungado na Basilica de S. Pedro e de ter fallado com o Papa, o qual então lhe foi perguntou quem fosse.
6ª. Consta-lhe que a Beata tem o dom de discernimento?
Respondeo que consta-lhe por ouvir diser a um sacerdote ter ella distinguido entre uns objetos qual era o bento, qual não, bem como qual o objeto dentre outros lhe era destinado.
7ª Consta-lhe que a Beata seja alguma ves arrebatada em espírito ao Céo, ao Inferno e ao Purgatório?
Ao que respondeo que o proprio director da Beata communicou-lhe ter sido, por diversas veses, ella arrebatada ao Céo, ao Inferno e ao Purgatorio; dando-se que quando ella subia em espírito ao Céo, entretinha colloquios com Deus que então lhe dava lições relativamente ao progresso espiritual d’alma o que lhe excitava desejos até mesmo pedidos de ali ficar; quando descia ao Inferno prendia ali alguns demonios; quando finalmente ia ao Purgatorio, libertava dali algumas almas com participação de suas penas; comprindo notar-se que nessas occasiões mostrava ella muito soffrer, derramava de seu corpo bastante sangue, sendo alliviada desses soffrimentos com aspersão d’água benta e orações, facto este que foi presenciado pela propria testemunha.
8ª. Testemunhou algumas veses a transformação da hostia em sangue, por occasião de commungar a Beata?
Ao que respondeo que sim, pois presenciou taes factos, tanto em occasião que lhe foi dada a communhão por outro sacerdote, como em outras que a communhão fora administrada pela propria testemunha; notando-se numa dessas occasiões que a sagrada forma pousava sobre uma porção de sangue a qual se circunscrevia justamente à dimensão da particula, que conservava na parte superior a propria especie de pão.
9ª.Consta-lhe haver alguma revelação particular, relativamente a especie de sangue nas hostias apparecido?
Respondeo que tanto o director espiritual da Beata de que se trata como outro sacerdote que dirige pessoas pias, alem de uma outra pessôa, que disso diz ter conhecimento, lhe tem asseverado, por veses, ter havido revelações no sentido de ser aquelle sangue o verdadeiro sangue de Jesus Christo, e como um esforço do seu coração, para salvação das almas e um meio de reanimar a fé na presença real de Jesus Christo, hoje tão diminuida.
10ª Consta-lhe que algumas pessôas tinhão sido levadas em espirito a adorar o sangue apparecido nas hostias?
Ao que respondeo que isso ouvio diser a um sacerdote conhecedor desses factos, disendo mais que uma pessoa a qual desejava obter graças particulares, e isso por intermédio de uma pessôa pia, teve a communicação de que taes graças lhe serião concedidas, mediante um acto de desagravo e de adoração ao Sangue apparecido nas hostias, communicação essa que lhe foi feita pelo confessor.
11ª. Sabe se a Beata tem tido communhões miraculosas?
Ao que respondeo que em seguida a uma communhão ordinária por elle mesmo testemunha administrara a Beata, derão-se duas communhões miraculosas sob a especie de pão, constando-lhe que as mesmas communhões se tem dado sob a especie de sangue, com a circunstancia particular, que numa dessas, Nosso Senhor, depois de ter feito beber seu sangue num calis, derramou a outra parte sobre a cabeça della, disendo ao mesmo tempo banhae-vos tambem em meu sangue.
12. Sabe se a Beata tem feito alguma prophecia?
Respondeo que lhe tem constado alguns desses factos.
13ª. Sabe se em consequencia desses factos tem-se dado algumas conversões?
Ao que respondeo que sim, pois que diariamente chega ao Joaseiro grande numero de pessoas com o fim de receberem os sacramentos da penitencia e eucharistia dando mesmo signaes evidentes de conversão.
14º. Sabe se algumas veses, mediante uma leitura sobre a Paixão de Nosso Senhor, correo sangue de um crucifixo de metal, que a Beata tinha na mão?
Ao que respondeo que elle testemunha presenciou duas veses esse facto, estando a faser então a leitura sobre a Paixão de Nosso Senhor, constando-lhe que, além desses factos, se tem dado outros semelhantes, tanto que vio mesmo alguns pannos com que se tinha purificado aquelle sangue.
15. Consta-lhe que a sagrada forma, em occasião que a Beata communga, tem-se movido e dado como que saltos na bocca da mesma?
Ao que respondeo que consta-lhe terem-se dado taes factos, sempre que se opera a transformação das hostias.
16ª. Sabe se a beata gosa de saude regular?
Respondeo que a excepção de algum incommodo de estomago, não lhe consta soffrer ella outra enfermidade.
E al não disse nem lhe foi perguntado dando-se por encerrado este depoimento que vae assignado pelo Reverendo Commissario e a testemunha já nomeada, commigo secretario da commissão. E eu Padre Doutor Francisco Ferreira Antero, sercretario da commissão o escrevi. Assignado Padre Costa Lobo, commissario episcopal. Assignado Padre Quintino Rodrigues de’Oliveira e Silva.
QUARTA TESTEMUNHA
Joaquim Sother d’Alencar, natural da cidade de Barbalha, deste Estado, professor do Seminário da Cidade do Crato, idade de trinta e quatro annos começados, testemunha jurada dos Santos Evangelhos, em um livro delles em que pós sua mão direita, promettendo dizer a verdade do que soubesse e lhe fosse perguntado acerca dos factos extraordinarios occorridos nesta povoação com a Beata Maria de Araújo. E logo o Reverendo Commissario passou a fazer-lhe as seguintes perguntas:
1ª. Conhece a Beata Maria de Araújo e sabe ser ella dada a piedade e desde quando?
Ao que respondeo que a conhece pessoalmente desde 1885 a esta parte, constando-lhe por tradição ser ella dada a piedade desde menina.
2ª. Consta-lhe que, ainda menina, tenha tido a Beata visões maravilhosas?
Respondeo que sim, pois ouvio a ella propria diser, como também ao seu confessor, ter visto Nosso Senhor em forma de menino, com quem brincava, dando isso occasião de ser castigada ou ameaçada pela propria mãe, notando que nessas occasiões aprendeu até a douctrina da bocca do menino Jesus, alem de entreter com elle colloquios que versavão sobre o amor de Deus.
3ª. Consta-lhe que a Beata tenha extases, estygmas, chagas, impressões dos instrumentos da Paixão no corpo e exsudações sanguineas e tudo isso com caracter divino?
Ao que respondeo que elle testemunha tem visto muitas veses a Beata em estado de extases com estygmas, como lhe parecia, e exsudações de sangue em grande quantidade, constando-lhe por testemunho de fé e pela Beata, ter ella chagas e especialmente uma no lado, a qual se tem por muito profundas, alem de impressões admiraveis dos instrumentos da Paixão, as quaes se dão muitas veses, mas sem que permaneção: o que tudo se reputa de caracter divino.
4ª. Consta-lhe que a Beata communica-se espiritualmente com alguém ainda em grande distancia?
Ao que respondeo que isso, digo, que tem isso sabido de dous sacerdotes, os quaes lhe asseveravão ter a Beata com elles se communicado muitas vezes espiritualmente, de modo que chega mesmo ella a dar conta a um delles especialmente, das practicas de religião e piedade que elle expõe, ainda em grande distancia.
5ª. Consta-lhe que a Beata tenha ido ao Céo, ao Inferno e ao Purgatorio por ordem do confessor, como penitencia sacramental, e mesmo por ordem immediata de Deus?
Respondeo que o director espiritual da Beata lhe communicava ter ella ido de espirito ao Céo, ao Inferno e ao Purgatorio; isso não somente a mandado, ou por ordem immediata de Deus, senão ainda como penitencia sacramental que elle lhe impunha, e até por uma simples benção, não só delle como de outros sacerdotes, devendo notar que, numa dessas occasiões, a vio como crucificada, a derramar sangue, mediante uma benção que elle testemunha lhe deo, com previo consentimento della.
6ª. Sabe se a Beata tenha feito alguma prophecia?
Ao que respondeo que consta-lhe isso, não podendo precisar bem os objectos dessa prophecias.
7ª. Sabe se a Beata tenha o espirito de discernimento?
Respondeo que consta-lhe por ouvir diser a um sacerdote ter ella alguma ves distinguido entre diversos objectos qual fosse bento, qual não, bem como, dentre outros objectos, quaes lhe erão destinados.
8ª Presenciou por occasião de commungar a Beata, a transformação da hostia em sangue, carne e coração humano?
Ao que respondeo que muitas veses foi testemunha da communhão da Beata, constando-lhe por testemunhas de fé, terem se transformado as hostias num coração humano.
9ª.Sabe se há alguma revelação particular relativamente a especie de carne, sangue e coração humano apparecidos nas hostias?
Ao que respondeo que a propria Beata lhe tem, por veses, communicado algumas revelações nesse sentido, isso é, de ser aquella carne, aquelle sangue e aquelle coração, a verdadeira carne, o verdadeiro coração de Nosso Senhor, o que tudo foi confirmado pelo proprio director da Beata e mais pessoas pias as quaes pessôas pias tinhão tido iguaes revelações.
10ª. Sabe se a Beata tenha tido, algumas veses communhões miraculosas?
Respondeo que elle testemunha tem visto muitas veses essas communhões, tanto sob a especie de pão, como sob a especie de sangue não no acto de receber essas communhões, e sim logo depois.
11ª Sabe se por occasiões, digo, em consequencia desses factos tem-se operado muitas conversões?
Ao que respondeo que grande numero de pessôas, dantes indifferentes, de diversos Estados e bispados, se tem convertido, dispondo-se a receber os sacramentos da penitencia e eucharistia.
12ª Consta-lhe tambem que se tenhão dado alguns milagres mediante votos feitos ao sangue apparecido nas hostias?
Ao que respondeo que sim, o que sabe por testemunho de pessôas dignas de fé.
13ª. Consta-lhe que a Sagrada forma na occasião de commungar a Beata, tenha-se movido e dado como que saltos na bocca da mesma?
Respondeo que mais de um sacerdote lhe tem asseverado esse facto, sabendo, com certesa, que muitas veses tem apparecido na mão da Beata hostias ensanguentadas, tanto para communhão della, como de outras pessoas o que lhe foi garantido por um sacerdote de todo criterio.
14ª. Consta-lhe que algumas veses, tratando-se com a Beata da Paixão de Nosso Senhor, corre o sangue de um crucifixo de metal que ella tinha na mão?
Respondeo que tanto em occasião de tratar-se com ella a cerca da Paixão de Nosso Senhor, como de se resar junctamente com ella a corôa do preciosissimo sangue, salvo o engano, correra sangue de um crucifixo de metal, que ella tinha na mão. Facto esse que se reprodusio em mais quatro crucifixos.
15ª. Consta-lhe que algumas pessôas tinham sido arrebatadas em espírito a adorar o sangue apparecido nas hostias?
Ao que respondeo que duas pessoas, as quaes tiverão esse dom, lhe asseverarão isso, disendo que até juravão se fosse necessario; o que se dava tanto por ordem de Deus, como do proprio confessor.
16ª. Consta-lhe que a Beata tinha apparições de almas do Purgatorio?
Respondeo que a propria Beata lhe tem communicado ter visto e mesmo aplicado diversos sufragios a muitas almas, as quaes tem mesmo conhecido de quem sejão, libertando nessas occasiões muitas dellas; factos esses, que se derão, isto é, as visões e communicações com as almas, achando-se ella em estado natural.
17ª. Sabe se a Beata gosa de saúde regular?
Ao que respondeo que, a excepção de pequenos incommodos do estomago, não nota nella outro incommodo.
E al não disse nem lhe foi perguntado dando-se por encerrado este depoimento que vae assignado pelo Reverendo Commissario e a testemunha já nomeada, commigo secretario da commissão. E eu Padre Doutor Francisco Ferreira Antero, sercretario da commissão o escrevi. Assignado Padre Costa Lobo, commissario episcopal. Assignado Padre Joaquim Sother d’Alencar.
QUINTA TESTEMUNHA
Francisco Rodrigues Monteiro, natural da cidade do Crato desse bispado, Reitor do Seminário episcopal da mesma cidade do Crato, idade de quarenta e quatro annos incompletos, testemunha jurada dos Santos Evangelhos, em um livro delles em que pós sua mão direita, promettendo dizer a verdade do que soubesse e lhe fosse perguntado acerca dos factos extraordinarios occorridos nesta povoação com a Beata Maria de Araújo. E logo o Reverendo Commissario passou a fazer-lhe as seguintes perguntas:
1ª. Conhece a Beata Maria de Araújo e sabe se se dá a vida de piedade e desde quando?
Ao que respondeo que a conhece pessoalmente desde 1888 e sabe desde menina ser dada a piedade.
2ª. Consta-lhe se ella desde menina tem tido visões maravilhosas?
Respondeo que a propria Beata lhe disse, por ordem divina, que desde menina lhe apparecia Nosso Senhor em forma de menino, com quem ella brincava e de quem ouvia conselhos, como também lhe aparecião almas pedindo-lhe orações, e isso em occasião em que levantava ella altares, como brinquedo infantil.
3ª. Sabe se a Beata tem tido extases, estygmas, chagas, impressões dos instrumentos da Paixão no corpo, chamas de amor e exsudações sanguineas, tudo com caracter divino?
Ao que respondeo que elle testemunha tem presenciado, muitas veses a Beata em estado de extases, a verter-lhe sangue da fronte, das mãos, dos pés e do lado, e isso pela impressão dos instrumentos da Paixão, e bem assim sentindo em seu corpo chamas de amor divino, que a consumia toda, do que nota-se um caracter divino; dando-se esses factos em sua presença e em occasião que por mandado de Deus elle testemunha se entretinha com a Beata a cerca da Paixão de Nosso Senhor.
4ª. Sabe se a Beata tem ido em espírito ao Céo, ao Inferno e ao Purgatorio, tanto por ordem immediata de Deus, como de seu confessor?
Ao que respondeo que ella tem ido muitas veses ao Ceo, ao Inferno e ao Purgatorio por ordem de seu confessor, como executor de ordem divina nesse sentido, tendo ido por veses, a mandado da propria testemunha, por poder especial de Deus, digo, que Deus lhe dera, ao Ceo e ao Purgatorio, devendo notar-se que quando ella ia ao Purgatorio dava signaes de muito soffrer, e derramava sangue em grande quantidade, o que porem só acontecia quando por ordem de seu confessor ela ia faser penitencia no Purgatorio em lugar de Jesus Christo, para allivio de almas de particular escolha divina; dando-se mesmo derramamento de sangue quando em obediencia ao confessor descia ao inferno.
5ª. Sabe se a Beata communica-se espiritualmente com alguem, ainda em grande distancia, bem como ella assista a actos de religião, de piedade e de penitencia practicados em lugares e Igrejas distantes?
Ao que respondeo que elle testemunha communica-se com a Beata em todos seus actos espirituaes constantemente, por uma concessão especial de Deus; tendo ouvido diser que ella assiste em espirito a actos de religião, de piedade e penitencia, practicados em lugares bem distantes de sua residencia. Comprindo notar mais que ella tem conhecimento e executa actos de piedade a ella ordenados pela mesma testemunha, em nome da Paixão de Jesus Christo e das dores de Nossa Senhora, como meios de communicação entre si e a Beata.
6ª. Sabe se a Beata tem o dom de discernimento?
Ao que respondeo que a Beata tem não só o dom de discernimento dos espiritos, como tambem de discernir entre diversos objectos qual seja bento, qual não, e bem assim entre outros objectos quaes lhe erão destinados.
7ª. Sabe tambem se a Beata tem o dom da prophecia?
Respondeo que sim, pois dous ou tres meses antes da queda da Monarchia, ella vira duas veses o anjo Custodio do Imperio, no frontispicio da Igreja de Nossa Senhora das Dores do Joazeiro e na Capella do Santissimo da mesma Igreja, com vestes encarnadas, e com uma espada desembaiada, tinta de sangue, e que lhe foi significado como um signal da revolução no Brasil; constando-lhe mais por ouvir diser, que ella predicera, ou vira em espirito a expulsão do Imperador D. Pedro II. Declarou mais que alem do espirito de prophecia tinha tambem a Beata espirito vidente, tanto que tinha conhecimento do conteudo de cartas que a testemunha ainda não tinha communicado a alguem.
8ª. Presenciou, muitas veses, a transformação da hostia em sangue por occasião da Beata commungar?
Ao que respondeo que elle testemunha presenciou, no dia 25 de março do corrente anno, por occasião de a Beata pedir-lhe uma benção para poder realmente commungar, a hostia convertida em uma pasta de carne; como presenciou tambem, um anno depois de a ter visto coroada de espinhos, a hostia transformada, apresentando em sua lingua a forma de um coração humano, que a propria testemunha, para melhor verificar, tocou com o dedo e até jurou; disendo mais que inumeras veses tem visto as hostias transformadas em sangue, tanto em communhões ordinárias, como em communhões miraculosas. Declarou finalmente que durante um retiro espiritual feito pela propria testemunha, na Capella do Joazeiro, foi divinamente revelado a Beata, que Deus lhe queria faser uma graça particular, por occasião daquelle retiro, a qual era uma communhão miraculosa que ella havia de ter sob a especie de sangue na mão direita delle testemunha, o que se deo dose veses mais ou menos, achando-se elle testemunha e a Beata diante do tabernaculo, a renovar seus votos e a faser actos de amor de Deus.
9ª. Consta-lhe que haja alguma revelação particular, relativamente a especie de sangue nas hostias apparecido?
Respondeo que sabe com certesa, tanto por communicação da Beata, como de outras pessoas suas dirigidas, as quaes tem graças particulares de Deus, que aquelle sangue apparecido nas hostias, é o verdadeiro sangue de Jesus Christo, o que jurão sobre Palavra de Deus, tendo sido duas dellas arrebatadas em espirito a adorar aquelle sangue; que até a S. S. Virgem e S. José mandavão jurar, sob a obediencia de seu confessor, ser aquelle sangue, o verdadeiro sangue de Jesus Christo.
10ª. Presenciou ou consta-lhe que tratando-se com a Beata sobre a Paixão de Jesus Christo, correra sangue de alguns crucifixos de bronse?
Respondeo que uma vez, dando a testemunha uma benção a Beata com intenção particular, correra sangue de um crucifixo de bronse que ella testemunha posera em sua mão; além disso, mais duas veses no acto de resar a corôa do preciosissimo sangue elle testemunha junctamente com a Beata, e na occasião della, digo, e depois da renovação dos votos particulares della Beata, em a occasião della meditar na Paixão de Jesus Christo, desse igual facto com grande abundancia de sangue; iguaes factos derão-se ainda em crucifixos de diversos pessôas piedosas.
11ª Tem tido noticia de algumas conversões operadas, em consequencia de todos esses factos?
Respondeo que a cerca de tres annos, é diariamente testemunha de muitas conversões operadas em pessoas de alta e baixa condição, de diversos Estados e bispados, as quaes todas vem visitar a Capella do Joazeiro a adorar o precioso sangue e a receberem os sacramentos da penitencia e eucharistia.
12ª. Há uma prova mais recente de como o sangue derramado dos crucifixos, das hostias e das communhões sob a especie de sangue seja o verdadeiro sangue de Jesus Christo?
Respondeo que tendo ido ao Joazeiro visitar o Reverendo Commissario, por essa occasião, em oração com a Beata Maria de Araújo, pedira a Nosso Senhor Jesus Christo, uma prova sensível de como o sangue apparecido nas hostias, nos crucifixos e communhões miraculosas, era o verdadeiro sangue de Jesus Christo, deu-se que, tomada ella de extases ainda no meio de oração, apparecerão, entre os dedos pollegar e indicador da Beata, duas particulas unidas e banhadas em sangue as quaes Nosso Senhor significou ter dado como prova do que se desejava saber, facto esse que se deo a uma hora da tarde.
13ª. Sabe se a Beata gosa de saude regular?
Respondeo que, excepção de pequenos incommodos do estomago, não se nota nella outra enfermidade.
14ª. Pode dar um memorial de tudo isso?
Ao que respondeo que sim e até a isso se obrigava se fosse preciso.
E al não disse, nem lhe foi perguntado dando-se por encerrado este depoimento que vae assignado pelo Reverendo Commissario e a testemunha já nomeada, commigo secretario da commissão. E eu Padre Doutor Francisco Ferreira Antero, sercretario da commissão o escrevi. Assignado Padre Costa Lobo, commissario episcopal. Assignado Monsenhor Francisco Rodrigues Monteiro.
CONCLUSÃO Logo no mesmo dia, mez e anno já retro declarados, no Seminário Episcopal da freguesia do Crato, faço estes autos conclusos ao Reverendo commissario; o que, para constar, faço este termo. E eu, Padre Doutor Francisco Ferreira Antero, Secretario da Commissão o escrevi.
CONCLUSAS
O reverendo Padre Dr. Secretario desta Commissão cita as Beatas: Antonia Maria da Conceição, Maria Joana de Jesus, Anna Leopoldina de Aguiar Mello, Angela Mericia do Nascimento, Sra. Raquel Sisnando Lima, para virem depôr a cerca dos factos dados com a Beata Maria de Araújo, hoje e nos dias immediatamente seguintes, na caza da Caridade desta Cidade, às 11 horas da manhã; do que passará a certidão. Crato, 28 de setembro de 1891. Assignado Padre Costa Lobo, Commissario Episcopal.
TERMO DE RECEBIMENTO
No mesmo dia mez, anno e lugar retro declarados, forão-me entregues estes autos com o despacho retro; do que para constar fiz este termo. E eu, Padre Doutor Francisco Ferreira Antero, Secretario da Commissão, o escrevi. Certifico que intimei o despacho supra as testemunha já nomeadas do que ficarão scientes. Dou fé. Eu Padre Doutor Francisco Ferreira Antero, Secretario da Comissão o escrevi.
TERMO D’ASSENTADA
Ainda no mesmo dia, mez, anno e lugar retro já declarados, passo a escrever os depoimentos das testemunhas cujos nomes, cognomes, idades, naturalidades, profissão e residência, são como ao diante se seguem do que para constar, fiz este termo. E eu, Padre Doutor Francisco Ferreira Antero, Secretario da Commissão o escrevi.
PRIMEIRA TESTEMUNHA
Antonia Maria da Conceição, natural da freguesia de Iguatu, ora residente na Casa de Caridade da Cidade de Crato onde é recolhida, idade de trinta annos, testemunha jurada dos Santos Evangelhos, em um livro delles em que pós sua mão direita, promettendo dizer a verdade do que soubesse e lhe fosse perguntado acerca dos factos extraordinarios occorridos nesta povoação com a Beata Maria de Araújo. E logo o Reverendo Commissario passou a fazer-lhe as seguintes perguntas:
1ª. Conhece a Beata Maria de Araújo e sabe se ella tem tido algumas visões?
Ao que respondeo que ha dous annos a esta parte a conhece pessoalmente, e sabe por alguma revelação divina ter-lhe apparecido muitas veses, Nosso Senhor e Maria S. S.
2ª. Sabe se os extases, estygmas, suores de sangue e chagas que se veem na Beata são de operação divina?
Respondeo que sabe, por ter Deus muitas veses revelado, ser tudo aquillo de que se trata produsido na pessôa da Beata por operação divina.
3ª. Sabe se a Beata tem ido muitas vezes em espirito ao Céo, ao Inferno e ao Purgatorio?
Ao que respondeo que não somente lhe foi revelado tudo isso, mas ella mesmo vio, em espirito, a Beata no Céo e no Purgatório, glorificando quando ia ao Céo a S. S. Trindade, e soffrendo, quando ia ao Purgatorio, em lugar de Nosso Senhor, libertando assim muitas almas.
4ª. Tem tido alguma revelação particular, relativamente ao sangue, a carne e ao coração nas hostias apparecido?
Ao que respondeo que tendo ido em espirito, muitas veses, a adorar o sangue apparecido nas hostias na Igreja do Joazeiro, como penitencia sacramental que lhe era imposta, teve em ditas occasiões de lhe ser revelado por Jesus Christo ser aquelle sangue, ou aquella carne e aquelle coração, que nas hostias apparecião, a verdadeira carne, o verdadeiro sangue e o verdadeiro coração divino delle; revelações essas que erão confirmadas por Maria S. S. e seu esposo S. José. Enquanto isso disia, eis que a testemunha tomada de extases, apresentou entre os dedos pollegar e indice da mão direita quatro particulas disendo que Nosso Senhor mandava entregar aquellas quatro particulas a seu confessor para que elle commungasse junctamente com os padres da commissão e a propria testemunha; e isso como prova da verdade do facto que acima se tratava; isto é, que a carne e o sangue derramado tanto das hostias, como dos crucifixos, e bem assim o coração humano em que se transformarão as hostias, algumas veses, erão verdadeiramente a carne, o sangue e o coração de Jesus mesmo e ainda para que com a propagação de todos esses factos fosse elle mais louvado e glorificado. Declarou mais que vio em espirito muitos anjos, padres e bispos glorificados em adoração ao sangue precioso derramado das hostias, tanto no Joazeiro como nessa Casa de Caridade, tendo igualmente visto em adoração àquelle sangue a S. S. Virgem e S. José. Disse mais que Nosso Senhor lhe revelou ser de sua divina vontade fundar uma congregração de padres que se encarregarião de guardar o seu precioso sangue e de dar culto perpetuo a S. S. Trindade e ao divino Coração de Jesus; disendo mais que mandaria muitos romeiros de diversas partes e lugares ainda de grande distancia, a adorar no Joazeiro o seu sangue, ali se convertendo e chegando-se ao sacramento da penitencia e eucharistia. Declarou mais que muitas veses foi em espirito a Roma, por desposição especial de Deus, para ali commungar pelo Summo Pontifíce e pelo povo Romano para que o Summo Pontifice fosse levado a approvar esses milagres com a qual approvação se derramarião abundante graças sobre toda Igreja.
5ª. Tem tido alguma revelação relativamente a perseguição a Igreja?
Respondeo que muitas veses lhe tem sido revelado a perseguição a Igreja, a qual está já em começo, o que ha de acontecer no Brasil por causa do casamento civil: então Nosso Senhor recomendava que muito se orasse para que taes cousas não suceddessem.
6ª. Haverá algumas promessas para todos quantos se interessarem por essa causa?
O que respondeo que muitas veses Nosso Senhor lhe significou, no acto de suas orações e communhões, que quantos se interessassem por essa causa, que era a causa de seu coração, seriam grandemente recompensados, como serião rigorosamente castigados os que a despressassem. Que tudo quanto se operava, por meio daquelles factos, era um esforço de seu coração para a salvação dos homens.
E mais não disse nem lhe foi perguntado, dando-se por encerrado este depoimento que vae assignado pelo Reverendo Commissario e a testemunha já nomeada assignado de cruz por não saber escrever, commigo secretario da commissão. E eu Padre Doutor Francisco Ferreira Antero, sercretario da commissão o escrevi. Assignado Padre Costa Lobo, commissario episcopal. Assignado de Cruz + Antonia Maria da Conceição.
SEGUNDA TESTEMUNHA
Maria Joanna de Jesus, natural da Parahyba, freguesia de Cajazeiras, bispado de Pernambuco, ora recolhida nesta Casa de Caridade, idade de trinta e tres annos, pouco mais ou menos, testemunha jurada dos Santos Evangelhos, em um livro delles em que pós sua mão direita, promettendo dizer a verdade do que soubesse e lhe fosse perguntado acerca dos factos extraordinarios occorridos nesta povoação com a Beata Maria de Araújo. E logo o Reverendo Commissario passou a fazer-lhe as seguintes perguntas:
1ª. Conhece a Beata Maria de Araújo e sabe se desde menina lhe appareciam Jesus e Maria?
Respondeo que, de dous annos a esta parte, pouco mais ou menos, a conhece pessoalmente, e sabe por ouvir diser as pessoas de fé ter ella desde menina visões maravilhosas, apparecendo-lhe então Jesus e Maria, dando-lhe conselhos para sua direcção espiritual.
2ª. Tem alguma revelação divina a cerca dos extases, estigmas, chagas e chamas de amor, e bem assim das impressões dos instrumentos da Paixão que a Beata tem em seu corpo?
Ao que respondeo que durante as suas orações e communhões lhe foi revelado, algumas veses, por Deus, serem todos aquelles factos que se notavão na pessôa da Beata, verdadeiras obras de Deus.
3ª. Há tambem alguma revelação relativamente ao sangue apparecido nas hostias e nos crucifixos?
Respondeo que tem bem lembrança de haver Nosso Senhor revelado, uma vez, ser aquelle sangue derramado das hostias, dos crucifixos, o sangue do seu divino coração, vertido para a salvação dos homens, revelação esta que foi confirmada por Maria S. S. e S. José, fasendo extensiva esta revelação ao sangue derramado das particulas apparecidas nas communhões miraculosas. Declarou mais que, algumas veses vio anjos em adoração ao precioso sangue, assim na Capella do Joazeiro como nessa Casa de Caridade.
4ª. Sabe ou consta-lhe que a Beata tenha sido transportada em espirito ao Céo, ao Inferno e ao Purgatorio?
Ao que respondeo que sabe por ouvir diser a pessôas de fé e até mesmo sacerdotes, darem-se com a Beata aquelles factos, accrescentando-se que, quando vae ao Céo, glorificar a Deus, quando desce ao Inferno, prende até os demonios, libertando algumas almas do purgatorio, quando lá ia em espirito.
5ª. Consta-lhe que haja alguma revelação relativamente a perseguição da Igreja brasileira?
Respondeo que lhe consta por testemunho de diversas pessoas ter alguem revelações nesse sentido.
6ª. Consta-lhe que a hostia consagrada movia-se e dava como que saltos na bocca de algumas pessoas que commungavão?
Ao que respondeo que consta-lhe por testemunho de algumas pessoas, entre ellas um sacerdote.
7ª. Consta-lhe que alguém tenha tido alguma revelação, quanto a ser perseguido o Capellão do Joazeiro por causa desses factos?
Respondeo que isso tambem lhe consta, por testemunho de algumas pessoas, que presentemente não tinha-se, digo, não lembra-se quaes fossem.
8ª. Consta-lhe que a Beata e mais pessoas pias tinhão sido transportadas, em espirito, a Roma a tratar ali com o Papa a respeito desses factos?
Ao que respondeo que um sacerdote bem conhecedor dos factos do Joazeiro, alem de outras pessoas de fé, lhe tem communicado esse factos, com a circonstancia particular de commungarem aquellas pessoas em Roma, na intenção de ser bem disposto o para Papa a approvar todos esses milagres.
E al não disse, nem lhe foi perguntado dando-se por encerrado este depoimento que vae assignado pelo Reverendo Commissario e assignado de Cruz a testemunha já nomeada, commigo secretario da commissão. E eu Padre Doutor Francisco Ferreira Antero, sercretario da commissão o escrevi. Assignado Padre Costa Lobo, commissario episcopal. Assignado de Cruz + Maria Joanna de Jesus.
TERCEIRA TESTEMUNHA
Anna Leopoldina Aguiar Melo, natural da freguesia de Crato, e residente no Joazeiro, idade de desenove annos, solteira, testetemunha jurada dos Santos Evangelhos, em um livro delles em que pós sua mão direita, promettendo dizer a verdade do que soubesse e lhe fosse perguntado acerca dos factos extraordinarios occorridos nesta povoação com a Beata Maria de Araújo. E logo o Reverendo Commissario passou a fazer-lhe as seguintes perguntas:
1ª. Conhece a Beata Maria de Araújo e sabe se desde menina ella tem visões maravilhosas?
Ao que respondeo que a conhece desde que tem uso da razão, e sabe por ouvir diser ao proprio director da Beata, alem de outras pessôas de fé, que ella desde menina tem tido as ditas visões, apparecendo-lhe, ainda quando menina Nosso Senhor e Maria S. S. dando-lhe conselhos para sua direção espiritual.
2ª. Sabe se a Beata tem extases, estygmas, chagas, exsudações sanguineas, chamas de amor divino, e tudo isso com caracter divino?
Respondeo que, em communicações espirituaes com seu director, lhe foi muitas veses revelado, por Deus, serem aquellas phenomenos de que se trata produzidos na Beata por operação divina, pois que queria assim fasel-a como que o instrumento na manifestação de seu amor para com os homens.
3ª. Tem presenciado algumas veses, em occasião de commungar a Beata, transformar-se a hostia consagrada em carne, em sangue e coração humano?
Ao que respondeo que muitas vezes foi tetsemunha ocular desses factos.
4ª. Tem presenciado, em iguaes occasiões, mover-se a hostia e dar como que saltos na bocca da Beata?
Respondeo que algumas veses presenciou mover-se a hostia e dar como que saltos na bocca da Beata, em occasião da communhão, saltando mesmo da bocca della e pousando na mão della algumas veses.
5ª. Ha revelações particulares relativamente a especie do sangue, da carne e coração humano apparecidos nas hostias?
Ao que respondeo que a ella testemunha tem muitas veses Nosso Senhor revelado, ser aquella carne, aquelle sangue e coração apparecidos nas hostias, a verdadeira carne e verdadeiro sangue, o verdadeiro coração de Jesus Christo; revelações que, algumas veses, forão confirmadas por Maria S. S. e S. José, como lhe tem significado seu confessor sabendo ainda que iguaes revelações tem sido feitas a outras pessôas pias, Disse mais que as mesmas revelações são extensivas as communhões miraculosas, tanto sob a especie de pão, como sob a especie de sangue, e bem assim que o sangue que correra algumas veses dos crucifixos, era o verdadeiro sangue de Nosso Senhor.
6ª. Sabe ou consta-lhe que anjos tenhão apparecido na Capella do Joazeiro em adoração sa Sangue apparecido nas hostias?
Ao que respondeo que ella testemunha tem, algumas veses, visto anjos em adoração àquelle sangue, como também Maria S. S. e alguns Santos, como tambem sabe que algumas pessôas tem sido levadas em espirito, a mandado do confessor e como penitencia sacramental, a adorar aquelle precioso sangue.
7ª. Consta-lhe que a Beata tenha sido, algumas veses, transportada em espirito ao Céo, no Inferno e ao Purgatorio?
Respondeo que não somente sabe de tudo isso, por informação do seu confessor e do director da Beata Maria de Araújo como mesmo vio em espirito a beata transportando-se tambem em espirito ao Céo, ao Inferno e ao Purgatorio, glorificando no Céo a Deus, prendendo no Inferno alguns demonios por intermedio do anjo da guarda da mesma Beata, libertando do mesmo modo do Purgatorio algumas almas, que chegava mesmo a conhecer.
8ª. Tem-se operado muitas conversões em consequencia de todos esses factos?
Ao que respondeo que diariamente é testemunha desses factos, o que já tinha sido revelado por Deus a algumas pessoas, assim antes desses factos, como depois delles, pois disia querer elle faser do Joazeiro um lugar de chamamento de muitas almas para sua propria conversão.
9ª. Consta-lhe que se tenha dado alguns milagres, mediante votos feitos ao sangue apparecido nas hostias?
Respondeo que sim, tendo ella testemunha presenciado alguns factos havidos por verdadeiros milagres, por todos quantos os testemunharão.
10ª. Consta-lhe que haja alguma revelação com relação a perseguição a Igreja Brasileira?
Ao que respondeo que consta-lhe que algumas pessoas tem tido estas revelações.
11ª. Consta-lhe que algumas pessoas tinhão sido levadas em espirito, a Roma a tratar esses assumptos?
Respondeo que seu proprio confessor, lhe tem communicado haver a beata Maria de Araujo sido transportada em espirito, a Roma a tratar com o Papa sobre esses negocios, e ali commungado pelo bom exito desse processo, constando-lhe mais, por testemunho do seu confessor que o mesmo se tem dado com outras pessoas. Declarou mais que a ella testemunha tem Deus Nosso Senhor, por veses, revelado que, apesar de muitas dificuldades, elle proprio se encarregaria de levar a effeito a approvação desses milagres, para a qual, digo, para o que devia-se muito orar.
12ª. Consta-lhe que a Beata tenha espirito de prophecia?
Respondeo que consta-lhe ter ella feito algumas predições, por quando teve nesse sentido ella testemunha alguma revelação particular. Declarou que a ella testemunha se dignou Nosso Senhor de revelar a vinda da Commissão encarregada pelo Senhor Bispo diocesano de inquirir sobre esses factos, recommendando orações nesse sentido e promettendo de por si mesmo levar tudo a bom effeito. Perguntada se tinha alguma cousa a diser respondeo que, em dias deste anno, tendo ella testemunha commungado na Capella do Joazeiro succedeo que a hostia se transformou em uma posta de carne, facto esse que por acanhamento ella não revelou ao seu confessor, procurando a muito custo consumir a particula assim em carne transformada como conseguio; entretanto, sem ella o saber, foi isso revelado ao seu confessor que acabava de, agora mesmo, certificar-se com ella testemunha do facto alludido; dando-se a transformação da hostia em carne, em mais duas communhões que a testemunha fez. Disse mais que no dia 27 do corrente mez, estando ella testemunha a orar na Capella do Seminário desta Cidade, appareceu-lhe Nossa Senhora recommendando-lhe certa prece para que o confessor della testemunha desse um bom depoimento, accrescentando que elle já tinha commeçado o depoimento e por isso que era de urgência orar. Já a tarde do mesmo dia é que a testemunha teve de ver e conversar com o seu confessor, verificando-se que naquella hora justamente elle estava depondo. Disse mais que tendo ella sido mandada uma vez, dentre outras, ao Purgatorio foi-lhe ali revelado por Nosso Senhor ser o sangue apparecido nas hostias, o verdadeiro sangue delle, entretanto nesse mesmo acto, Nossa Senhora revela ao seu confessor esta mesma verdade, do que ella testemunha teve sciencia por parte de Deus, como verificou ella depois com seu confessor. Em outra occasião, depois da renovação de seus votos particulares, foi ella mandada, por seu confessor, ao Purgatorio, com recommendação de ella perguntar ali a Nosso Senhor, se o sangue derramado das hostias, era verdadeiro sangue delle; então como prova dessa verdade, lhe foi dada a communhão por Nosso Senhor mesmo, com uma particula ensanguentada; do que Deus deo sciencia ao proprio confessor. Tres veses teve de ir tambem ao Céo, a mandado de seu confessor, e ali Nosso Senhor mesmo lhe deo a communhão sob a especie de sangue contido num calis d’ouro disendo-lhe então: bebei, que este é o sangue do meo coração; e isso, como uma prova de como o sangue derramado das hostias era o verdadeiro sangue delle. Disse, mais finalmente que todas as veses que fora ao Purgatorio ali commungava das mãos do proprio Jesus Christo em suffragio das almas do Purgatorio; e isso tanto por ordem de Deus como por ordem do proprio confessor. Dentre outras veses, lhe foi dada uma ves a communhão pelas mãos da S. S. Virgem, que tirou o S. S. do tabernáculo e o trouxe a ella testemunha em companhia de muitos anjos e santos, distinguindo-se entre ellas o anjo de sua guarda e o de seu confessor, S. José, S. Luiz Gonzaga, S. Affonso Rodrigues e S. Francisco das Chagas.
E al não disse, nem lhe foi perguntado dando-se por encerrado este depoimento que vae assignado pelo Reverendo Commissario e a testemunha já nomeada, commigo secretario da commissão. E eu Padre Doutor Francisco Ferreira Antero, sercretario da commissão o escrevi. Assignado Padre Costa Lobo, commissario episcopal. Assignado Anna Leopoldina Aguiar de Mello.
QUARTA TESTEMUNHA
Angela Mericia do Nascimento, natural da cidade do Crato, ora recolhida na Casa de Caridade da mesma cidade, idade de vinte e oito annos pouco mais ou menos, testemunha jurada dos Santos Evangelhos, em um livro delles em que pós sua mão direita, promettendo dizer a verdade do que soubesse e lhe fosse perguntado acerca dos factos extraordinarios occorridos nesta povoação com a Beata Maria de Araújo. E logo o Reverendo Commissario passou a fazer-lhe as seguintes perguntas:
1ª. Conhece a Beata Maria de Araújo e sabe se ella desde menina via Nosso Senhor e Nossa Senhora?
Ao que respondeo que a conhece ha tres annos e sabe, por testemunho de muitas pessôas, que ella ainda menina via Nosso Senhor, Nossa Senhora e S. José, os quaes a ella davão conselhos para sua direção espiritual.
2ª. Sabe se a Beata tem extases, estigmas, chagas, exsudações sanguineas, impressões admiraveis no corpo, e tudo isso com caracter divino?
Respondeo que sim, e sabe que tudo aquillo é nella operado pela mão de Deus, o qual por veses lhe tem revelado ter assim feito por lhe ser ella muito grata, e por elle escolhida para altos fins.
3ª. Consta-lhe que a Beata tenha sido arrebatada em espirito, ao Céo ao Inferno e ao Purgatorio?
Ao que respondeo que ella testemunha vio muitas veses, em espirito, por permissão de Deus, a Beata arrebatada, em espirito, ao Céo e ao Purgatorio, não sabendo porem se ia tambem ao Inferno, parecendo-lhe que quando subia ao Céo dava gloria a Deus, e sabendo ao certo que ella no Purgatorio, soffrendo junctamente com as almas, tinha permissão de libertar muitas almas, que fasia em companhia de Nosso Senhor e Nossa Senhora, S. José e algumas veses tambem anjos.
4ª. Presenciou algumas veses quando a Beata commungava, as hostias transformarem-se em sangue, carne e coração humano?
Ao que respondeo que vio isso muitas veses em espirito, revelando-lhe então Nosso Senhor, ser aquella carne, aquelle sangue e aquelle coração, a verdadeira carne, o verdadeiro sangue e verdadeiro coração de Nosso Senhor, revelação essa que muitas veses foi confirmada pela S. S. Virgem; alem de que vio duas veses aqui, na Casa de Caridade, as hostias transformadas em sangue. Disse mais que, indo em espirito, por disposição particular de Deus, a adorar o sangue precioso na Capella do Joazeiro, vio Maria S. S., anjos em adoração ao mesmo sangue junctamente com S. Francisco das Chagas, S. Bernardo, S. Luis Gonzaga, S. Catarina de Sena, S. Rosa e S. Theresa; revelando-lhe então Nosso Senhor que aquelle pequeno lugar era por elle havido com tanto apreço que elle ali estava como num outro Céo, a derramar abundantes graças. Disse mais que em confirmação dessa verdade ella vio em espirito as hostias consagradas moverem-se e dar como que salto na bocca dos que commungavão e até sairem da bocca e pousarem nas mãos daquellas mesmas pessoas, como tudo se verificou. Disse mais que indo por ordem de Deus e alguma vez a mandado de seu confessor, ao Céo, ao Inferno e ao Purgatorio, ali lhe foi revelado ser o sangue derramado das hostias o verdadeiro sangue de Jesus Christo. Disse que no Céo, quando ali ia, em espirito, recebeo a communhão das mãos de Jesus, tanto sob a especie de pão, como sob a especie de sangue disendo que tanto era o seu desejo de ser por ella (testemunha) amado que, por, digo, para satisfazer esse desejo, lhe dava a comer e a beber de seu corpo e de seu sangue. E no Purgatorio, quando ali foi permittido ir, em espirito, lhe era, a maior parte das veses, administrada a communhão pelas mãos de Nossa Senhora, cinco veses em cada uma dessas occasiões, em honra das cinco chagas de Nosso Senhor; e isso em suffragio pelas almas do Purgatorio, libertando-se assim muitas dellas, que forão conhecidas da propria testemunha. Em continuação disse que, algumas veses, se tem Nosso Senhor se dignado de a levar, em espirito, a adorar o seu precioso sangue no Joazeiro, mormente quando ali achava-se seu confessor. Numa dessas occasiões, vio, em espirito, a mão de seu confessor tinta de sangue da hostia que este dera em communhão à Beata, e estando dias depois a confessar-se foi levada, em espirito, ao quarto de seu proprio confessor, para ali adorar o sangue de que estavão manchados alguns pannos os quaes seu mesmo confessor tinha trasido da Capella do Seminario dando-se iguaes factos outras veses mais. Aconteceo ter sido tambem levada em espirito, ao Joazeiro em occasião que o Padre Cícero tinha as mãos tintas de sangue dessas hostias, para o fim de adorar o precioso sangue. Disse mais que a mandado de seu confessor, como de outro sacerdote, ella testemunha teve de pedir a Deus, por intercessão de Nossa Senhora, quisesse elle dar bom exito ao processo que corria sobre esses factos, e Deus Nosso Senhor se dignou de responder que elle, depois de muitos obstaculos, fasia ter bom resultado o dito processo. A isso acrescentou que, de tudo, digo, se tendo offerecido como victima a Deus, por conselho de seu confessor, para alcançar a graça de sortir bom effeito esse processo que corre, mostrou-se Jesus como que agradecido, pedindo e obtendo do Eterno Padre uma graça para esse fim, com a recommendação especial a ella testemunha, de renovar ella cada dia essa oblação, o que seria precedido de uma benção de seu confessor, e assim continuar até o fim desta causa.
E al não disse, nem lhe foi perguntado dando-se por encerrado este depoimento que vae assignado pelo Reverendo Commissario e a testemunha já nomeada, commigo secretario da commissão. E eu Padre Doutor Francisco Ferreira Antero, sercretario da commissão o escrevi. Assignado Padre Costa Lobo, commissario episcopal. Assignado Angela Mericia do Nascimento. EM TEMPO: Disse que na vespera do dia em que pela primeira vez derramou Nosso Senhor seu sangue, na Capella do Joazeiro, por occasião da communhão da Beata, lhe foi revelado que isso se daria, e que seria de salvação para uns e de condemnação para outros, dando-se a circunstancia de ter-lhe sido revelado no dia seguinte a realização desse facto, justamente na hora em que derramou-se das hostias sangue tanto que cahio pelo chão. Disse mais que tendo, algum tempo depois, daquelle facto, ido as pessoas recolhidas nessa casa de caridade ao Joazeiro, a excepção da testemunha, que se achava, digo que achava-se então impossibilitada de ir tambem, succedeo que indo ella testemunha a Capella da casa, a queixar-se a Nosso Senhor dessa impossibilidade, no acto de faser uma via-sacra para merecer essa graça de ir tambem com suas companheiras, lhe appareceo Nosso Senhor, promettendo-lhe leval-a em espirito ao Joazeiro a adorar seu precioso sangue, não só naquelle dia, como no seguinte, o que effectivamente se deo, sendo ella a primeira pessoa que beijou e adorou aquelle sangue precioso. Quando, algum tempo depois pode ella testemunha ir ao Joazeiro a satisfaser o desejo que tinha de adorar o precioso sangue, aconteceo não poder isso realisar por incommodo de saúde; então Maria e José lhe apparecerão, trasendo Nossa Senhora os pannos ensanguentados para ella ver e adorar o sangue que naquelles pannos se continha disendo-lhe então Nosso Senhor que assim permittia pela satisfação que lhe dava ella testemunha, vindo ali adorar seu precioso sangue. No dia seguinte, quando pode ella testemunha ir a Igreja, Nosso Senhor outra vez lhe significou quanto lhe era grato vel-a com as demais pessôas ali presentes em adoração ao seu sangue, accrescentando que aquelle lugar estava por elle escolhido para ali serem derramadas abundantes graças, promettendo cumular de graças a quantos ali fossem em espirito de fé e amor. E mais não disse. E eu Padre Francisco Ferreira Antero, secretario, o escrevi. Assignado Padre Costa Lobo, Commissario Episcopal. Assignado Angela Mericia do Nascimento.
QUINTA TESTEMUNHA
Rachel Sisando Lima, natural e residente na cidade de Crato, idade de quarenta annos incompletos, casada, testemunha jurada dos Santos Evangelhos, em um livro delles em que pós sua mão direita, promettendo dizer a verdade do que soubesse e lhe fosse perguntado acerca dos factos extraordinarios occorridos nesta povoação com a Beata Maria de Araújo. E logo o Reverendo Commissario passou a fazer-lhe as seguintes perguntas:
1ª. Conhece a Beata Maria de Araújo?
Ao que respondeo que ha dous annos desta parte a conhece e sabe por testemunho de pessoas pias, que Nosso Senhor apparecendo-lhe, prometteo communicar-se com ella por meio de seu precioso sangue.
2ª Sabe se a Beata tem extases, estigmas, crucifixão, chagas e chamas de amor, e tudo isso com caracter divino?
Respondeo que tudo isso lhe consta por testemunho de muitas pessoas de fé, entre ellas alguns sacerdotes, os quaes todos tem aquelles phenomenos como certamente divinos.
3ª. Consta-lhe que a Beata tenha sido arrebatada, em espirito ao Céo e ao Purgatorio?
Ao que respondeo que seo proprio confessor e alem delle mais outra pessoa que presentemente não se recorda quem fosse, lhe tem revelado esses factos, com a circunstancia que alguma ves, da noite duma sexta-feira para o dia de sabbado, vio o seu proprio confessor a Beata em extases, a faser penitencia no Purgatorio pelas almas, a suar sangue pelos poros do rosto e tendo os lábios entumecidos.
4ª. Presenciou a transformação das hostias em sangue, por occasião de commungar a beata?
Respondeo que no dia de Corpus Christi, do corrente anno, teve occasião de ver, na Capella do Joazeiro, a hostia transformada em carne já depositada numa salva, sabendo depois por communicação de seu proprio marido ter-se verificado verter-se sangue da hostia assim transformada, tendo visto ainda uma vez esse mesmo phenomeno na casa de Caridade desta Cidade, constando-lhe que na Capella do Joazeiro muitas veses se tem operado esses milagres.
5ª. Tem havido algumas revelações sobre a especie de sangue nas hostias apparecido?
Ao que respondeo que, uma ves no acto de ouvir a missa, e outra depois da communhão, quando então adorava Nosso Senhor presente em seu coração, pedio afectuosa e humildemente a Nosso Senhor, quisesse elle revelar-lhe se o sangue da communhão da Beata Maria de Araújo era o seu verdadeiro sangue; então, num rapto de seu espirito, como da outra ves, enlevada no amor de Deus, sentio-se inspirada e como que ouvio em resposta as seguintes palavras: que aquelle sangue da communhão da Beata era a realidade daquellas palavras que outrora dirigia elle aos povos de seu tempo, nestes termos: quem comer de minha carne e beber do meu sangue, terá a vida eterna, o que com propriedade se aplicaria a geração ventura já allumiada pela luz de seu Evangelho, acrescentando que com a transformação das hostias em sangue elle revelava sem véo o mysterio antes annunciado. Disse mais que uma ves, dando-lhe o confessor uma benção, sentio-se levada em espirito a Capella de Joazeiro, a adorar o precioso sangue, parecendo-lhe então ver ali anjos em acto de adoração ao mesmo sangue.
6ª. Consta-lhe que se tinha dado conversões em consequencia desses factos occorridos no Joazeiro?
Respondeo que ella testemunha tem presenciado grande numero de povos indo em romaria ao Joazeiro, onde chegando-se aos sacramentos da penitencia e eucharistia, se tem mostrado verdadeiramente convertidos.
7ª. Consta-lhe que se tenhão operado mylagres mediante votos feitos ao sangue derramado das hostias?
Respondeo que uma pessoa de seu conhecimento, soffrendo ha tres annos de uma enfermidade grave, como supõe, restabeleceo-se perfeitamente, fasendo uma romaria ao precioso sangue, além de outro facto semilhante, isso é, de doutra enfermidade, com applicação de uma medida do precioso sangue.
8ª. Consta-lhe que alguma ves tenha vertido sangue dalguns crucifixos de bronse?
Respondeo que lhe constou esse facto, tendo ella testemunha visto depois o crucifixo que vertera sangue, como vio tambem o sanguinho com o qual se tinha purificado tal sangue.
9ª. Consta-lhe que a Beata tenha tido communhões miraculosas?
Ao que respondeo que ella testemunha vio mesmo na Igreja do Seminario desta Cidade, nas mãos do Padre Cícero, uma particula dada miraculosamente a Beata, constando-lhe por testemunho de muitas pessoas como pelo attestado do Dr. Ildefonso, que iguaes factos se derão na Capella do Joazeiro, e no oratorio particular do Pe. Cicero com a mesma Beata e mais outra.
E al não disse, nem lhe foi perguntado dando-se por encerrado este depoimento que vae assignado pelo Reverendo Commissario e a testemunha já nomeada, commigo secretario da commissão. E eu Padre Doutor Francisco Ferreira Antero, sercretario da commissão o escrevi. Assignado Padre Costa Lobo, commissario episcopal. Assignado Rachel Sisando Lima
ADDITAMENTO AO DEPOIMENTO DA TESTEMUNHA JAHEL WANDERLEI CABRAL, DADO EM 15 DE SETEMBRO DO CORRENTE ANNO.
Aos cinco dias do mez de Outubro de mil oitocentos e noventa e um no Consistorio da Capella de Nossa Senhora das Dores, no Joazeiro, onde foi vindo o Reverendo Commissario Padre Clycerio da Costa Lobo, commigo Secretario de seu cargo. E sendo ahi, compareceo a testemunha já acima nomeada, pedindo que fosse ella admittida a faser um additamento equivalentemente ao memorial que se obrigara a dar, relativamente a algumas revelações que ha tido a cerca dos factos dados, e por se dar nesta povoação. E sendo a isso admittida como havia requerido, passou a fazer as seguintes declarações: Em dias do mez de julho de 1890, estando eu orando na Capella do Joazeiro, às oito horas da manhã, depois de ter commungado e estando a fazer eu as communhões no purgatorio segundo determinação e com confirmação do confessor, eis que vi o mundo a soffrer uma grande tempestade, depois da qual tive de ver passaros de todas as qualidades e de todas as cores, bebendo sangue contido em uma grande caixa; então um delles olhou para mim, e com o bico tinto de sangue me disse: estes passaros são almas de toda qualidade, as quaes virão de todas as partes e lugares a beber sua salvação no sangue de Nosso Senhor derramado aqui neste lugar. Esta visão foi seguida de outras. Eu muitas veses, vi Nosso Senhor a derramar sangue de seu coração e de suas mãos, disendo, hei de derramar muitas veses sangue, para chamar assim o povo a mim, como muitas veses vi Nosso Senhor no Purgatorio a derramar ali sangue de seu coração e de suas mãos, disendo então que tantas outras veses havia de derramar aqui no Joazeiro o seu mesmo sangue, para o fim de confirmar o povo na fé dos mysterios do amor de seu coração. No dia 29 de julho de 1981 as dez horas da manha, depois do regresso do Padre Cícero da Capital deste Estado, estando eu a confessar-me teve o confessor de diser que a opinião do Bispo era que o sangue havido aqui nas communhões não era o sangue de Nosso Senhor Jesus Christo, e sim um sangue trasido pelos anjos; neste interim o Padre Eterno disse, levantando a cabeça do Padre: olha para mim homem, e reanima tua fé, lembra-te do que tantas veses te hei dito que este sangue é o sangue do coração de Jesus; então eu disse, mas o Bispo quer que elle diga que não é o sangue de Jesus Christo, mas um sangue trasido pelos anjos. Elle disse então, quem é maior eu ou o mundo todo? E nesta occasião eu havia, digo, eu via que elle fechava tudo em sua mão, até mesmo o Papa era elle quem governava. No mesmo dia, estando eu a asistir missa que se celebrava na Capella do S. S. Sacramento, na occasião de fazer eu uma estação em honra da Paixão de Nosso Senhor, no acto mesmo da communhão por mim feita no adorável Coração de Jesus, conforme elle mesmo me prescrevera, fallou-me elle assim: Santo Thomaz não disse que aquelle sangue derramado das hostias, era sangue trasido pelos anjos, se assim fosse, como teria elle feito, em tantos livros, tantos actos de desagravo ao Coração de Jesus no S. S. Sacramento? Se é assim – um sangue trasido pelos anjos – então que se acabe com todas as obras de SantoThomaz. Pergunte ao Bispo se quando eu institui o S. S. Sacramento, não era Homem-Deus? Maior humilhação foi a que eu me sujeitei, instituindo o S. S. Sacramento, do que a de Incarnar eu no ventre de uma Virgem, fazendo-me menino, e passando por todos os passos de minha vida humana até a morte de cruz. Semilhantemente maior é a humilhação de estar eu presente na eucharistia até a consumação dos tempos, do que a de derramar nella o meo sangue. Foi justamente nesta occasião que eu vi Jesus pregado na Crus, e sendo traspassado seu coração por uma lança, elle me disse: eis o segredo do meo coração: Assim como a João Evangelista o discipulo do amor, permitti eu repousasse em meu coração, assim como encarreguei a devoção de meu coração à Maria Alacoque e a Gertrudes, assim a encarrego de diser que posso derramar meu sangue no meo sacramento, mostrando-me assim no mesmo tempo passivel e impassivel. No dia 2 de agosto do corrente anno, estando eu a confessar-me pela manhã, mandou-me o confessor, depois de uma benção dada para esse fim, perguntar a Deus se elle devia sustentar que aquelle sangue derramado das hostias era sangue de Jesus, o que feito, houve em resposta que, se elle confirmasse aquella verdade, elle havia de effectuar todas as graças que havia promettido, depois da chegada dos padres da commissão Episcopal, e quando assim não succeda – louvores à cruz; e que no caso do Padre não sustentar a mesma verdade, seria qual a figueira infructuosa, e se a sustentasse como o padre promettera então, seria elle qual uma arvore frondosa e florida, a dar abundantes flores e frutos para o mundo inteiro. No dia 20 de agosto do corrente anno, estando eu a resar uma via-sacra na Igreja as duas horas da madrugada, durante a terceira estação, vi Nosso Senhor todo ensanguentado assim disendo: Não é de admirar que não entendão o mysterio de derramar-se sangue das hostias consagradas, sangue que é meo, porque a fé já está se acabando. Quando eu vim ao mundo não foram os Pontifices e Sacerdotes que derão a sentença de morte?! E isto disendo mostrou-se tão sentido como no acto de receber a sentença. No dia 8 de setembro do dito anno, por occasião de fazer uma via-sacra, já na Sexta estação, vi a Veronica com o panno de que se tinha servido para limpar o rosto de Nosso Senhor, mostrando-se o sangue vivo como naquella hora e todos adorando aquelle sangue. Ahi Nosso Senhor disse: estes se compadecião e tinhão reverencia ao meo sangue que só era sangue do rosto. Aqui tem sangue do coração e do corpo e não tem reverência. Na setima estação Nosso Senhor disse: os Judeus querião tirar-me daquella cidade, allegando que não querião outro rei, mas agora que estou no S. S. Sacramento, só para faser bem, tentão os homens para tirar-me do mundo até queimando-me. Já no dia 4 de setembro do corrente anno, as seis horas da manhã, estando eu disposta para faser uma penitencia, ordenada pelo Padre Eterno para as manifestações de suas graças aqui no Joazeiro, sobre tudo para que Nosso Senhor derramasse sangue quando chegasse os padres encarregados do Bispo, tinha eu visto o Eterno Padre o qual então me disse: Por caridade, me ajude nisto comprindo o que mandei: quando eu fiz as communhões segundo me era ordemnado divinamente, nas chagas das mãos direita a esquerda de Jesus, como também em seu adoravel coração, foram taes communhões em particulas que logo depois se desfasião em sangue. As dez horas do mesmo dia, estava eu em oração, quando vi outra ves o Eterno Padre, disendo-me então: Nos altos decretos de Deus foi permittido isso que o Bispo fez (E nisso mostrava-me uma carta); em seguida o Padre Eterno tomou-me pelas mãos disendo: Vamos a casa do Bispo; quando ali chegamos, chamou elle pelo Bispo e elle não respondeo, o que se deo depois, digo, então eu indiquei que melhor seria subirmos, e o Eterno Padre disse em resposta: não, vamos ser os pequenos para depois sermos os grandes. Chamou pela segunda vez o Bispo, e vindo então algumas pessoas, disse o Eterno Padre que queria falar com o Bispo mesmo, ao que ficando elles como indiferentes, chamou terceira ves o Eterno Padre pelo Bispo, que não acudio ao chamado, quando então disse o Eterno Padre – está vendo? Já é a terceira ves que o chamo, vamos embora, e nesse interim traçou uma cruz sobre a porta. As onze horas do mesmo dia, depois da communhão, estando eu a espera do Padre para receber a benção, vi Nossa Senhora toda vestida de verde disendo então: remettão ao Papa o processo que se há de fazer, ao que respondendo eu que so seria remettido ao Papa se o Bispo mandasse, como me disse o padre, ella replicou: remettão para o Papa. quando chegou o padre depois de me ter dado a benção, mandou-me elle perguntar se podia jurar que o sangue derramado das hostias era o sangue de Jesus, e como tal digno de adoração, nesse interim vi eu em espirito o Eterno Padre e o Papa, ajoelharem-se e adorarem as hostias ensanguentadas, disendo o Eterno Padre – jure que é o sangue de Jesus, como tal digno de adoração; não desanime que sou omnipotente, e por tanto tudo posso faser. Desde junho do corrente anno até a presente data, em diversas occasiões, mas sempre depois da communhão, tendo visto e tendo ouvido distinctamente o Padre eterno diser-me: Eis aqui está (nesta caixa) o principio das graças que hei de derramar sobre o mundo inteiro: quiserão muitos de seccar o rio que jorra daquelle principio, mas por muito que tenhão lutado para assim faser, eu não consentirei; ahi me era mostrado tendo Jesus aberto o coração, do qual jorrava um rio que regava toda a terra, como me era representado o Padre Eterno e o Espirito Santo, de um e outro lado de Jesus; sendo-me então revelado que queria Deus se erigisse um altar consagrado ao culto perpetuo da Trindade S. S., rasão porque havia Jesus aqui derramado seu sangue. Nestas mesmas occasiões me era revelado que era da divina vontade fosse aqui fundada a ordem dos Franciscanos e outra de mulheres segundo a regra de S. Theresa, ambas encarregadas do culto perpetuo da Trindade S. S. Desde a vez primeira que appareceu aqui sangue nas hostias consagradas me foi revelado divinamente que aqui (na Capella do S. S.) seria como uma outra piscina, onde muitos se lavarião assim n’alma, como no corpo. Declarou mais que Deus lhe ordenou, sem despença a respeito, communicasse aquella revelação attinente ao culto perpetuo do qual acima se trata. Declarou finalmente ter tantas outras revelações com relação aos factos occorridos, os quaes deixa de declarar, não somente por não sobejar tempo para tanto, como porque é vontade de Deus que se conclua, quanto antes este processo. E al não disse, digo, E assim se houve por encerrado este additamento equivalente ao memorial que se obrigara a testemunha a dar, o qual additamento vae assignado pelo Reverendo Comissario, commigo seu secretario, e testemunha já nomeada, digo, já retro nomeada. E eu Padre Doutor Francisca Ferreira Antero, Secretario da Commisão o escrevi. Assignados Pe. Costa Lobo, Commissario Episcopal. Jahel Wanderlei Cabral.
TERMO DE VERIFICAÇÃO DE UNS PANNOS ENSANGUENTADOS
EM 3 DE OUTUBRO DE 1891.
Aos tres dias do mez de Outubro do anno de mil oitocentos e noventa e um, no Seminario Episcopal da Cidade do Crato, onde achão-se o Reverendo Commissario em trabalho da Commissão episcopal; e sendo ali dirigiu-se o mesmo Reverendo Commissario à cella do Reverendo Joaquim Sother d’Alencar, professor do mesmo Seminario, e ahi em presença das testemunhas presentes; Antonio Alves de Carvalho Lima e João Baptista de Hollanda, fez abrir o mesmo Reverendo Commissario um pequeno pacote que se dizia conter alguns pannos ensanguentados. Aberto que foi o dito pacote, em presença das testemunhas já acima nomeadas, verificou-se haver ali um lenço da beata Maria de Araújo e bem assim um sanguinho, manchados de sangue proveniente de uma communhão miraculosa sob aquella especie, dada à mesma Beata em dias do mes de Agosto do corrente anno na Capella do Seminario da dita Cidade. E para constar, mandou o mesmo Reverendo Commissario que em data de hoje, dia 9 de Outubro de 1891, nesta Povoação do Joazeiro, se fisesse o competente termo que vae por elle assignado e as testemunhas já acima nomeadas. E eu Padre Doutor Francisco Ferreira Antero, secretario da Commissão o escrevi. Assignado Padre Costa Lobo, commissario Episcopal, Antonio Alves de Carvalho Lima, João Baptista de Hollanda,
TERMO DE VERIFICAÇÃO DE UNS PANNOS ENSANGUENTADOS
EM 9 DE OUTUBRO DE 1891
No mesmo dia, mes, anno e lugar retro declarados, dirigio-se o Reverendo Commissario à cella do Reverendo Quintino Rodrigues de Oliveira e Silva, e ahi, em presença das mesmas testemunhas retro nomeadas fez abrir um pequeno pacote que se disia conter alguns pannos ensanguentados. Isto feito, verificou-se em presença das testemunhas retro nomeadas e abaixo assignados, haver no dito pacote dous lenços manchados de sangue que correra de um crucifixo de bronse; facto esse que deo-se duas veses no mez de maio de 1890, por occasião de retiro espiritual havido na povoação do Joazeiro no acto de fazer a beata Maria de Araújo, junctamente com o mesmo Reverendo Quintino, uma leitura sobre a Paixão de Nosso Senhor Jesus Christo; notando-se, como foi asseverado ao mesmo Reverendo Commissario e às testemunhas presentes, que a mão direita da beata, a qual tinha o crucifixo conservou-se nessa occasião perfeitamente limpa, ao passo que na mão esquerda deo-se a impressão sanguinea de um cravo.E para que tudo constasse mandou o Reverendo Commissario hoje, dia 9 de Outubro de 1891, nesta povoação do Joazeiro, se fisesse o competente termo que vae por elle assignado e as testemunhas nomeadas. E eu Padre Doutor Francisco Fereira Antero, secretario da commissão, o escrevi. Assignado: Pe. Costa Lôbo, Commissario Episcopal, Antonio Alves de Carvalho Lima. João Baptista de Hollanda.
TERMO D’ABERTURA E VERIFICAÇÃO DE UMA CAIXA CONTENDO ALGUNS PANNOS ENSANGUENTADOS
EM 9 DE OUTUBRO DE 1891.
Ainda no mesmo dia, mez, anno e lugar retro declarados, dirigio-se o Reverendo Commissario a cella do Reverendo Reitor do Seminario, Monsenhor Francisco Rodrigues Monteiro, onde fez abrir, em presença das testemunhas abaixo assignadas, uma caixa contendo diversos pannos ensanguentados. Aberta que foi a caixa verificou-se em presença das testemunhas já referidas, haver ali seis sanguinhos manchados de sangue, provenientes de algumas communhões dadas sob a especie de sangue à beata Maria de Araújo; o que teve lugar na Capella do S. S. Sacramento nesta povoação do Joazeiro, durante um retiro espiritual aqui havido e em dias dos meses de Janeiro e Fevereiro do corrente anno; verificou-se pois haver dous lenços e dous sanguinhos tintos de sangue que correra tres veses de um crucifixo de bronse nos dias vinte e sete e vinte e oito de Abril do anno passado e bem assim no dia seis de maio do dito anno, sendo a primeira vez por occasião de dar Monsenhor Monteiro uma benção à Beata Maria de Araújo, para robustecel-a em certas tentações, de renovar ella seus votos, meditando na paixão de Nosso Senhor Jesus Christo; e a segunda em occasião de renovar tambem a Beata os seus votos particulares. Verificarão-se alem disto mais quatro pannos tintos de sangue que correra miraculosamente em certas communhões epirituaes do Reverendo Reitor com a Beata Maria de Araújo. Notou-se nesta mesma occasião que quando o Reverendo Reitor do Seminario benzeo e aspergio com agua benta uma toalha com a qual tratava de guarnecer uma gaveta, onde queria elle acommodar aquelles pannos, as gotas g’água benta que cahirão sobre a dita toalha se converterão em sangue.Como tudo foi verificado pelo Reverendo Commissario e as testemunhas presentes. E para que tudo isso constasse mandou o Reverendo Commissario que, em data de hoje, 9 de outubro de 1891, nesta povoação do Joazeiro, se fisesse o competente termo, que vae por elle assignado e as testemunhas abaixo assignadas. E eu Padre Doutor Francisco Ferreira Antero, secretario da commissão o escrevi. Assignado Padre Costa Lobo, Commissario Episcopado. Antonio Alves de Carvalho Lima, João Baptista de Hollanda.,
TERMO DE DECLARAÇÃO DE ALGUMAS GRAÇAS OBTIDAS MEDIANTE VOTOS FEITOS AO PRECIOSO SANGUE.
Aos treze dias do mez de Outubro de mil oitocentos e noventa e um, em casa de moradia do Reverendo Commissario, onde me achava eu Secretario da Commissão abaixo assignado.E sendo ahi, mandou o mesmo Padre Commissario tomar por termo e declaração de diversas graças obtidas em favor de algumas pessôas, mediante votos por ellas feitos ao Precioso Sangue de Nosso Senhor Jesus Christo, as quaes graças são como diante vão espostas: Rosa Maria de Conceição, Residente em Pajehu, bispado de Pernambuco, soffrendo uma grave enfermidade uterina, já desenganada dos medicos, fez um voto ao Precioso Sangue de ir a pé em romaria ao Joazeiro e dentro em poucos dias restabeleceo-se perfeitamente. A mesma pessoa já nomeada, sendo casada já a sete annos e não tendo filhos, ajuntou ao voto já acima referido, o pedido de um filho, graça essa que logo obteve de Deus.
Maria da Conceição, Moradora na Barra do Jardim, deste bispado. Achando-se alejada das pernas e dos braços, recorreo ao Precioso Sangue, e logo restabeleceo-se perfeitamente daquella enfermidade.
NOME ILEGIVEL, residente na Parnahyba, da freguesia de Umary, deste bispado. Em trabalho de sua ocupação de vaqueiro, meteo o olho direito um pau de meio palmo de comprido, penetrando em busca do cerebro, de tal modo que, dous medicos a quem recorreo, não poderão fazer operação julgando grave o caso. Nessa circunstancia o padecente poz uma medida do Precioso Sangue no pescoço, e o pau extrahio-se miraculosamente, ficando são o olho.
Joanna Maria da Conceição, moradora em Piancó, bispado de Pernambuco. Por occasião de parto laborioso de que estava a morte, recorreo ao Precioso Sangue, promettendo uma romaria a pé ao Joazeiro, e logo deitou a criança, embora morta. Tantas outras graças, todas relativas a curas mais ou menos consideraveis se tem obtido, mediante votos feitos ao Precioso Sangue por muitas pessoas, mormente pelas seguintes: Antonio Simplicio do Nascimento, Morador no Brejo dos Santos, deste bispado. João Evangelista de Lima, Morador em Afogados Ermo do Pajehu, bispado de Pernambuco. Luisa Joanna Ibiapina de Maria, Moradora na Misericordia em Piancó, do mesmo bispado de Pernambuco. Anna Pereira de Lima, Moradora no mesmo lugar acima declarado. Manoel d’Amorim, ainda do mesmo lugar acima declarado. Antonio Raymundo de Sousa, Morador em Missão Velha, deste bispado, Antonio Soares de Cunha, Morador em Lavras, deste mesmo bispado. Salustiano José da Silva, Morador em Afogados, bispado de Pernambuco. Manoel Justino de Carvalho, Morador em Lavras deste bispado. Antonio Francisco das Chagas, Morador em Barbalha, deste bispado. Maria Juliana da Conceição, do mesmo lugar acima declarado, Maria Antonia de Jesus, Moradora em Missão-Velha, deste bispado. Rosalia Maria da Conceição, do mesmo lugar acima declarado. Felismina Maria da Conceição, Moradora em São Francisco, bispado de Pernambuco. Maria Francisca da Conceição, Moradora em Salgueiro, do mesmo bispado. Anna Maria da Conceição, Moradora no Olho d’Agua do Buraco, freguesia de Missão-Velha deste bispado. José Luiz Rodrigues, Morador em Vova Olinda, freguesia de Assaré, deste bispado. Francellino José dos Santos, Morador na Cidade de Crato. Antonio Martins Lopes, Morador em sousa, bispado de Pernambuco. José dos Santos, Morador da freguesia de Crato, deste bispado. Josefa de Freitas Leite, Moradora da cidade do Crato, do mesmo bispado. Luisa d’Oliveira Frazão, moradora da cidade do Crato, d’este bispado; Pedro Alvez de Mattos, Morador na freguesia de Icó, deste bispado. As quaes pessôas todas declararão ter obtido as graças de que se trata no corrente anno, salva uma outra, digo, uma ou outra que iguaes graças obteve no anno passado e atrasado. E tudo isso disserão sob a fé de juramento aos Santos Evangelhos, o qual juramento lhes foi deferido competentemente. E para constar, mandou o Reverendo Commissario lavrar este termo que vae por elle assignado, commigo secretario de seu cargo. E eu Padre Doutor Francisco Fereira Antero, secretario da commissão, o escrevi. Assignado Pe. Costa Lôbo, commissario episcopal..
TERMO DE ENCERRAMENTO
E logo no mesmo dia, mez, anno e lugar, retro declarados, houve o Reverendo Commissario por encerrado este inquerito do que para constar faço este termo.E eu Padre Doutor Francisco Ferreira Antero, secretario da commissão o escrevi.
CONCLUSÃO
Ainda no mesmo dia, mez, anno e lugar retro declarados, faço estes autos conclusos ao Reverendo Commissario do que para constar faço este termo. E eu Padre Doutor Francisco Ferreira Antero, Secretario da Commissão o escrevi.
CONCLUSOS
Junto ao auto os attestados dos Doutores Rodrigues Madeira e Ignacio Dias e o Documento-memorial do Pharmaceutico Joaquim Secundo Chaves, e bem assim os artigos do Dr. Ildefonso Correira Lima, voltem conclusos. Joazeiro, 13 de outubro de 1891. Assignado Padre Costa Lobo, Commissario Episcopal
TERMO DE RECEBIMENTO
No mesmo dia, mez, anno e lugar supra declarados, forão-me entregues estes autos com o despacho supra; do que para constar, faço este termo. E eu Padre Doutor Francisco Fereira Antero, secretario da commissão, o escrevi.
TERMO DE JUNTADA
E logo no mesmo dia, mez e anno e lugar retro declarados, junto a estes autos os documentos dos quaes retro se faz mensão, do que para constar, faço este termo.E eu Padre Doutor Francisco Ferreira Antero, Secretario da Commissão o escrevi.
ATTESTADOS E RELATORIOS MEDICOS
Os Doutores Ignacio de Souza Dias e Marcos Rodrigues Madeira, formados em Medicina pela Faculdade do Rio de Janeiro sendo convidados para assistirem e acompanharem os exames ordenados pelo Reverendissimo Bispo Diocesano na pessôa da Beata Maria de Araújo, se acharam no dia 24 e 25 do corrente na Casa de Caridade desta cidade, onde observaram os factos que passam a mencionar.
No dia 24 pelas seis e meia hora da manhã, conosco Reverendissimo Padre Clycerio da Costa Lobo colocou sobre a lingua da referida Beata uma particula tirada da ambula, e depois de 15 minutos mais ou menos, este sacerdote aproximou-se da Beata que se achava em extasis e a quem so obedeceu depois que elle ordenou que o fisesse em obediencia a Deus e a Igreja. De facto, abrindo ella a bocca e estendendo a lingua verificamos achar-se a particula transformada em sangue menos na parte central, que não estava ainda completamente transformada e depositando-a em um sanguinho verificamos depois disto estar a lingua completamente limpa e sã, mesmo na pequena parte que pouco antes occupava a mesma particula. Pelo exame que fizemos nesta occasião na cavidade buccal e na lingua não encontramos nenhum ferimento ou ulceração donde pudesse provir o liquido sanguineo. Depois deste exame fizemol-a tomar alguns gargarejos com agua fria, que ella foi depositando em um vaso de porcelana, eliminando água completamente limpa e transparente. Em seguida, e depois de verificarmos achar-se a lingua, gengivas e cavidade buccal completamente limpas, ministrou de novo o Reverendissimo Padre Clycerio nova particula, entrando subitamente a Beata em extases sereno e calmo, sem apresentar o menor movimento nem convulsões termicas ou clonicas. Obedecendo de novo a ordem do mesmo sacerdote e no fim de cinco minutos mais ou menos, depois que ella recebeu a segunda particula, abrio a bocca e verificamos se transformava em sangue a particula da periferia para o centro. Em seguida a este exame, o mesmo sacerdote recitou o misereotur e ella consumio subitamente a particula ensanguentada, verificando-se logo apos este facto estarem a lingua e a bocca limpas e sem o menor vestigio da particula e de sangue. Pelas oito horas da manhã do mesmo dia 24 do corrente, fomos chamados a toda pressa por parte da commissão do Reverendissimo Bispo Diocezano para irmos a casa da Caridade a fim de observar Maria de Araújo que se achava em estado de extasis e crucifixão. Com effeito ali chegando encontramol-a deitada, em extasis, com os olhos fixos e elevados para o Céo com as mãos abertas na posição tomada por Nosso Senhor Jesus Christo crucificado. Vimos algum sangue ja coagulado na fronte, na maçã esquerda do rosto e no concavo das duas mãos e na fase dorsal dos pés. Procuramos destacar, limpar este sangue e verificamos não existir nenhum ferimento ou lezão nos referidos lugares, bem como não reproduzio na nossa vista a continuação da referida hemorrhagia. O extasis era o mais calmo possível e não aprezentou ella o menor movimento convulsivo durante o nosso exame, acusando porém accusando enorme sensibilidade nos olhos quando tocavamos no globo occular. Continuando os mesmos exames na casa de Caridade no dia 25 do corrente para ahi nos transportarmos muito cedo e fizemos uma exame medico na beata Maria de Araújo, antes da communhão e não encontramos molestia ou lesão alguma que pudesse nos explicar a origem de semelhante sangue. Quando a beata teve de commungar neste dia, examinamos de novo a lingua e a bocca na occasião de receber a particula e verificamos que a cavidade buccal e a lingua continuavam completamente limpas, depois do que commungou a referida beata e deu-se a transformação da particula em sangue, deixando ainda vêr a parte central esbranquiçada, sendo pelo exame reconhecido ser esta parte esbranquiçada o resto da particula que não estava de todo transformada. Logo após este facto, verificamos de novo que a lingua e demais partes da cavidade buccal se achavão completamente limpas, não havendo o menor vestigio de sangue nem de ferimento ou ulceração alguma. Verificamos isso, fizemos com que a beata gargarejasse varias veses com uma poção d’água com perchlorureto de ferro, depois do que foi ministrada outra particula pelo Reverendissimo Padre Clycerio, a qual no fim de alguns minutos se achava completamente transformada em sangue rubro, que nos pareceu arterial ou capilar. De novo o sacerdote recitou o misereatur e foi consumida com toda presteza a referida particula redusida a sangue. Tendo logo após verificado que a lingua e a cavidade buccal se achavam limpas e sem o manor vestigio de sangue e de particula. Pelo que temos observado, banimos da discussão a ideia de hypinotismo e vamos procurar provar que não se trata de uma hysterica. Maria de Araújo não tem convulsões de natureza alguma, não tem alteração ou mudança de caracter em seu trato, e tem muito regular o fluxo catamenial, não tem outras perturbações nervosas que possam fazer crer ser ella uma hysterica. Entra e sai do extasis reprentinamente e sem transição, o que não se dá com a crise hysterica. Logo após do extasis fica ella calma como d’antes, sem denunciar na sua physionomia, nem nos movimentos nenhuma alteração de habitos entrando logo em suas occupações diarias, como se nada tivesse succedido, conservando tambem a mesma regularidade na conversação e modo de tratar. Ainda mais, sse estas hemorragias parciaes fossem ligadas ao hysterismo, não deixariam ellas vestigios de sua passagem? Se fossem ligadas ao hysterismo não se reproduziriam em seguida aos meios hemostaticos por nós empregados, como água fria e poção de pherchlorureto de ferro n’água fria? Se se tratasse ainda de um hysterismo em gráo exagerado a ponto de poder produsir todas essas desordens teria ella inevitavelmente alem de outros symptomas, que não apresentou, a insensibilidade da pharynge. Entretanto ficou bem provado e verificado pelo exame que procedemos que ella accusa muita sensibiliade para a pharynge. Pelo que temos observado e exposto excluimos tambem a ideia de hysterismo. Outro facto para o qual chamamos particularmente attenção d’aquelles que querem considerar estes phenomenos como ligados a uma molestia, é o seguinte: que feito o gargarejo diversas veses com poção de perchlorureto de ferro, não devia se reprodusir, e quando isso desse o sangue seria de uma côr d’água o que não se deu, ao contrario, fez o sangue apparecido mais rubro do que os outros anteriormente observados. Não podemos atribuir este sangue a uma lesão de larynge ou de pulmão por isto que estes factos se reproduzem ha annos e ella não tem soffrido na sua constituição e temperamento, alem de que não tem ella a menor tosse, febres e pelo exame que fizemos, não encontramos indicios de uma lesão interna, que podesse ser a origem de taes hemorragias. Não encontramos pois, pelos meios por nos empregados, uma explicação scientifica, satisfactoria, somos levados a crer que os factos que se tem reproduzido na beata Maria de Araújo são sobrenaturaes. E assim pensando passamos este no qual assignamos. Cidade do Crato, Estado do Ceará. 26 de Setembro de 1891. Assignados: Dr. Ignacio de Souza Dias, Dr. Marcos Rodrigues Madeira,
MEMORIAL DO FARMACEUTICO TENENTE JOAQUIM SECUNDO CHAVES
Cidade do Crato, 7 de Outubro de 1891
Reverendissimo Senhor Commissario Episcopal
Intimado pelo Reverendissimo Senhor Doutor Padre Francisco Ferreira Antero, Secretario da Commissão de Verificação dos milagres do Joazeiro, da qual Vossa Reverendissima é digno encarregado, para dar o meu testemunho sobre o que tenho visto e me consta com certesa relativamente aos prodigios do Joazeiro, aqui venho exarar o meu depoimento que affirmo sob a fé de minha consciencia e até mesmo de juramento dos Santos Evangelhos se assim for preciso. Em dois attestados meus que correm impressos, já tinha affirmado por inspecção occular: 1º. A stygmatização da beata Maria de Araújo, mais de uma vez perante muitas pessoas e os Reverendos Padres Joaquim Sother de Alencar, Cícero Romão Baptista e Manoel Candido dos Santos, Vigario de Barbalha. 2º. a transformação da hostia sacramental em sangue na communhão recebida pela mesma Maria de Araújo, e revestida de circunstancias taes que verificou-se ser sangue procedente da propria especie sacramental e não da commungante. Tambem vi provado e verificado à saciedade, que esse facto sobrenatural não era devido (como alquem escreveu em um jornal do Ceará) à suggestão hypnotica do Reverendo Padre Cícero Romão Baptista sobre a pessôa da commungante, pela circunstancia de ser sua confessada desde a idade de nove annos; pois que reprodusiu-se diversas veses, ministrando-lhe a communhão outros sacerdotes de varios logares e de differentes Diocese. Ultimamente tendo chegado e achando-se no Joazeiro o Reverendissimo Senhor Commissario do Bispo Diocesano, aconteceu mesmo que a sagrada da forma que lhe dera em communhão o Revendo Padre Dícero, ficou pura, intacta, indissolúvel e impossível de consumir-se, e que só transformava em sangue aquella que recebia das mãos do proprio commissario Episcopal, e assim a influencia ou a figura do Padre Cícero desapparecia de todo, enquanto o facto sobrenatural continuava a evidenciar-se sempre o mesmo com toda sua irrecusabilidade quer no Joazeiro, quer na grande cidade do Crato, para onde a Authoridade Diocesana mandou que se transportasse a pobre e humilde Maria de Araújo. Foi assim, que na Casa de Caridade do Crato, no dia 24 de Setembro último, perante um numerosissimo concurso de gente de toda posição, idade e condição, vi mais uma vez a transformação da sagrada forma em sangue por occasião da communhão da mesma Maria de Araújo, e meia hora depois presenciei tambem a sua crucifixão e stygmatisação tal e qual se lê na vida de Anna Catharina de Emmerich. Nessa occasião achavam-se tambem presentes commigo os doutores em medicina Ignacio de sousa Dias e Marcos Rodrigues Madeira que examinaram com toda a attenção o estado della antes da communhão, no acto e depois, sem encontrarem um indicio ou vestigio de hypnotismo, de hysterismo ou de qualquer outra causa que podesse produsir o maravilhoso effeito, que todos presenciamos. No dia seguinte, 25 de Setembro, fui ainda testemunha da nova prova. Foi tambem ainda o Reverendissimo Senhor Commissario Episcopal, quem ministrou a communhão a referida beata e mais uma ves a hostia sacramental transformou-se em sangue. Os mesmos Medicos assistentes exigiram immediatamente nova communhão e antes da beata fazel-a deram-lhe a tomar em forma de collutoria e de gargarejo uma forte solução de perchlorureto de ferro; porque se podia pensar que a transformação da hostia sacramental em sangue procederia toda, de alguma hemorragia dos vasos capilares ou da lingua. Deu-se porem o contrario: a hostia de communhão tomou então a forma de uma coração, e o sangue que elle sahiu, foi mais vivo e mais rubro do que o da primeira transformação. Este facto teve milhares de testemunhas, como Vossa Reverendissima mesmo vio, e mais uma vez me convenceu de que se Jesus Christo está Deus e homem nas especies sacramentais, si nellas não há outro sinão elle mesmo, o sangue que vem dalli, só é e só pode ser de Jesus Christo mesmo. Assim, pois, ao depoimento de minha consciencia, eu reúno a confissão de minha fé, prottestando desde já appellar para a Sancta Sé no caso de subsistir a interlocutoria que decidiu que o sangue apparecido nas sagradas particulas não é nem pode ser o sangue de Nosso Senhor Jesus Christo, e nesta causa constituo meus procuradores e advogados ao Reverendo Padre Cícero Romão Baptista, Reverendo Doutor Francisco Ferreira Antero e ao Ccidadão Joaquim Telles Marrocos, com plenos poderes, até o de substabelecer a procuração. Assim, requeiro de Vossa Reverendissima, Senhor Commissario, que se digne juntar aos autos o presente documento e memorial, que termino affirmando sob a fé de minha consciencia e sob a garantia do juramento a verdade do que nelle fica exposto. Deus guarde a Vossa Reverendissima, Illustrissimo e Reverendissimo Senhor Padre Clycerio da Costa Lobo, Dignissimo Commissario Episcopal da verificação dos milagres do Joazeiro. Assignado: Tenente Coronel Pharmaceutico Joaquim Secundo Chaves. Em informação da verdade, que tambem affirmamos sob a fé de nossa consciencia e juramento aos Santos Evangelhos, se preciso for, assignamos e fazemos nosso o presente documento e meorial e assim constituimos os mesmos procuradores e advogados, o Reverendo Padre Cícero Romão Baptista, o Reverendo Doutor Francisco Ferreira Antero e o cidadão Joaquim Telles de Marrocos, prottestando desde já perante o Reverendissimo Senhor Commissario Episcopal pella appellação a Sancta Sé em tempo opportuno e na forma da lei. Cidade do Crato e povoação do Joazeiro, ao 7 dias do mez de Outubro de 1891. Assignados: José Pereira da Silva, negociante, Joaquim José da Rocha, proprietario, Oriel de Novaes Maia, José de França Cabral, proprietario, Antonio Leonidas da Cruz Filho, proprietario, João Evangelista de Sant’Anna, artista, Zacharias Luiz Arnaud, Artista, Agnellino Leite de Araújo Lima, negociante, Francisco Manoel Dias, negociante photographo, Pedro Feitosa e Silva, Henrique Fernandes Lopes, negociante, José Rosa Carvalho, Agostinho Esmeraldo da Silva, proprietario, Raymundo Pereira da Silva, negociante, Manoel Dias Ferreira, Alexandre G. Martins, Antonio Landim Chaves, José Francisco da Silva, Ernesto Rabello, José Eleutherio de Figueiredo, João de Mattos e Silva, José do Rego, Guilherme M. Ramos de Maria, Manoel Martins dos Santos, Bernadinho Gomes de Moura, Procopio José do Nascimento, Jorge Xavier de Lima, Joaquim Ignacio de Figueiredo, Pedro Correa de Mando, Manoel Furtado Leite, Manoel da Cruz Rosa de Carvalho, Antonio Leonidas da Cruz, João Baptista de Aquino, Pe. José Dias Guimarães, Antonio Alexandre de Aguiar, Joaquim José de Aquino Fº, Raimundo Nonato de Aquino, Antonio Joaquim de Aquino, João Pinheiro de Padua, Anna de Novaes Almeida, Maria das Dores de Araújo Lima, Rosa Esmeralda de Aquino, Maria Martins de Macedo, Isabel Henrique da Circuncisão, Maria Leopoldina da Conceição, Maria da Gloria Dias, Pastora Maria Rodrigues, Senhorinha Dias Bastos, Joanna Tertuliana de Jesus, Isabel Monthezuma da Luz, Herothildes Maria de Macedo, Josepha Maria do Espirito Santo, Iganacia Leopoldina de Aguiar Mello, Maria Amelia das Merces, Amelia de Aguiar Mello, Antonia Ferreira de Aguiar, Antonia Leopoldina A. Mello, Maria A. Parente, Esmelina Bezerra de Macedo, Joanna Almeida de Jesus.
COPIA AUTHENTICA DOS ESCRITOS DO
DOUTOR IDELFONSO CORREIA LIMA,
Como abaixo se verá: A Beata Maria de Araújo e os factos do Joaseiro.
Senhor redator,
Muito se tem dito ultimamente pela imprensa, a proposito dos factos occorridos no Joaseiro, de que a beata Maria de Araújo tem sido objecto, sobretudo depois que meu digno collega, Doutor Marcos Madeira, attribuiu a sobrenatural factos extraordinarios, por elle observados. A primeira vista se diria que o horror ao sobrenatural, endemico nos tempos que correm, era a causa única de tanta celeuma. Mas, seria injusto assim pensar, porque temos visto, de um lado os adeptos de Renan, ou Jules Simon que rejeitam o sobrenatural, sacrificando a lógica, que é a probidade da inteligencia, julgarem encontrada a brecha para concluirem, de um facto particular ainda pragmatico, a opposição do sobrenatural com a sciencia; do outro lado, escritores catholicos tambem tem tomado parte na discussão sem, com tudo, despresarem aqquele lado philosophico religioso do assumpto. Uns e outros estão de accordo no tocante a resposabilisar somente a sciencia pelas affirmações do Doutor Madeira, Mas ao passo que os ultimos acreditão, como eu também acredito na intervenção de Deus e dos seres epirituaes nos negocios deste mundo, os outros, sob os nomes de materialistas, sosialistas e nacionalistas, rejeitão ou negão aquella intervenção sem attenderem que é ilógica a pretenção de não se ter ideias a respeito de assumpto sobre o qual se tem direito de Ter ideias. Destarte, tratando-se de factos, entendem os incredulos que não devem procurar as suas causas fora dos agentes naturaes, sob falso fundamento de que quanto cahe debaixo dos sentidos é effeito da sciencia, como se esta fosse uma forma que fisesse o seu objecto não um espelho, que só será bom e verdadeiro, se reflectir bem o objecto. E, se os factos têm alguma relação com a religiao, não faltão com a irrisão e rediculo para aquelles que ousam fallar no sobrenatural e logo o hypnotismo e o hysterismo apparecem em scena, como a divindade dos tempos modernos, para explicarem os effeitos que lhes são naturaes, effeitos superiores as causas naturaes, ou effeitos sem caausa natural, ainda que notaveis ao poder creador. Por minha parte estou longe de julgar que as maravilhas operadas em nome do mesmerismo, do magnetismo ou sonambulismo, sobre tudo depois que elles sahiram da vulgaridade charlatanesca, que entraram em um periodo scientifico com o nome de hipnotismo. Mas tudo tem seus limites, e sempre que eu observar um facto, para o qual não se poder encontrar uma causa natural, sabia ou não, que o explique suficientemente, penso que se deve affirmar quea causa é sobrenatural ou que o phenomeno é devido a um ser inteligente e oculto. Neste numero estão comprehendidos muitos factos que o hypnotismo abrange com o nome de sugestão mental a distancia, outros do dominio do spiritismo e finalmente os do mysticismo. E se o facto em questão, não vai de encontro á razão, nem tão pouco de encontro a á fé e á moral; e, ao contrario, está em ligação exacta com a verdade e a humildade, que é a virtuda caracteristica do verdadeiro thaumaturgo. Não hesitarei na qualidade de catholico de acreditar, não digo igualmente de affirmar, que tal facto é de origem divina, até que a authoridade instituida por Deus decida doutrinalmente o contrario. Só assim creio respeitar a logica e o bom senso na procura das causas dos factos e não offender a fé e a moral, embora fosse por espirito fraco por estarem essas minhas ideias muito ao sabor da epocha e não abreaçar as bellas theorias materialistas de Dubois Raymond, e as belas lições de Charcot e Legrand do Saule, meus mestres respeitaveis em medicina, mas não em philosophia e religião. A questão é pois, mais seria do que a primeira vista se supõe porque importa a nós catholicos saber se estamos em presença de phenomenos, explicaveis pelo hypnotismo e pelo hysterisno, onde as fronteiras dessas nevroses foram tranpostas para darem lugar ao sobrenatural, e, neste ultimo caso, se a origem dos factos é da ordem das do tumulo do diacono Páris ou do de S. Luiz. Disto isto, vejamos se fui consequente com meus principios, concluindo que os factos narrados na meu attestado, publicado pela imprensa dessa Capital, não podiam ser explicados pelo jogo natural dos agentes naturais, deixando a questão de origem para ser resolvida pelo poder competente, mesmo porque, nesta parte, limitei-me no final de meu attestado a simples opinião pessoal. No presente artigo pretendo desenvolver as premissas sobre que baseeime para tirar a conclusão a que cheguei no meu attestado, e então verse-há se faltei a logica ou se fui conse quente. Antes porem de entrar no assmpto, é bom recordar os factos, constantes do attestado e o modo porque os mesmos se passaram. O primeiro referia-se a uma hostia ensanguentada que o Padre Cícero conservava no concavo da mão esquerda e que no seu diser fora dada por Deus á beata Maria de Araújo quando elle resava o breviario e ella, de joelhos, assistia ao exercicio do mez mariano e segurava em uma vela. Reconheci que de facto tratava-se de uma hostia envolvida em sangue, e, como tivesse ficado em duvida a respeito da procedencia do facto, mostrei desejos de presenciar a reprodução do phenomeno. Incontinente o Pe. Cícero, depois de eu Ter examinado a lingua da beata e partes adjacentes, orou e disse a esta que commungasse na chaga da mão direita de Nosso Senhor Jesus Christo e em seguida levou mui de leve o dorso de sua mão direita aos lábios da beata que em menos de um minuto ficaram banhadas em sangue, bem como o dorso da mão do Padre, que antes era natural. Julgando que se tratava de alguma outra hostia ensanguentada, pedi ao Padre Cícero que mandasse a beata abrir a bocca, onde não encontrei nem hostia e nem sangue. Pedindo explicação do phenomeno disse-me o Padre que a comunhão tendo sido na chaga de Nosso Senhor Jesus Christo, era somente de sangue. Objectei-lhe que o apparecimento do sangue podia ser explicado pelos agentes naturaes e que só o aparecimento de uma hostia em sangue callaria no meu animo. Na occasiõa pareceu-me este o melhor criterio a seguir na verificação dos factos e das suas cusas, porquanto os phenomenos sanguineos já erão, por assim diser, de observação trivial para mim, que julgava todos possiveis na naturesa, mesmo não era facil reconhecer a presença de uma hostia,por suas propriedades orgonolepticas (?) no meio de uma posta de sangue. Por outro lado, tratava-se de um phenomeno que podia ser interpretado por todas as pessoas prezentes, não sendo para isto precisos outros conhecimentos que os que constituem o senso comum. O phenomeno em questão appareceu instantanea e docilmente à ordem do Padre que consistiu em uma benção acompanhada das seguintes palavras, conforme soube posteriormente, que para a gloria e honra de Deus apparecesse a hostia. Outro phenomeno igual ainda teve lugar, por entender eu que a duvida ainda era permitida. Finalmente, alem dos phenomenos descriptos, um outro mencionai no meu attestado, por Ter influido grademente na conclusão que cheguei e veio a ser a existencia de feridas, semelhantes a talhos, quando a beata representava em extasis a paixão de Nosso Senhor Jesus Christo. Semelhante phenomeno que para ser verificado não demandava mais que o bom senso e a vista, foi acuradamente observado entre outras pessoas, pelo Padre Joaquim Sther d’Alencar e Tenente Coronel Joaquim Secundo Chaves, testemunhas de todo criterio e de conhecimento acima do comum. Vou passar agora a parte scientifica do assumpto, isto é, a explicação dos phenomenos debaixo do ponto de vista dos agentes naturaes. Como explicar o apparecimanto de sangue nos labios da beata e na face dorsal da mão do Pe. Cícero? Vejamos o que a naturesa nos offerece de semelhante à observação, no hysterismo e no hypnotismo. Não se podendo tratar de um ataque hysterico espontaneo, porque no ataque hysterico, o terceiro periodo, o do delirio, supõe o das convulsões clopicas ao passo que, no caso em questão, o extasis não teve tranzição, figuremos que estavamos em presença de um caso de hipnotismo hysterico. Sabe-se hoje, por numerosas experiencias, que oode-se produzir, por sugestão, alem de outros fenomenos que não veem ao caso, hemorragias locais nos hystericos hypnotisados. A cnvicção produzida então pela sugestão, é o único thaumaturgo em acção. Mas para que a sugestão produsa aqui esse grande thaumaturgo é indispensavel, como primeira condição que seja feita em termos claros de sorte que a hypnotisada comprehenda, porque é evidente que se ella não entender o que se lhe diz tambem nada acreditara, e, pois nenhum effeito se obterá. Ora, se assim é, como explicar que a beata, mulher ignarante e sem aprendisagem,podesse comprehender que commungar na chaga direita de Nosso Senhor Jesus Christo equivalia a esta suggestão: eu te ordeno de sangrares, neste momento, pelos lábios? Neste caso, dirão, pode-me aplicar o phenomeno por uma outra suggestão posterior e por meio de sinais voluntarios ou não, ou então por uma auto-sugestão cuja realização coincidiu com a oração do Padre, que foi seguida instantaneamente da produção do phenomeno. Foi por causa dessa objeções que a sciencia podia oppor, a meu pedido, deu-se o apparecimento das hostias. Como explicar esses phenomenos? É o que veremos no artigo seguinte.Continuamos, neste artigo a considerar os phenomenos observados, debaixo do ponto de vista dos agentes naturaes. Como explicar o apparecimento de dous corpos estranhos de côr, figura e consistencia de uma hostia estendidos sobre a lingua da beata, seguindo-se o phenomeno como da primeira vez, após, exigencia e exame previo de minha parte e uma oraçao do Pe. Cícero, estando a Beata em extasis desde o começo do phenomeno anterior, já descripto? Se este phenomeno fosse produzido por um agente phisico seria então o resultado de movimento da materia sobre a materia, e o tempo das suas condições essenciaes. Ora, o que vimos nós? Em um tempo, a beata apresentava a lingua para ser examinada e, mergulhada extasis, conservava-se de joelhos, imovel e de queixos cerrados e simultaneamente com a oração do Padre abria a bocca e debaixo, digo deixava ver sobre a lingua a hostia, tal qual eu desejava, sem sangue. E dado o caso mesmo de que o phenomeno fosse devido a um agente physico, seria natural a obediencia de forças brutas às ordens de um homem, a menos que não se conferisse intelligencia e vontade a essas mesmas forças? Dirão, entretanto, que poderia tratar-se de simulação ou artificio proprio de hysterica. Más, como a beata podia prever, a menos que não tivesse a faculdade de ler no meu espirito, que ia exigir o apparecimento de hostia? E, deixando de parte o imprevisto, qual o artificio capaz de conservar por tanto tempo occulto nos fundos de sacco da bocca ou no pharynge um corpo da naturesa de uma hostia, e à um tempo dado fazel-o vir à superficie da lingua, pelo unico movimento do epitelio vibratil? Como uma mulher ignorante e sem aprendisagem de officio, podia elevarse deste modo acima das condições da naturesa? Não instamos pois mais, sobre este phenomeno e passamos a considerar o ultimo sob o ponto de vista dos agentes naturaes. Como explicar o apparecimento e desapparecimento de feridas, semelhantes a talhos quando a beata representava em extasis a paixão de Nosso Senhor Jesus? Disse no meu attestado que as exsudações sanguineas erão possiveis na naturesa. Expliquemos pois o phenomeno e vejamos se os mesmos agentes podem abranger a produção de feridas interessando a pelle e tecidos subcutaneos. Voltemos mais uma vez ao hysterismo e hypnotismo. Das experiencias feitas pelos Drs. Barret e Mirabelle ficou-se sabendo que podia produzir hemorragias locais e a horas determinadas em hystericos hipnotizados, menos nos membros anesthesiados que resistião semprs ás suggestões mais energicas naquelle sentido. Dahi poude-se concluir que a dôr, cuja séde ou vehiculo dão aos nervos sensiveis, representa, não menos que a imaginação, de causa essencial, na produção daquelles phenomenos. Ora, se assim é, comprehende-se que nos asceticos os menos phenomenos se podem observar em virtude de uma auto-suggestão, porque o ascetismo não supprime a imaginação e a sensibilidade, e, ao contrario, exagera. Qual succede nos casos provocados, é a lembrança ou ideia de sangue que vai correr que, dispertando nellas a ideia de dôr em virtude da experência pessoal que tras aquellas ideias associadas, localisa em um ponto determinado a imagem do sangue e a impressão dolorosa. Esta por sua vez, abala os nervos sensiveis da parte; e por sympathia, os nervos vaso motores se associão ao movimento contrahindo os capillares em pontos determinados e difficultando assim o curso de sangue que, porvisa tergo, continuando a affinar e não encontrando sahida rompe os capillares e dá-se a exsudação sanguinea pelos poros dilatados. A causa immediata do phenomeno, vê-se, é a pressão sanguinea sobre as paredes dos pequenos vasos. Comprehende-se que esta pressão, exagerada pelas circunstancias normaes do hypnotismo hysterico tenha força para romper os delgados tuneis dos capillares e dilatar os poros da pelle. Mas, qual seria a força capaz de romper os musculos e a pelle e produsir feridas, como se fossem incisos ou perfurantes? Qual seria o artificio capaz de fazer desapparecer essas feridas apenas terminado o extasis? Exagera-se quanto for possivel pela arte a impulsão cardiaca, será ella insufficiente para despedaçar orgãos resistentes como os muscullos e a pelle, tanto mais quanto a propria exsudação sanguinea se encarrega de diminuir ou anniquillar o effeito daquella mesma impulsão. Em conclusão, penso que os factos narradoss não podendo todos ser explicados pelo hysterismo isolado, porque trata-se de uma mulher, cujo estado de crise observado não podia confundir-se com ataque hysterico, e cujo estado permanente de ordem mental e organica, já pelas informações de pessoas de fé, já pela falta de paralysias organicas e funccionaes, authorisa a crêr que não estamos em presença de hysterismo confirmado; nem tão pouco pelo hypnotismo isolado ou combinado, pela ausencia de causas sufficentes; e nesse finalmente por outro agente natural, penso, repito, que ou negamos os factos ou admittimos um agente intelligente e occulto que represente de causa. Conforme com o proprio original a quem me reporto. E eu, Padre Doutor Francisco Ferreira Antero, secretario da commissão o subscrevi e assignei. Joazeiro, 13 de outubro de 1891
RELATORIO DO PADRE CLYCERIO DA COSTA LOBO –
FECHAMENTO DO INQUERITO
TERMO DE CONCLUSÃO
Ainda no mesmo dia, mês, anno e lugar retro declarados, faço estes autos de novo conclusos, ao Reverendissimo Commissario, do que, para constar, faço este termo. E eu Padre Doutor Francisco Ferreira Antero, secretario da commissão o escrevi.
CONCLUSOS
Excellentissimo e Reverendissimo Senhor Bispo
Passo às mãos de Vossa Excellencia Reverendissima, como me cumpre,o processo que fui encarregado d’instruir a cerca dos factos de Joaseiro.’ Abstenho-me de qualquer apreciação sobre o merecimento do dito processo, por me parecer ser isso da competencia de outros. Resta-me, entretanto, para aqui trasladar alguma passagem que escapara no depoimento d’uma das testemunhas, e bem assim certas communicações que me foram feitas já fòra das sessões em que as testemunhas costumam depôr. Em datas de 13 d’Outubro preterito, veio à minha presença a Beata Maria Leopoldina Ferreira da Soledade, e requereu que no processo, que se estava instruindo à cerca dos factos occorridos com a Beata Maria de Araújo, se escrevesse, como porventura parecesse mais conveniente, uma passagem que escapara em seu depoimento, de 15 de Setembro do corrente anno; o que foi por mim admittido. A passagem omittida é como se segue: “Nos dias 15, 18 e 19 d’abril deste anno, Nosso Senhor recommendou que opportunamente se désse noticia ao Santo Padre, ser de sua divina vontade a decretação do culto perpetuo à S.S.Trindade; culto esse que se havia d’exercer na Capella do Joazeiro. Em uma outra occasião, continua a mesma Beata, Nosso Senhor fez-me ver que assim como os Padres Franciscanos eram os guardas do Santo Sepulcro assim tambem haviam elles de guardar o sangue derramado das hostias consagradas aqui nesta Povoação do Joaseiro”. Até aqui a Beata Soledade. Communicando-me a Beata Angela Mericia, por intermedio do Reverendo Joaquim Sother d’Alencar, Ter mais alguma cousa a dizer alem do que constava em seu depoimento de 29 de Setembro do corrente anno, dirigi-me, para esse fim, no dia 3 de Outubro à Casa de Caridade do Crato; e sendo ahi, compareceu a Beata já acima nomeada, e confirmando o que já me havia communicado, por via do Padre Sother, passou a declarar, tanto que a isso foi admittida, o que fôra omittido em seu depoimento, e disse assim: “Em meu depoimento de 29 de Setembro passado, no acto de ser interrogada sobre se tinha, ou constava-me que alguem tivesse revelação no tocante a especie de sangue nas hostias apparecido, fui duas vezes levada a Capella do Joazeiro a adorar ali o precioso sangue. Daprimeira vez, Nosso Senhor disse-me que assim fazia diante de seus servos para maior do que então dizia; da sengunda vez disse-me que ainda isso permettia, por muito grande ser o desejo que elle tinha de se fazer conhecer, amar e adorar pelos homens. Dizei, portanto aos meus servos que façam, quanto estiver em seu alcance, para que meu precioso sangue seja conhecido, amado e adorado; que a seu tempo lhes darei a recompensa conforme a medida e os desejos de seus corações, pois os escolhi, como os primeiros, para esta grande empreza, por altos destinos tenho a seu respeito. Para sanar essa falta, continua a mesma Beata, filha somente do receio que sobreveio-me, não fosse illusão quanto eu ouvira no estado extatico a que me referi, vim agora fazer esta declação; e isto de ordem de Deus e de meu confessor, a quem communiquei toda a revelação que então tivera. Disse mais: no acto da reparação que, por tal falta, mandou-me o meu proprio confessor fazer, foi-me de novo permittido ir em espirito a Capella do Joazeiro, a adorar o precioso sangue significando-me então Nosso Senhor que havia assim permittido para maior gloria delle proprio. Disse finalmente: Nossa Senhora recomendou-me que dissesse ser verdade como, durante o extase que eu tive na occasião de depor perante a Commissão episcopal, achava-me eu, em espirito, diante da Augusta Trindade com a Virgem Santissima, com S. José e o anjo de minha guarda. ate aqui a be ata Angela. Em data de 7 de Outubro p.p. veio a minha presença Maria das Dores Coração de Jesus, que figura como testemunha neste processo, communicar-me uma visão que tivera e pedindo que isso se fizesse menção nestes autos. A communicação a que me refiro, foi feita nos seguintes termos: “Nosso Senhor Jesus Christo appareceu-me. Estava elle em pé no subpedaneo do altar da Capella do S. S. Sacramento, suas mãos e seus pés erão chegados; de seu coração, que então mostrou-me elle á descoberto, gotejava e jorrava mesmo abundante sangue. Vê, filha, disse Nosso Senhor, como soffro por amor dos homens. Este sangue que, como estas vendo, goteja do meu coração, é o mesmo que apparece aqui nas hostias consagradas. Diga isso ao Commissario do Bispo”. Tal foi a communicação. Desde o dia 23 de setembro achava-se na Cidade do Crato a Commissão encarregada d’averiguar os factos do Joazeiro. Diversas veses, desde o dia 24 ao dia 28 d’aquelle mez, foi revelada a Beata Maria de Araújo, na Cidade do Crato, e bem assim, a outras Beatas na Povoação do Joazeiro, segundo consta parte d’estes autos, parte de communicação a mim feita por alguns sacerdotes, que a verdade e o caracter sobrebatural-divino dos factos que s’estavam averiguando, se haviam de provar com a apparição de duas hostias ensanguentadas perante a Commissão, isso, d’um modo verdadeiramente miraculoso. No dia 27 do mesmo mez de Setembro, vespera da apparição das hostias miraculosas-ensanguentadas, disse-me o Monsenhor Monteiro que havia promessa de que um prodigio se operaria perante a Commissão episcopal, e isso como prova de sobrenaturalidade divina dos factos de que trata-se. Era o dia 28 de Setembro do corrente anno. Tomava eu, na Casa de Caridade do Crato o depoimento da Beata Antonia Maria da Conceição. Nesta mesma occasião achava-se a Beata Maria d’Araújo na sacristia da Capella daquella Casa, fasendo a renovação de seus votos particulares, sob a direção de Monsenhor Monteiro. Já algumas perguntas se tinham dirigido a testemunha acima nomeada, quando abre-se a porta do fundo da sala em que funcionava a Commissão, e apparece a Regente da Casa, com recado aos Padres da Commissão da parte de Monsenhor Monteiro para que fossemos á Sacristia. Dirigimo-nos eu e o Reverendo do Secretario da Commissão, ao lugar em que achavam-se Monsenhor Monteiro e a Beata Maria de Araújo. Era um hora da tarde. Ali chegando, vimos a Beata sentada numa cadeira d’espaldar, em estado d’extase, como verificamos bem, e Monsenhor Monteiro genuflexo, tendo entre os dedos de sua direita duas hostias ensanguentadas, ali apparecidas de sorpresa e miraculosamente entre os dedos da mão da Beata, donde o Monsenhor Monteiro as tomara. Maria de Araújo é então despertada por Monsenhor Monteiro e mandando-se-lhe diser o que naquelle estado de extase lhe tinha sido revelado, ella disse assim: “Nosso Senhor mandou estas particulas ensanguentadas para que os Padres da Commissão vissem e commungassem” As particulas de que trata-se tinham aderido uma á outra por causa do sangue nellas havido; pelo que resolve o Monsenhor Monteiro tomal-as elle proprio em communhão, e então manda elle proprio a Beata pedir a Nosso Senhor que, se era de sua divina vontade que os Padres da commissão commungassem d’aquellas particulas miraculosas-ensanguentadas, mandasse outras em iguaes circunstancias. Põe-se a Beata em oração diante do tabernaculo do S. S. Nós, posto que unidos tambem em oração, estavamos contudo, bem attentos ao que se passava. Depois de um quarto de hora, mais ou menos, eis que a Beata toma-se d’um rapto extatico e levantando um pouco a mão direita, deixou vêr duas hostias ensanguentadas, que Monsenhor Monteiro tomou entre seus de dos e passou aos nossos, quando então notamos que o sangue que corria de cima a baixo d’aquellas particulas era fresco, tingindo nossos dedos. Nessas circunstancias houve razão bem grave para que tomassemos taes particulas por miraculosas- divinas, e as recebessemos em comunhão.O jejum, em tal caso, não era obrigatorio, por ser, como é óbvio, de direito ecclesiastico, e não de direito divino. Depois de termos dado graças, dirigimo-nos á sala, onde estava a testemunha Antonia, a continuar seu depoimento. Entre outras perguntas lhe dirigi uma neste sentido: se constava-lhe que alguem tivesse alguma revelação relativamente a especie do sangue apparecido nas hostiaas, se ella mesma a tinha, e em que sentido? Tanto que ella respondeu áquelle quesito, e apenas começava-se a redigir sua resposta eis que ella toma-se d’extase, e levantando sua mão direita, entre os dedos indice e pollegar da qual divisavam-se quatro particulas, disse assim num tom assaz grave:”Manda-se Nosso Senhor Jesus Christo entregar estas quatro particulas ao meu confessor para que elle commungue commigo e os Padres da Commissão. O confessor da testemunha é Monsenhor Monteiro que continuava na Sacristia, a dirigir a Maria de Araújo em suas meditações sobre a Paixão do Nosso Senhor Jesus Christo. Fiz chamar a Monsenhor Monteiro,e em vindo, recebeu as particulas a que me refiro das quaes de novo commungamos.Em abono da verdade sou obrigado a declarar aqui, querendo cumprir o juramento que prestei de ser fiel á missão que me foi confiada que todo aquelle que bem estudar o espirito de Maria de Araújo, como tambem o de Antonia Maria da Conceição, como procurámos fazel-o, já ouvindo a seus directores espirituais, já a pessôas que as conhece bem de perto, excluirá toda a ideia d’artimanha e d’enbuste nessas communhões e particulas miraculosas-ensanguentadas. São ellas, as ditas Beatas como tantas outras, almas levadas á vida unitiva, a vida de contemplação, o que bem pouco se conhece e pratica entre nós. A este humilde relatorio seguem os que foram offerecidos pelo Reverendissimo Monsenhor Francisco Rodrigues Monteiro e o illustre Senhor José Telles Marrocos. A appreciação de V. Exª e ao supremo juiso da Santa Sé vae submettido quanto nestes autos se contem. Fortaleza, 28 de novembro de 1891. Assignado Padre Clycerio da Costa Lobo.
DEPOIMENTO DO PE. QUINTINO
Exmo. Reverendissimo Senhor, Em cumprimento do que me ordenou Vossa Excellencia em officio de 26 do mez hoje findo. No sentido de completar eu o meo depoimento sobre factos extraordinarios occorridos no Joaseiro, passo a responder aos quesitos formulados por Vossa Excellencia os quaes são de teor seguintes:
1º. Quais as circunstancias que no passado acompanhavão o aparecimento do sangue no cruxifixo, presenciado por min,
2º. Qual tem sido o estado de saude de Maria de Araújo e qual é no presente, declarando ao mesmo tempo que se me constou haver Maria de Araújo derramado algumas veses sangue pela bocca.
3º Se administrei ou soube que algum sacerdote administrasse a communhão a dita Araújo ficando esta com a bocca aberta, de modo que fosse visto a sagrada particula converter-se em sangue sem que a commungante fechasse a bocca.
4º Se assiste algumas veses a tais comunhões chamadas miraculosas e no caso affirmativo em que circunstancias?
5º Se quando Maria de Araújo apresenta o estado de crucifixão, fica em extases, sente dores agudas, toma a forma de crucifixão, entende frases latinas.
6º Se não tenho encontrado em Maria de Araújo alguma contradição, alguma falta de sinceridade, alguma impostura ou ostentação.
7º Se sei que o Reverendo Padre Cícero Romão Baptista, quando se deo a revolução de 1889 no Rio de Janeiro, depois de haver esta noticia chegado ao Crato, ter elle, ou uma das mulheres por elle dirigidas, tido uma revelação de que tinha havido uma contrarevolução, cujo resultado foi a reintegração do Ex- Imperador no trono, e que esse sacerdote affirmava ser uma verdade o que disia.
8º Se existe no Joaseiro ou nas suas immediações alguma outra pessôa, homem ou mulher, que tenha stigmas ou chagas nas mãos, pés, etc; no caso affirmativo quaes as circunstancias que acompanharão esse facto, qual o juizo do medico Dr. Marcos Madeira da origem desse facto, e qual o motivo por que do mesmo facto não trata o processo.
Resposta ao 1º quesito: O facto de que trata este quesito deu-se pela primeira vez, em um dos dias que separam a Ascenção do Senhor de Pentecostes, tempo em que as pessoas piedisas do Joaseiro, faziam como era costume, um retiro espiritual, servindo Sacristia da Capella do lugar do ponto de reunião para os respectivos exercicios. Achando-me em uma pequena sala contigua à Sacristia e com serventia para ella, foi Ter comigo Maria de Araújo, às 3 horas da tarde mais ou menos, pedindo para fazer-lhe uma leitura sobre a Paixão de Nosso Senhor Jesus Christo porque ella já tinha feito igual pedido a outro sacerdote disendo-se mandada por Nosso Senhor e oor confiar no seu espirito, foi facil em condescender. Sentando-se Maria de Araújo no meu lado esquerdo, offereci-lhe um crucifixo de metal que ali havia de um palmo mais ou menos, disendo-lhe que com a vista do crucifixo meditaria melhor, mas tambem esperando presenciar o mesmo facto que presenciára o sacerdote aquem a Araújo primeiro se dirigira.
Depois de alguma hesitação sua, manifestando medo de que se reprodusisse o apparecimento de sangue, aceitou-o pol-o na palma de uma das mãos, e eu dei começo a leitura. Contra o meu desejo não pude Ter o crucifixo sempre a vista porque a mão com que a Araújo o sustentava ficou occulta sob o seu manto. Alguns minutos depois de começada a leitura Maria de Araújo chamou minha attenção, para o sangue que, no seu dizer manava do crucifixo, e de facto vi que havia sangue no concavo das mãos da imagem, na cabeça e nas extremidades inferiores, entre a cruz e os pés da imagem, notando ser o sangue da cabeça, mãos, etc., mais rubro que dos pés e não ter a consistencia ordinaria do sangue, enquanto o dos pés tinha a côr um pouco escura, e parecia conter algum liquido que se assemelhava a saliva. Depois que vi o crucofixo naquelle estado, Maria de Araújo ainda conservou por algum tempo na mão sobre um lenço branco, onde cahiu um pouco daquelle sangue, mas não me adverti de verificar se elle ensanguentava em quantidade. No dia seguinte as mesmas horas reproduzio-se o facto, sem que tambem eu pudesse ver a procedencia do sangue; pela mesma circunstancia do dia anterior. Desta vez notei Maria de Araújo passar de leve a mão sobre o crucifixo, mas, reparando, não vi sangue em suas mãos; seria pois, aquillo um simples gesto que exprimia talvez os sentimentos d’alma. É o que sei dizer a este respeito.
Resposta ao 2º quesito: Maria de Araújo é de compleição franzina e até 1889 (segundo o que ouvi dizer) soffria uns ataques que qualificam de epileticos, os quaes a deitavam por terra e tiravam-lhe o uso dos sentidos, não sei por quanto tempo. D’aquelle tempo em diante, começaram a dar-se com ella os factos de sangue que têm por maravilhos. É difficiente neste ponto o meu depoimento não porque eu me esquecesse de referir-me àquella enfermidade de Maria de Araújo, mas porque o Reverendo Commissario de Vossa Excellencia julgou que bastava que fosse mencionado aquillo que soubesse no tempo presente, e então não me constava que outro mal, tido como tal, soffresse Maria de Araújo, senão incommodos d’estomago. Succede que ao começar aquelle estado que se diz de crucifixão, Maria de Araújo as veses (não sei se sempre) grita, por effeito, diz ella, da dôr violenta que experimenta. Ouvi dizer que quando menina ella escarrava ou vomitava sangue, não seise mais de uma vez, consequencia de uma queda em um daquelles ataques a cima referido.
Ao 3º quesito respondo negativamente. Do meu depoimento se depreende que eu presenciei o acto da conversão da particula em sangue, o que realmente não se deu, visto como somente depois de Maria de Araújo fechado a bocca por mais ou menos tempo é que se tem visto a particula ensanguentada em sua lingua.
Resposta ao 4º quesito: Assisti uma vez à uma dessas communhões ditas miraculosas. Immediatamente depois de haver Maria de Araújo commungado realmente, tendo-se-lhe mandado que pedisse a N. Senhor (que era no seu dizer quem lhe dava tais communhões) para dar-lhe a communhão em uma intenção dada, depois de um pequeno intervallo de alheação dos sentidos ou concentração, appareceo em sua lingua uma particula que se parecia da materia commum, não perfeitamente circular e de menor diametro que a particula que ella acabara de receber. Parece que Maria de Araújo não previo que se lhe mandaria fazer aquella communhão, e se ella estivesse com as mãos e o rosto perfeitamente descobertos, seria facil affirmar que dita particula tivera uma apparencia estranha.
Resposta ao 5º quesito- Eu não sei affirmar se era verdadeiro extase como geralmente se dizia, o estado de Maria de Araújo no tempo da chamada crucifixão; mas vi-a mais de uma vez com bastante sangue na testa e no rosto, nas mãos, e algum tambem nos pés, na face dorsal, não tendo averiguado a existencia de stigmas ou chagas. Nesse estado ella dá signaes de sentir dores agudas, mas não sei se tomou alguma vez a forma perfeita de crucifixão. Uma vez, quando ella já entrara no uso dos sentidos, eu disse-lhe um texto da Sagrada Escriptura (C. dos Canticos) e ella referiu-se afectuosamente a Nosso Senhor, a quem se dirigiam as palavras, paracendo comprehender o sentido das palavras (ou do texto, talvez pela semelhança da palavra dilectus que nelle havia, com o termo portugues correspondente). Também não examinei se o sangue ainda corria quando a vi.
Resposta ao 6º quesito- Maria de Araújo apresenta um exterior modesto mas alguma vez pareceu-me descobrir contradição em suas palavras, e ostentação, em algumas acções suas. Disse-me ella uma vez que assistira sobrenaturalmente a uma leitura espiritual feita por uma pessoa em distancia de 3 leguas, e perguntando-lhe eu se dava relação do lugar e da posição em que se achava aquella pessoa, disse que sim mas instando para que me desse, disse me afinal, com sorrizo, que mentira, que apenas tinha conhecido da leitura. Algum tempo depois sendo interpellada por mim sobre aquelle incidente, deu-me uma explicação que tive por verdadeira, embora não me satisfisesse plenamente.
Resposta ao 7º quesito. Creio que o Reverendo Padre Romão Baptista não affirmou tal cousa, e não me cosnta que o que disse a tal respeito, baseando-se no conhecimento sobrenatural que soubera ter sido uma pessoa não dirigida por elle, tenha affirmado ter sido uma revelação.
Resposta ao 8º quesito. Existe no Joaseiro uma mulher, moça de notavel simplicidade que varias veses, não sei se em dias determinados, tem sido vista por muitas pessoas com a testa, mãos, pés etc., ensanguentados passando, quando isto se dá, mais de um dia fora de si,; ordinariamente não me constando, porem, se já lhe notaram stigmas ou chagas. O medico Dr. Marcos Madeira, afirma serem tais fenômenos ataques hystericos. Por esta razão, e por não constar que aquella pessoa tivesse revelações que figuram, digo, como outras que figuram no processo, deixou de ser citada para depôr. Eis Exmo. Sr. a resposta que posso dar ao officio de V. Excia. E tudo quanto disse, affirmo sob juramento, ser verdade. Fortaleza, 31 de outubro de 1891- Deus guarde a V. Excia. Revma. Exmo. Rvmo. Sr. D. Joaquim José Vieira, D.D.Bispo do Ceará. Assignado: Pe. Quintino R. de Oliveira.
TESTEMUNHO DE MONSENHOR MONTEIRO
Missão Velha, 15 de dezembro de 1891
Ilmo. Exmo. e Rvdo. Sr.
Em comprimento a ordem que V. Excia. Rma. Dignou-se de dar-me communicada pelo Rvmo. Sr. Padre Clycerio da Costa Lôbo, muito digno Encarregado de V. Excia. Para instrucção de um processo sobre os factos do Joaseiro, vou descrever fielmente o que se deo relativamente ao derramamento de sangue de um crucifixo, estando nas mãos da Beata Mria de Araújo nos dias 27 e 28 de abril e 6 de maio de 1890. Estando no Joaseiro presenciei os factos seguintes: A Beata Maria de Araújo pediu-me algumas palavras de animação que a consolasse nos grandes combates que estava soffrendo com os acommetidos os mais atrevidos dos espiritos infernaes; estando ella ajoelhada entreguei-lhe o meu crucifixo e em pé dei-lhe uma benção e logo depois assentei-me proximo a ella, que sustentava o crucifixo na mão direita, e vi, que ella tremia e se conservava arrebatada. Olhei para o crucifixo e vi a Divina Imagem banhada em sangue e verifiquei Ter já cahido um pouco na terra. O crucifixo é de bronze. Só tinha sangue na Imagem e na parte da cruz proxima a ella. Este é o primeiro facto. No dia seguinte rezando a corôa do Precioso Sangue eu com a Beata estavamos, me parece, no terceiro mysterio, quando appareceo sangue sobre a imagem somente e mais pouco.Notei com bem segurança, que descia um fio de sangue muito fino do cravo dos Divinos Pés. É este o segundo facto. Estes dois factos derão se em casa do Sr. Padre Cícero, Renovando os votos de Maria de Araújo, tendorlla mais fervor o crucifixo nas mãos, começou a correr do Divino Corpo, principalmente do lado esquerdo tanta abundancia de sangue que molhou dois sanguinhos grandes e parte de um lenço. É natavel que a Beata estava sempre nessas occasiões, extatica! Perguntando ella ao Divino Salvador por ordem minha, o que significava aquelle sangue: e repondeo que era por diversos motivos que ella não quisesse saber, principalmente como sinal de Misericordia e como prova de ser o seo sangue o apparecido no Joaseiro e que disto eu desse conta ao Senhor Bispo. Estou escrevendo o que a memoria guardou, por esta razão é possivel que me passe alguma palavra. É este o terceiro fato. No mez de Novembro do mesmo anno de 1890, desejando uma consolação para a minha alma e tirar uma prova do espirito da Beata, dei a ella um pequeno crucifixo, dizendo-lhe que alcançasse de Deus a graça da impressão daquella imagem sobre a minha mão direito. A Beata poz o crucifixo como pedi, nesta occasião houve derramamento de sangue e a graça que eu desejava, a Bondade Divina dignou-se conceder-me como desejava. O meu crucifixo recebeo um benção de V Excia.Rvma. que eu pedi para consolação minha. O pequeno crucifixo e o pano ensanguentado já mostei a V.Excia.Rvma. Nada farei relativamente as prophecias por não conhecer pessoas com esse Dom bem desenvolvido. Deus guarde V.Rvma.
DEPOIMENTO DE JOSÉ JOAQUIM TELLES MARROCOS
Cidade do Crato, 12 de Outubro de 1891
Reverendissimo Senhor Commisario
“Noblesse Obligé”
Á distancia, notificação que da parte de V. Rvma. me trouxe o Rvdo. Sr. Dr. Francisco Ferreira Anthero, digno Secretario da commissão que pelo Exmo. e Rvmo. Sr. Bispo Diocesano veio verificar os factos extraordinarios occorridos no humilde povoado do Joaseiro, eu devo a singela e sincera exhibição da verdade tal e qual se podia dizal-a perante deus e com sua graça sustentál-a no tribunal dos homens. Mas o depoimento que veio perpetuar nestas linhas, nada tem de singular, É apenas mais uma voz que no coro geral de todas as vozes e no concerto commum de todas as harmonias vem affirmar que sabe e que vio mesmo na egreja do Joaseiro a hostia sacramental da communhão de Maria de Araújo transformar-se em sangue tão natural como o produto vivo d’um corpo vivente. Este facto maravilhozo, extraordinario, sobrenatural, divino (como quer que a Sancta Egreja venha qualifical-o, ou definil-o) que V. Rma. Mesmo teve varias vezes sob a inspecção vigilante de seus sentidos e sob a visão intellectual de sua alma, não é novo e nem data de hoje. Há 3 annos, mais ou menos, que elle agita em derredor de si a attenção de todos, a curiosidade do homem vulgar e a investigação do homem curioso, a objecção do sceptico e o exame da sciencia, as homenagens francas e expansivas da boa vontade e as rezervas intencionaes e tepidas do calculo e sobretudo a provação do que duvida e a provação do que crê; que ambos exigiram o milagre: um para que podesse assim crer e outro para que fosse affirmar sua crença. Assim pois, nenhuma duvida sobre sua existencia, que viram-se, não uma, sinão muitas veses, e affirmaram-se sob a palavra da consciencia e a fé do juramento centenares e milhares de testemunhas, quando, segundo a lei e o direito, bastava para fazer-lhe prova plena, o depoimento de duas ou trz testemunhas de vista. Qual seja porem, sua causa efficiente e sua procedencia revelam-no circunstancias e factos de ordem superior, que levaram de vencida contradicções e contrariedades da vontadee da actividade humanas. Assim é que: I – Sua publicidade realizou-se a despeito de todas as rezervas e de todo sigilo, com que o sacerdote a quem Deus confiara o extraordinario facto, recebia e mantinha as suas primeiras manifestações. Era o seu “thesourus absconditus in agro” e a mim mesmo, aquem constituiam seu amigo mais proximo, os laços de sangue, as relações desde a infancia, o collegismodos bancos escolares estreitado pela visinhança de nossas moradias, a perda de nossa paes, a dor e o infortunio de nossas vidasno mesmo tempo e a circunstancia de nunca trocarmos uma lavra que desafinasse a harmonia de nossos sentimentos, quando muitas veses pensamos e discutimos em divergencia de opiniões-confesso-doeu-me a sua reserva e o seu segredo; quando já rumorejava la fora e avolumava-se com toda a acentuação de verdade a historia da miraculosa transformação da sagrada forma em sangue. ..............non est sapientia, non est praesentia, non est consilium contra Dominum, o segredo que subtrahia-se as confidencias da velha amizade lá escapava, não sei como, tornava-se uma revelação que repercutia ao longe, e de longe trazia romeiros que chegavam ao Joaseiro perguntando: aonde estava o Precioso Sangue que vinham adorar..............directis que a authoridade do confessor e a força moral do Padre impunha as suas penitentes e as testemunhas de vista, si no Joaseiro podia ainda correr um véo sobre o extraordinario facto; la fóra., longe do theatrodo acontecimento, era de todo multiplicado pelas cem trombetas da fama e pelo milhar de milhões de boccas do jornalismo e da imprensa. Já o Diario do Commercio da Corte em 19 de Agosto de 1889 dizia; A principio entendia bem o Padre Cícero occultar quanto acontecia, e o Diário de Pernanbuco de 29 do mesmo mez e anno affirmara por sua vez que “não obstante o Padre Cícero Ter guardado toda a rezerva sobre tão magnifico acontecimento, com tudo foi elle de alguma sorte sempre divulgado pelas pessoas componentes a mesa da communhão e que della foram testemunhas prezenciaes”. Mas a manifestação devia ser ainda mais completa e, no dia 7 de Julho, quando a Egreja do Joazeiro cobria-se de galas e esplendores para celebrar a festa do Precioso Sangue, repetiu-se o prodigio a vista e face de um numeroso concurso que lá fora assistir a festa. Não foi possivel, pois, guardar mais rezerva, sem revelar o mysterio. Bastava, com effeito! O homem poz.....mas Deus dispoz.
II – Si a publicidade do maravilhoso facto estabeleceu-se apesar dos pezares, o culto que era e é a solemne confirmação e o reconhecimento publico de sua existencia, tambem teve por si um poder superior que pisou por cima de suas forças invencíveis neste mundo: o poder da authoridade que manda e a submissão do subdito que obedece. É sabido que o Exmo. e Rvmo. Sr. Bispo Diocesano, D. Joaquim José Vieira mandou ao Rvdo. Padre Cícero Romão Baptista que “proibisse qualquer culto a esse sangue”.Em obdiencia elle retirou da Capella do S.S. a caixa de vidro que continha os corporaes, as toalhas e os sanguinhos que tinham recebido da hostia sacramental. Mas logo apóz lá veio á meza da communhão a mesma miraculosa transformação e com tanta virtude que d’uma particulaunica correu tanto sangue, que chegou a cahir em terra, não obstante todas as precauções do sarcerdote. Só um dia perante numeroso concurso de povo, a quem nada se poudeoccultar, realiza-se assim a miraculosa transformação, ministrando o Padre Cícero a communhão á Maria de Araújo, noutro dia não é mais com elle que verifica-se a mesma manifestação do poder de Deus, mas com o proprio Senhor Commissario do Prelado Diocesano, qualquer que fosse o logar, o dia e a hora que V. Rvma. mesmo administrasse á commuhão a humilde religiosa e qualquer que fosse tambem o illimitado concurso testemunhal e a provação exigente e rigorosa da sciencia. Atravéz,pois de contrariedades e contradicções o miraculoso facto evidenciou-se o que era: indestructivel e invencivel. Ainda essa vez o homem poz.... mas Deus dispoz. O sangue que se retirou da Capella do S.S., que occultou-se da vista e da reverencia do povo, começa de novo a apparecer todos os dias na hostia sacramental e assim parecia dizer aos fieis: Eccee ego vocum (?) sum omnibus diebus(?).Que fazer agora? Onde esconder o Precioso Sangue? ! E si a hostia sacramental vertendo sangue e agua não reproduzia o sangue e a água do Divino Coração,para que uma vez e ainda perante V.Rvma. Sr. Commissario Diocesano, tomou ella a forma de coração? Jesus Christo que é a mesma verdade, nunca fez e nem faz milagres sinão em confirmação da verdade, e os que V. Rvma. no Joazeiro e no Crato ouvio cim toda a atenção e com effeito são testemunhos tão incontestáveis que constituem esse genero de provas, que os homens e os proprios diabos podem jamais destruir; porque vem de Deus e é de Deus. Impossível, porem, Rvmo. Sr., lhe foi o trabalho de registral-os todos. Pela sua notoriedade e pelo seu numero sempre crescente é que nunca cessaram um só instante as promessas e os votos a esse Sangue que chamam de Precioso. É verdade tambem que nunca cessaram um só instante os milagres que lhe foram pedidos.Doentes de toda enfermidade, paralyticos, loucos, rico e pobre, tudo peccadores em grande numero teem voltado ao doce gozo das occupaçoes da vida, de movimento, de intelligencia, da luz e da graça. E assim, tornou-se inevitavel o culto que em satisfação do voto feito aqui, aquem, alem, em varios pontos de differentes dioceses era e é de imprescindivel dever de consciencia, que a creatura favorecida não pode deixar de ser agradecida pelas graças que pediu e recebeu. A prohibição mesma desappareceu, pois de todo, e anullou-se mesmo deante desse poder que piza por cima das duas forças invencícel deste mundo: o poder da authoridade que manda e do subdito que obedece.
III – Se a publicidade do milagroso facto se fez contra a vontade humana, se o reconhecimento solemne de sua existencia teve por si um poder superior e invencível, a qualidade do Culto que se lhe tributou revela, publica e affirma que sangue é esse que continua a dar saúde ao enfermo, movimento ao paralytico, intelligencia ao louco, e luz cego e graça ao peccador. Cumpre notal-o: Dois factos extraordinario, dois grandes testemunhos de sangue se deram no Joazeiro: a stygmatização de Maria de Araújo e a transformação da hostia sacramental em sangue. Um e outro teve por testemunhas authoridades ecclesiasticas, como V.Rvma. e seu digno Secretario, padres, doutores em medicina, bachareis em direito, centenares e milhares de pessoas de toda edade, posição, qualidade e condição. Um e outro produzia tambem seus effeitos que differenciaram e distinguiram seu caracter com tanta exactidão, que cada um deu testemunho do que era e definiu-se por si mesmo de modo a não deixar duvida. Com effeito a stygmatização foi sempre um espectaculo mais curioso, sempre teve mais que ver, mas aquella humilde serva de Deus, deitada em pobre leito, com os braços abertos em forma de cruz, dezenhada em sangue e coroada de espinhos ao redor de sua cabeça, e esse sangue a correr-lhe sobre os olhos amortecidos e sobre a bocca entreaberta e estuando de sede, o peito arfando de mortal agonia, as mãos furadas e os pés borbulhando sangue, nunca poude excitar na alma christan de espectador sinão um sentimento de admiração. Nunca vi ninguem cahir-lhe aos pés, beijar-lhe aquellas chagas, chorar a lágrima do arrependimento, pedir-lhe perdão de peccados e render-lhe qualquer culto:embora seus stygmas fallassem com eloquencia inexcedivel dos cruellissimos martyrios de Jesus. È que o sangue que delles ainda dava testemunhos ao vivo, era humano, simplesmente humano e sua condição de humano não teve e nem podia occasionar mesmo um culto que não lhe era devido. Entretanto a transformação não aprezentava o quadro commovente e doloroso da paixão: realisava-se de modo simplissimo, começando sempre pela face superior a purpura-se de sangue e terminava, ora com sua sua forma circular, ora com a forma de coração, como então eu mesmo vi. Mas a alma christan do espectador nunca poude ver essesangue sem sentir-se penetrada de respeito e commovida até a effusão das lágrimas! Jamais ninguem passou por deante delle, que não genuflectasse, que não beijasse o chão, que não orasse e muitos tiravam o calçado, como moyses, no logar sancto. Nunca houve romeiro que voltasse a terra de sua patria ou de sua residencia sem levar, como reliquia de raro valor, uma fita ou um cadarço que tivesse tocado na caixa de cidro que contém as toalhas, corporais, sanguinhos que receberam esse sangue da hostia sacramental! E que milagres não se contam dessas fitas e desses cadarços que o povo chama de “medidas do Precioso Sangue”?! O testemunho pois, que a hostia sacramental dá desse sangue, em que se transforma, justifica o culto de latria, que tem recebido e robustece a fé de que esse sangue é divino, porque só Deus é quem tem o poder de Deus e pode obrar milagres, e, alem disso, nas especies sacramentaes só existe e só pode existir o corpo, o sangue, a alma e a divindade de Nosso Senhor Jesus Christo. Não estando porem de conformidade com esta doutrina de fé a interlocutoria que decidiu que “o sangue apparecido nas sagradas formas não é, nem pode ser o sangue de Nosso Senhor Jesus Christo”, protesto desde já pera V.Rvma., Senhor Commissario Diocesano, pela appellação a sancta Sé, na forma e no praso da Lei, e constituo meus advogados e procuradores ao Rvmo. Sr. Padre Cicero Romão Baptista e ao Rvmo. Sr. Dr. Francisco Ferreira Anthero com plenos poderes para tudo o que for a bem do direito da mesma causa. E assim requeiro a V.Rvma. que se digne fazer junctar aos autos o prezente memorial que por deferencia a notificação recebida tenho a honra de apresentar, como singella e sincera exhibição da verdade e tal e qual posso dizel-a perante Deus e com sua graça sustental-a no tribunal dos homens. Deus guarde a Vossa Reverendissima, illustrissimo Senhor Padre CLYcerio da Costa Lôbo, muito digno Commissario Diocesano da Verificação dos factos de Joazeiro. Jozé Joaquim Telles Marrocos.
COPIA AUTHENTICA DO RELATORIO DE MONSENHOR MONTEIRO
SOBRE OS FACTOS DO JOASEIRO
Relatorio apresentado a Commissão Episcopal Examinadora dos factos maravilhosos do Joazeiro desta freguesia do Crato, por Monsenhor Francisco Rodrigues Monteiro, Reitor do Seminario da referida Freguesia. Mirabilis Deus in Sanctis suisEra Paracho da Freguesia de Iguatú e andava de passeio nesta Cidade, duplamente cara ao meu coração, porque é aqui a minha terra natal e tambem porque aqui deslisaram-se os meos primeiros annos de Sacerdote, quando soube do Pe. Cícero, Capellão do Joazeiro e Confessor da Beata Maria de Araújo, meo Amigo de infancia, Sacerdote muito conhecido pela interioridade de seus carismas e pelo zelo inexcedível, muitos factos extraordinarios a respeito da mesma Beata, desconhecida até então para mim. Tenho della que lhe havia dado diversas irmandades de Escapulario, foi isto sem duvida no tempo em que fui Coadjutor desta Parochia. Foi uma narração magnifica! Ser o Padre conhecido da primeira idade, os factos na terra de meo berço ser a pessoa escolhida para tantas finesas de Deos conterranea minha, oh! Estas circunstancias deram maior corpo ao meo interesse. Meses depois de minha volta ao Crato, recebi uma carta do Pe. Cícero, em que contava o facto de apparecimento de sangue nas Communhões de Maria de Araújo e acrescentava que se eu julgasse prudente, como estava de viagem para a Capital, desse noticia deste facto ao Senhor Bispo. Disse, creio por esquecimento. Jornaes deste Estado e de outras partes, muitas noticias a respeito dos factos do Joazeiro e nada em relação a sua substancia e por qu me davam como testemunha occular qundo só sabia por ouvir dizer. Hoje por mercê de Deus, tenho visto muitas coisas extraordinarias como se verá no corpo deste Relatorio. Para satisfazer a piedade do Sr. C. Henriques illustrado doctor da Estrella d’Apparecida, do Estado de São Paulo uma carta muita cousa relativa ao Joazeiro, o que tudo elle publicou no mesmo Jornal. Confirmo o que disse na mesma carta. Dei tambem ao Sr. D. Joaquim, Bispo Diocesano, noticia por escrito do estado da Beata no Purgatorio. Ao mesmo Sr. Bispo foi uma carta em que além de citar os factos, narrava os acontecidos com a Beata em minha presença por occasião da Festa da Semana Santa do Joazeiro, como Coroação de espinhos na fronte, cravação nas duas mãos e lanceamento no lado e tambem cravaçaõ nos pés com grande derramamento de sangue. Durante o dia, por muitas veses, na Capella do S.S.Sacramento, falando sobre a Paixão do Senhor, e por mandado do mesmo Deos. Confirmo tambem o que disse nas referidas noticia e carta, É preciso diser, que destes factos extraordinarios é que começou a minha relação espiritual com esta alma privilegiada e tão amada por Deos! E dahi quntas misericordias!!! Deste tempo preciosissimo é que o Senhor ordenou-lhe de dirigir-se a mim e prometteu-lhe que estabeleceria uma communicação sensivel entre as suas e as minhas orações qualquer que fosse a distancia em que estivessemos um do outro por uma Benção por mim dada em nome da Sagrada Paixão de Nosso Senhor Jesus Christo, e Dores da Virgem desejava ardentemente para proveito meo conhecer o espirito da Beata mais de perto. Deos por si mesmo abrio este largo e delicioso caminho! Tomado por espirito de fé e enthusiasmo religioso mostrei ao povo, ávido pela vista dos pannos ensanguentados, estes depositos de vidros, mas sempre respeitando Juizo infalível da Santa Igreja e as desposições da Authoridade Diocesana. É muito natural obrar-se assim! Quem poude impedir ao povo perseguido de prestar e cuidado e zelo santos pelas reliquias dos seus irmãos mortos pela fé, quando ainda os sos corações invencíceis palpitavam como a ultima sombra d’uma vida que já se havia acabado?! Com que triunfos eram recebidos em Portugal os venerados restos dos Padres Franciscanos, Martires de Marrocos, cinco rosas encarnadas do peito do Serafico d’Assis! Meos Deos! Quanta veneração ao Apostolo de Carthagena, ao humilde cadaver sympathico amigo dos negros, Pedro Claver! Ainda não era canonizado. Isto é providencial. É um feito de nossa fé as grandesas de Deos; é uma espontanea veneração do espirito christão a ideia religiosa.Muitos factos extraordinarios bem estudados, sempre os mesmos, livres de illusão, produzem o que no Joazeiro se tem produzido. Um arrastamento da vontade que força humana não pode empedir. E não sera isto um auxilio para o juiso da Igreja? O sangue apparecido em communhões, transformações de hostias de communhão em sangue misturado com fragmentos divinos, porque não hão de receber a nossa veneração, filha da fé em tão sublime sacramento? Talves seja o ponto do Brasil onde há maior numero de communhões frequentes, tão batidás guerroadas pelos impios e despresada pelos maos christãos, ignorantes da sede que tem o bom Salvador de abraçar-se comnosco!Deos está pagando as fadigas dos Padres e a fé de seo povo com estas amorosas e admiraveis manifestações!Digo isto, fallo assim porque não quero que se diga que em coisas tão serias não respeitei o Juizo da Santa Egreja, Mestra Infalível da verdade, por cuja pas e conservação, por cuja bellesa e puresa de doutrina, daria mil vidas tivesse! Fallei diversas veses sobre essas coisas, mesmo em Festas Solemnes respeitando sempre o Juizo da Egreja e a disposição de meo Superior Diocesano. Assignei, com os meos dignos companheiros e collegas deste Seminario uma appellação para o Santo Padre acerca dos casos religiosos, pensando que era um meio que muita gloria daria a Deos e mesmo seria um caminho mais facil, conhecemos que melhor seria não a termos assignado. Sendo os primeiros a assignar, não sabiamos que tambem a tal appellação seria assignada por mulheres, o que conhecemos pela leitura dos papeis do Sr. Bispo! Foi pura a nossa intenção. O que tinha de diser neste relatorio digo ainda a obrigação de um juramento que prestei nas mãos da Commissão Episcopal, e tambem por amor a verdade, á Religião, aos serus dogmas e a piedade christã.
Por mercê de Deos, não sou illuso, detesto cavilhações e quero a gloria de Deos e a posse do Céo; não farei escada com degraus de... O que eu aqui escrevo quero diser diante do meo supremo Juiz, a quem não podemos enganar. Oh! Ardentemente desejo a da deste dia para que se conheça, que maiores riquesas possue o eDulcissimo Coração de Jesus! Temos passado por sacerdotes illusos, ignorantes, fanaticos. Meo Deos! Nós não temos fé!!! No meio de tantas maravilhas ainda somos do mundo. E não morremos de amor. Si fossemos loucos, no meio de milhares e milhares de cabeça não se encontram uma sã e direita. Sacerdotes esclarecidos, médicos magistrados, bachareis, militares, soldados, titulares, tudo cego!!! Será mentira a historia heroica dos martyres, a famosa vida dos Padres do deserto, a historia de todos os Santos! Quem conhece a mystica divina, que leo a vida de São José de Cupertino, S. Pedro de Alcantara, S. Patricio e tantos e tantos outros não pode achar vano nem dificil que taes factos se reprodusão! Jesus Christo não pode derramar sangue depois de ressuscitado! O Breviario approvado pela Egreja não diz que Santa Brigida na idade de dez annos vio Christo todo ensanguentado? Não sabe de tantos casos semelhantes constantes de livros approvados por Santos Sabios Bispos? O mar sem fundo do Coração de Jesus, quem poderá sondál-o? O que nunca se pensou elle não fes ?! Morreu e levantou-se( ? )! Que leis pode dar o amante. OH, Jesus quanto sois pouco conhecido e pouco amado! A Beata é pobre e de baixa condição! O Joaseiro é um insignificante povoado! Serão estes os obstáculos às manifestações Divina? Todo mundo sabe que o príncipe do Céo, Filho Unigenito de Deos Padre nasceu de uma humilde Virgem de Nazare, e era filho adoptivo de um velho Carpinteiro. Não quis vir das célebres Heroinas, nem fazer o seo berço entre purpura, e ouro dos grandes da terra! Nasceu entre animis em um pobre Presepio!Donde fallou a Virgem de Lourdes, não foi do concavo de um deserto a uma humilde Pastorinha? Meo Deos, quem eram os apostolos? Pobres e grosseiros pescadores dos mares da Galileia. Eram a escoria do mundo! O Grande Baptista pregou a penitencia no deserto não nas grandes cidades. Sou Sacerdote, por minha infelicidade ignorante e sem virtudes, mas sei distinguir o que é odio e o que é amor! O demonio é habil tentador, sei que a fraquesa pesa horrivelmente sobre a pobre humanidade. Mas sei que o demonio e a naturesa não são senhores soberanos, mas sim Deos! Aquelle que disse a Maria de Araújo: Maria, eu sou o amor, vivo de amor e só quero ser amado, não abandona a quem procura com sinceridade e simplicidade de coração. Não disponho de tempo fazer aqui uma narração completa. São uns apontamentos: O que importa saber, o grande da questão é saber se o sangue apparecido nas communhões da Beata Maria de Araújo., o sangue dos Crucifixos, se o sangue apparecido nas minhas mãos mysteriosamente e que a Beata commungou por muitas veses é o verdadeiro sangue de Nosso Senhor Jesus christo, Filho de Deos vivo! Está fora de duvida que é, como consta das provas juntas. E eu para gloria de Deos e da Rainha dos Céos, a Maria, digo, ordenado por Ella e meo Confessor, que Ella tem-se dignado de diser-me que o sangue é de seu Filho, de mais que as communhões de carne são verdadeiras communhões. Confesso a Deos e a quem este ler que só descubro assim os minha conciencia, por obediencia a Virgem Maria e a Hei de fallar em meo humilde nome mais de uma ves, por gloria de Deos e para salvar o meo caracter de sacerdotes e de humano.
COMMUNHÕES DE SANGUE
No principio havião muitas communhões da Beata com grande derramamento de sangue, logo depois de commungar a Beata muitas duvidas. Deos que é infinitamente misericordioso, como querendo levar o homem é, permettio que as particulas commungadas pela Beata se demorassem em sua lingua, deitando tanto sangue que uma parte a Beata consumia, a outra no exame nas mãos dos sacerdotes, ou em pannos para isto preparados e só podia commungar depois de uma benção. A divina particula adheria a lingua de tal modo que sem uma graça especial não largava. A destes dous modos ainda levantava duvidas, diziam que bem podia ser sangue da Beata. Destes factos fui eu testemunha e milhares de pessoas de todas as classes, com assistencia medica, e com os recursos de que a sciencia podia lançar mão. Para dissipar essas duvidas começou o Senhor a dar-lhe communhões mysteriosamente. Inumeras veses me entendendo religiosamente com a Beata era preciso dar-lhe uma benção para que ella podesse commungar algumas mysteriosas particulas, ora ensanguentadas, ora sem sangue. Ultimamente o Divino Salvador, para distruir todas as objeções depositada as particuls ensanguentadas nas mãos da Beata como adiante se verá. Ella tem commungado muitas veses sangue puro, em minha mão direita; digo: comunhão, porque o Senhor mesmo..... me comunhão. Duas veses ella commungou duas particulas que appareceram em minha mão, mysteriosamente! Fallarei primeiro do sangue e depois do espirito da Beata,para que não seja tida como uma embusteira. Prova irrefragavel de ser o sangue das comunhões da Maria de Araújo, o sangue dos crucifixos, o sangua bebido em minhas mãos o mesmo sangue de Nosso Senhor Jesus Christo, os factos seguintes é que vão dar ultima palavra sobre este gravissimo negocio.
1º FACTO
Tinha voltado da Capital o Sr. Pe. Cícero, Confessor de Maria de Araújo e Capellão do Joaseiro, e havia em suas faces bem patentes os signaes de cruel afflição. E qual éra o motivo de sua dôr?! O Senhor Bispo o obrigara a diser do Pulpito que o sangue do Joaseiro não éra o sangue de Jesus Christo e nem podia ser. O Padre, homem sincero, de grandes virtudes, de intelligencia alem do commum esclarecida, testemunha depositaria da consciencia da Beata, seu confessor desde sua mais tenra idade, comparticipante de todos os mysterios dados a seu respeito durante muitos annos, me disia: como poderei faser isto?! Como hei de trahir a causa de Deos?! Eu por minha ves convenciado por muitos testemunhos que sangue das communhões da Beata, dos crucifixos, das communhões mysteriosas é o sangue real e verdadeiro de Jesus Christo, disse que affrontasse tudo, até mesmo a morte e não trahisse a causa de Deos manifestada. E assim pensou elle.
Tendo eu hido ao Joaseiro, no dia 7 de Setembro, dia de S. Pedro Claver, com o fim de visitar ao S. Clycerio, sacerdote muito conhecido nesta Diocese pelas suas virtudes e saber, e ao Rvmo. Sr. Pe. Dr. Antero, ambos commissionados pelo Senhor Bispo, para examinar os factos do Joaseiro, procurei da Misericordia insodavel do Coração de Jesus um milagre que pusesse termo, que desse descanso ao coração de meo virtuoso Amigo, e fosse uma chave para taes mysterios. Penso que érão uma e meia da tarde; estavamos, eu e a Beata Maria de Araújo em um sympatico Santuario de uma piedosa familia, onde se adora uma perfeita imagem do Sagrado Coração de Jesus. Antes de tudo declaro que não sou confessor nam director espiritual da Beata. Os meos serviços religiosos prestados a ella tem sido ordenados pelo masmo Deos. Tratei de renovar os seos votos para honra e gloria de Deos, santificação sua e aproveitamento meo. Ninguém sabe como esta alma, nestes momentos se afina no amor de Deos! Disse a ella que aquelle acto éra tambem para alcançar de Deos uma prova inatacavel de se o sangue de sua comunhões, dos crucifixos e das communhões mysteriosas eram verdadeiramente e realmente o sangue de Nosso Senhor Jesus Christo. Não se imagina que enlanguisimento de amor que fogo celeste nestes Divinos instantes innundou o coração escolhido desta Virgem! O espirito mais grosseiro leria extase tambem. A terra não parece o mundo, este mundo dos sentidos e baixios!!! Quando ella de joelhos e eu assentado em uma cadeira, principiava uma oração accompanhada pela Beata: Jesus, esta Egreja é a da Virgem das Dores, vossa querida Mãe, onde se tem dado tantas maravilhas, oh! Por amor a Ella daí-nos ...Não concluimos a oração, interrompidos por um estrondo e enternecedor milagre. A Beata dá um pequeno grito e arrebata-se! Era um raio de amor de Jesus que feria soberanamente o coração de sua esposa! Encostou-se a parede para não cahir, sempre de joelhos, olhando docemente para o ser que sua alma amava e a sua mão direita erguida ao ar sustentava entre os dedos duas particulas banhadas de sangue! Extatica a Beata, tirei de seos dedos as Divinas particulas e depois de adorar e preparar-me, recebi-as em communhão. Despertei-a em nome da santa obdiencia e perguntei-lhe, quem havia collocado aquellas mysteriosas particulas em seos dedos, ao que ella respondeo: Nosso Senhor appareceu e havia nas Divinas mãos duas particulas e tocando com ellas no seu coração amoroso que n’aquelle instante derramava muito sangue, me disse: entrega ao Padre para prova do que elle pedio. Neste dia em confissão contei este facto e o Confessor me disse que narrasse elle ao Pe. Clycerio. Um caso desta naturesa dado com Maria de Araújo éra o primeiro. Depois deste dia deu-se caso semelhante no dia 25 do mesmo mês, dia da impressão das chagas de S. Francisco de Assis, no dia 28 deo-se duas veses, dia de S. Venceslau e mais 2 ou 3 veses. Ainda ant’hontem, setimo dia da oitava de S. Francisco de Borja, 16 deste mês de outubro, tendo hido a Caridade por motivo religioso e conversando com Maria de Araújo, iamos fazer uma oração; quando levantava a mão para benzer-me, inexperadamente a Beata é arrebatada e fica encostada em meu braço direito, fulminada por um raio celeste, segurando nos dedos da mão direita 5 particulas ensanguentadas que molharam as suas mãos e as minhas. Ella me disse que o Senhor me mandava aquellas particulas para comunhão minha. Era tambem com outro fim mas não era necessario diser.
2º FACTO
Sou Confessor da Beata Antonia que foi minha Parochiana em Iguatu e por ordem Divina veio recolher-se a Casa de Caridade desta Cidade, quando ainda curava aquella freguesia. Esta creatura tem graças muito particulares, vive quase sempre arrebatada. Não se pode fallar sobre a Paixão de Jesus e as Dores de Maria sem que ella se arrebate immediatamente! Chamadapor obediencia, obedece promptamente. Tendo a visto muitas veses extatica em adoração ao sangue do Joaseiro, disse a ella,que consuoltasse a Deos, si éra de sua Santissima vontade, que ella fosse depor nas mãos dos Padres Commissarios o que sabia a respeito dos dactos do Joaseiro,e si o Senhor queria dar uma prova com um milagre;ella me disse que o Senhor approvava e que se encarregaria mesmo de o provar, pondo em sua mão no tempo preciso, sagradas particulas para communhão sua, do Confessor e dos Padres da Commissão Episcopal recommendando o Bom Salvador que eu a confessasse antes do depoimento. Estava a Commissão em um aposento interior da Casa da Caridade, e eu me achava em uma grade que olha para o altar onde está o S. S. Sacramento, juntamente com Maria de Araújo, e hia renovar os seos votos; não tinha ainda pronunciado uma palavra, quando a Beata pendeo sobre o meo braço em um profundissimo extase, tendo entre os dedos duas particulas ensanguentadas; chamei por alguem e pedi que queria fallar com os Padres. Chegando mostri-lhes o portentoso milagre, adoramos juntos communguei as particulas. Despertando a Beata ordenei pedir a Nosso Senhor communhão para os Padres presentes;com pequena demora a Beata outra ves arrebatou-se; tendo entre os dedos duas particulas ensanguentadas. Dispertada disse que o Senhor mandava aquellas particulas para os Padres da Commissão com ella commungar. Ó scena dos Céos! O que ahi se passou Deos sabe!.......ardentes, as convulsões nascidas da emoção e espanto foram a ......solemne do Deos dos altares! Voltaram os Padres a continuar o seu trabalho, quando de repente me vem chamar o Padre Antero. Notei no seu semblante um caso novo. Estava Antonia extatica, assentada perto da mesa entre os Padres Clycerio e Antero, segurando entre os dedos algumas particulas. Mandei-a por obediencia que dissesse o que aquillo significava; respondeo então que Jesus Christo lhe pusera nas mãos quatro particulas para sua e nossa Communhão, dizendo:entrega ao teo confessor, é um signal que dou por mim mesmo para que saibam que o sangue do Joaseiro,apparecidoem communhão, que o sangue dos crucifixos e das Communhões mysteriosas é o meu verdadeiro sangue! Para escrever mais depois destes dous factos? Communhões de sangue por ocasião do retiro espiritual dado por mim no Joaseiro, o qual principiou a 9 de janeiro de 18.. até o dia 16. No Domingo, 11 de janeiro, commungou Maria de Araújo em minha mão direita, à noite, renovando os seos votos em pé, no altar onde está o Sacrario, deixando a mão ensanguentada e alguns paninhos. Na Segunda-feira, 12 de janeiro, deo-se o mesmo, com as mesmas circunstancias,ao meio dia, e a noite o mesmo caso, commungando em honra da S.S.Trindade. Na Quarta-feira, 14 de janeiro, uma comunhão do mesmo modo e com as mesmas circunstancias. Na mesma ocasião a Beata tinha a mão sobre a minha e pedia para min uma graça. É notavel que retirasse a mão limpa, ficando ensanguentada. Na Quinta-feira, 15 de janeiro, communhão do mesmo modo e com as mesmas circunstancias. Na Sexta-feira, 16 de janeiro, communhão do mesmo modo, e com as mesmas circunstancias. Nesta occasião derramou-se sangue por tres veses em minha mão para prova de uma graça que me seria concebida. No dia 3 de fevereiro, communhão do mesmo modo e com as mesmas circunstancias. No dia 28 de fevereiro, communhão do mesmo modo e com as mesmas circunstancias. Duas communhões dadas no altar da Casa da Caridade deste cidade, no mês de Fevereiro – 7 e 8 – do mesmo modo e com as mesmas circunstancias por ocasião de um retiro pregado por mim.No dia 14 de março, comunhão do mesmo modo e com as mesmas circunstancias ( no janeiro ). Neste dia a particula recebida em communhão, tres horas depois estava na lingua da Beata em forma de um coração humano e o toquei com o dedo. Fasia justamente um anno que eu tinha visto a Beata coroada de espinhos. Em duas veses appareceram sangue e agua, disendo o Divino Salvador que eram do seo Divino Coração.
SANGUE DERRAMADO DO MEO CRUCIFIXO
No dia 27 de Abril de 1890, tendo a Beata o meo crucifixo nas mãos, estando de joelhos para receber uma benção que lhe queria dar, vi o crucifixo derramando sangue, conservando-se a Beata arrebatada. O mesmo caso no dia seguinte, 28, resando com a Beata acerca do Precioso sangue.
ULTIMA DECLARAÇÃO
A Virgem Maria se dignou diser-me que o sangue das comunhões de Maria de Araújo, dos crucifixos, das communhões mysteriosas é o sangue do seu caro filho como tambem acrescentou: porque disem que o meo Filho não soffre? Não sabem como elle derrama sempre sangue no Purgatorio! Declarou-me mais, que o depoimento de Anna Leopoldina tinha sido feito por Ella. Anna Leopoldina é minha confessa e tem graças mui particulares. Eu sabia porque havia pedido a Ella esta graça, isto é, para Ella fallar por Anna e por que Anna isto esperava. Uma ves a Santissima Virgem me disse que nunca tinha dito a Anna que o sangue de Jesus, mas disse que seu Divino Filho hhavia declarado a ella. Deos veio ao mundo pelo peccador, por isso não deve ninguem admirar-se que o Soberano dos Céos me faça estas graças. Elle me tem feito maiores!!! Seminário de São José da Cidade do Crato, 11 de Outubro de 1891. Monsenhor Francisco Rodrigues Monteiro.
TESTEMUNHO DO JUIZ DE DIREITO DE BARBALHA
JOÃO GOMES DE HOLLANDA
Joazeiro
Pelas cinco horas da manhã do dia quinze de ...... de mil oitocentos e noventa e um, acompanhado dos Senhores Capitão José Furtado de Lacerda e Ignacio Bastos de Oliveira, parti para a povoação do Joazeiro onde chegando as sete e meia do mesmo dia encaminhei-me imediatamente para a Igreja, que sendo um templo espaçoso estava quase cheio de fieis assistindo a missa, que na Capella do Sacramento,celebrava o Pe. Laurindo, Vigario de Triumpho, em Pernanbuco. Eu e os companheiros, rompendo esse crescido numero de crentes, pisandoa uns e atropellando a outros fomos nos collocar ao lado direito do altar, fizemos a nossa oração, e apenas concluida a missa o Senhor Ignacio Bastos dirigio-se ao celebrante e dice-lhe que eu era o Juiz de Direito de Barbalha e tinha ali ido no intuito de conhecer a Beata Maria de Araújo, e testemunhar o extraordinario milagre da transformação da hostia em sangue. O padre Laurindo com indisivel praser comprimenta-me e indigita a beata que envolvida em um manto preto se achava assetada em um canto da capella, descançando a cabeça sobre a parede, e passou depois a historiar com palavras repletas da mais profunda convicção o facto da encarnação da particula, a que elle por muito tempo não deu credito. A minha anciedade aumentou de ponto quando esse sacerdote em continuação, revelou que, no dia da Ascenção a convite do Padre Cícero, encontrou a beata, no quarto de dormir, onde existe um Santuario de suas orações, deitada em uma rede immovel, com os braços abertos e as mãos curvas, vertendo sangue da cabeça, que molhava o capuz branco, e corria-lhe pelo rosto, da palma das mãos, dos joelhos que ensopava o vestido, e dos pes, os quaes assentavão um sobre o outro, não podendo affirmar se do lado do corpo tambem saia sangue, porque a decencia e o pudor não permitirão examina-la; e que finalmente limpando com o lenço o sangue das mãos, ella que se achava completamente extasiada, sem nada ouvir e nem sentir, juntava-as em signal de orar, e nesta posição permaneceo por muito tempo. Facto identico succedido na Quinta-feira da Semana Santa do mesmo anno foi tambem presenciado pelo Padre Manoel Candido que incorreo com a notavel circunstancia de a beata Ter os olhos fixos no tecto, sendo-lhe ordenado em nome de Jesus Cristo, bastando para isso balbuciar-se as respectivas palavras mesmo em voz baixa, que ella não podesse ouvir. Tendo o Padre Laurindo concluido a sua narração, e a incertesa de já se haver dado communhão a beata Maria de Araújo n’aquele dia, dice-me que ia avisar o Padre Cícero, que estava fasendo um retiro espiritual em uma sala atraz da Capella-mór. Padre Cícero não se fez esperar. Veio ao meo encontro muito expansivo e alegre, e depois de ouvir-me , respondeo que a Beata já tinha commugado, pela manhã, e como o milagre não se reprodusia todos os dias, era possivel que eu não aproveitasse a minha viagem. Fiquei pesaroso e lamantando a infelicidade de não observar com os meos proprios olhos um acontecimento que sem exemplo nos factos da Igreja, era attestado por centenas de catholicos. Reflexionei que, sendo da escola de S. Thomé e tendo de ir a capital em junho, desejava ver o maravilhoso e estupendo milagre da encarnação da particula, para não só referil-o aos que me interrogassem, como para affirmar a sua realidade do Diocesano, visto como o que nelle não acreditavão estavão em maioria; mas, não me sendo concedida naquelle dia essa graça divina, voltaria a 28, que era o Corpo de Deos.Em vista doque eu acabava de manifestar o Pe. Cícero, cuja serenidade de animo e phisionomia calma contrastavão com a serenidade da um homem procurado, affirmou que o milagre se realizava e era verdadeiro, sentido que o Sr. Bispo não estivesse ainda ido presencial-o e com palavras repassadas de authoridada confessou que não foi sorpresa, pois a muito tivera uma revelação. Posso conhecel-a, foi a minha pergunta. Um certo dia, continuou o Pe., eu estava resando o meu breviario, qundo fui despertado de minhas meditações por uma voz que me disia: é chegado o fim dos tempos, a minha Igreja vae entrar em novas e mais crueis perseguições, o meo rebanho ficará redusido, mas vou derramar o sangue do meu coração para salvar o genero humano. Os que vivem e não acreditarem, não se salvarão.Então, eu para certificar-me do tempo, se seria no futuro ou no presente, interroguei: é ou será? E a voz respondeo: é, e poucos serão os escolhidos. Encarei ao Padre, e a primeira ideia, que assaltou ao meu espirito, foi a de que me achava diante de um homem enfermo, mas elle, não me comprehendendo felizmente risonho e presumindo haver-me convencido prosseguio: Passados dias, muitos dias, nada tendo revelado a ninguem, uma criatura (parece que se referia a Maria de Araújo) a quem eu confessava, me comunicou no confecionario, que o Imperador preso ia ser desterrado para países longinquos, e a religião perseguida; mas eu não dei importancia e até masmo me esqueci dessa predição, quando quasi um anno depois, chegou a noticia da queda da monarchia, proclamação da Republica e asilo do Imperador. Comecei então a imprecionar-me, e os factos que se succedião erão taes que não duvidei de já Ter entrado em execução a promessa de Jesus Christo. Com effeuto a esse mesmo tempo dando comunhão aessa creatura ella não pode ingerir a particulla, que intacta e perfeita se conservava na língua, não obstante a água que bebia; só depois de uma divina oração, que rezei, foi que conseguio engulil-ª Isto succedeo duas veses; na terceira comunhão com muita admiração de minha parte presenciei a bocca encher-se de sangue, que aparei com uma toalha, tendo a hostia encarnado e tomado a forma de um coração, sendo isto qu de então em diante se reprodusio, e sem Ter sido revelado por mim, até que um anno depois o Padre Monteiro tendo-o testemunhado deo-lhe publicidade com o meo desagrado. Neste ponto o Pe. Cícero foi interrompido em sua narração por uma beatinha que o chamou da parte da Maria de Araújo; eu e elle estavamos cercados de muita gente que ouvião com religiosa attenção. O Pe. pedindo permissão dirigiu-se ao lugar onde se achava a beata, inclinou-se para ella, passando o braço esquerdo á grade que divide a Capella do Corpo da Igreja, e nesta posição, com a cabeça unida a da beata, parecendo conferenciar com ella, ou ouvida em confissão, esteveassim por espaço de cerca de cinco minutos. Enquanto isto se passava, notei que o sacrario descançava sobre uma caixa de madeira pequena, da qual muita gente com fitas e cadarços tirava a medida. Depois daquella conferencia o Pe. Cícero veio diser-me que eu tinha perdido a minha viagem. Depois de decorrido tanto tempo!, observei-lhe. Sim, respondeo-me elle, algumas veses ella commungando esforça-as para engulir a hostia mas esta fica na língua por muito tempo e desfazendo se em sangue,e é preciso substituil- a por outra, administrando-lhe de novo mais de uma communhão, para então poder ingerir a particula e isto mesmo debaixo de obediencia, e outras veses a transformação se opera rapidamente. E em seguida deo signal a beata, que veio ajoelhar-se ao pé do altar, deixando ver entre os labios diametralmente cerrados indicios de sangue em toda a extensão da bocca. O Pe. Laurino tirando uma pequena salva de vidro das galhetas, e cobrindo-a com um sanguinho a colloca sobre o altar. Eu me achava entre os dous padres e quasi a minha frete a beata Maria de Araújo que parecia não puder mais conter na bocca o sangue, que começava a extravasar. Ao lado direito do Pe. Cícero estavão os meus dous companheiros, e a multidão nos cercava. O Pe. Cícero inclina-se, encosta a cabeça a da beata, com quem falla sem que pudessemos ouvir uma só palavra, e em seguida leva a mão direita ao queixo della e ao mesmo tempo, tomando a salvinha de vidro me aproximo mais, e apenas a mesma beata abrio a bocca para mostrar a lingua, de ordem deste sacerdote, precipitou-se na mão delle que despejou na salva, uma golfada de sangue aquoso, de um encarnado desmaiado cheio de baba, com pequenas bolhas de saliva e misturada com este sangue veio tambem uma particula completamente humedecida, tendo ao lado uma mancha mais escura, e ligada pela orla uma posta de sangue condensado e quase denegrido. A hostia, não obstante ter premanedido por cerca de quatro horas na bocca da beata, estava inteira conservando a sua forma cylindrica e apenas o filtrado do sangue, e por mais que os Padres procurassem convencer-me de que tinha encarnado e exalava um aroma delicioso, eu só via e sentia ali era uma particula molhada de sangue, e o cheiro muito ligeiro de incenso, que se havia impregnado no sanguinho quando por occasião da benção ou da novena da noite antecedente se incensou o altar, mas não contestei, e ao contrario fingi acreditar aquillo que minha consciencia não podia acceitar,para não ficar no desagrado daquelles bons sacerdotes, e nem ser mal visto de tanta gente que a porfia avançavão e procuravão com veneração ver e beijar o precioso sangue. É certo que a massa da particula tinha cido em seos globos e os poros se dilatado; mas não tinha a cor de carne e nem a tal se assimelhava. Em seguida vi tres veses a lingua da beata. Na primeira que foi logo depois de deitar o sangue, estava completamente limpa e esbranquecida; na Segunda começava mudar de côr; na terceira finalmente havia toda tomado uma côr rubra porem sempre limpa e sem vestigio de sangue. Entre o derramamento de sangue eo exame da lingua não dcorreram cinco minutos. Como a beata Maria de Araújo não tivesse ingerido a hostia e houvesse tambem umas quatro ou cinco criaturas para tomar a comunhão o Pe. Cícero passou a administrar este sacramento, em primeiro lugar a beata de quem nõ desviei mais a vista e depois aos outros fies. Apenas ella commungou encorbrio o rosto com o manto, deixou cair o rosorio que apanhou e enrolou em uma mão, tendo na outra um lenço encarnado do qual não se separou; não vi se soffria contrações no rosto por esta inquietação de mão que parecia incomodo, até que voltando aquelle sacerdote ao altar junto ao qual ainda a beata estava de joelhos interrogava por monossilabos e dice-me com inteira satisfação que já começava operar-se o milagre, e então eu, para melhor observar, ajoelhei-me e quase em frente a Maria de Araújo abrindo a bocca em obediencia ao mandado do Reverendo Cícero para mostrar-me a língua e nesta hostia convertendo-se em sangue, a mesma hostia precipita-se da lingua e cahiria no chão se o Padre não a aparasse com a mão, desta vez não derramou sangue acompanhando a particula, porque a mesma beata inclinando a cabeça ligeiramente para traz engulio o sangue e que enchia-se a bocca ficando neste acto um tanto corada, mas a particula inteira e redonda estava totalmente infiltrada de sangue e de cor mais rozea que a primeira, menos em um ponto pouco maior que a cabeça de um alfinete e proximo a orla, a qual tinha a sua cor natural, era branco. Os globos da massa que fora feita esta Segunda particula, e os poros da mesma não tinham crescido e se dilatado tanto como na primeira. Na primeira hostia via-se quase no centro uma pequena ondulação arredondada, mas na Segunda, nem isto se observava. Estava, repito para melhor explicar-me, como tinha sido introduzida na bocca da beata, inteira e redonda, e apenas molhada de sangue que nella se infiltrara, menos no ponto branco já referido. Declarando o Pe. Cícero que ia dar terceira comunhão a beata ergueo os olhos para elle em tom de suplica, observou-lhe que não podia mais e receberia aquella mesma referindo-se a Segunda particula. Eis as suas palavras: não posso mais, quero esta mesma. Depositado esta Segunda particula na mesma salva perguntei se ella tambem tinha encarnado, e os dous padres, ao mesmo tempo, responderão-me afirmativamente e o Pe. Cícero, tocando nella tirou um pequeno fragmento que esfregado entre os dedos dissolveu-se. Pedi-lhe para fazer o mesmo na outra mas o Pe. Laurino observou que não o fizesse, pois era necessario que ella fosse guardada como estava, afim de convencer ao Sr. D Joaquim que segundo lhe constou, escrevera uma carta ao Vigaria do Crato, reprovando a acceitação desse grande milagre. Em vista dessa censura atirada ao Bispo, eu constatei que elle assim procedesse, e que a sua carta havia sido mal interpretada, por quanto o que elle poderia Ter recommendado a aquele vigario era que não tendo ainda a Igreja em sua divina sabedoria declarado o facto de Joaseiro como um milagre, manifestando Jesus Christo por este meio o seo infinito poder e vontade, ninguem incorreria em pecado se não acreditasse. Apenas eu acabara de proferir estas ultimas palavras, a beata Maria de Araújo dirigiu-me um olhar expressivo de reprovação e o Pe. Laurino accudio logo, affirmando que aquelle era o asangue de Jesus Christo, e segundo sua predição, aquelle que visse e não acreditasse, peccava e não se salvaria. O meu companheiro Ignacio Bastos tentou tocar no sangue com a ponta do lenço mas não foi ainda obstado pelo Pe. Laurindo, que lhe disse: não faça isto, não pode. É o sangue de Nosso Senhor Jesus Chrito. Eu perscrutava aquelles dous sacerdotes, os seus movimentos, gestos e palavras, e só descobria nelles muitas ingenuidade, e uma crança inabalavel. Quem conhecer os precedentes do Pe. Cícero, suas virtudes, a bondade de seu coração, e o ver dia e noite preocupado com os mysteres de seu sacerdocio, e ouvil-o a cerca do facto de Joazeiro poderá qualifical-o de fanatico, mas nunca de embusteiro. O Pe. Laurino me pareceu um homem simples e de bom coração. Por tanto, na presença de um facto que a dois annos ou mais, se tem reproduzido sempre o mesmo, e para o qual a minha razão não pode ainda descobrei uma explicação satisfatoria e convincente, fiquei com o meu espirito vacilante, e na duvida de haver ali alguma cousa sobrenatural ou de ardil da beata que alas me pareceu uma criatura muito simploria. E este meu estado de incertesa augmentou de ponto, desdeque Pe. Laurino declarou que durante os poucos dias de sua estada naquela povoação, tinha presenciado cousas extraordinarias, as quaes não lhe ser permitido e nem convir; e desde que tambem tres cidadãos de fe me affirmarão que virão a particula encarnando na lingua da beata, e quando ella tomando esta transformação mostranvam já um lado, isto é, uma metade lusida a carne e a outra ainda branca. Outras pessoas affirmão que por mais de uma vaz, no acto de a beata segurar um crucifixo de metal, este derrama sangue das chagas. Como a hora já estivesse muito adiantada declarei-me satisfeito e pedi permissão e retirei-me promettendo voltar mais tarde para proceder o novo exame nas hostias e no sangue; e o Pe. Laurino desceo para o corpo da Igreja, levando a salva, que ia mostrando o povo. A minha passagem encontrei assentado ao pé de uma coluna uma mulher que chorava. Depois do almoço sahi para ir a casa de Pe. Cícero, e em caminho soube que logo após a minha saida da Igreja,mandara convidar-me por uma pessoa que não me encontrou para prezenciar na terceira communhão a hostia na lingua da beata Maria de Araújo se desmanchando em sangue. Senti muito não Ter esperado mais alguns instantes. A casa do Pe. Cícero é uma habitação modesta, na sala ornada de alguns registros de santos e retrato de Leão XIII existe um safá e seis cadeiras, uma rede, uma pequena estante de livros, sobre uma mesa e uma outra mesinha colocada na parede interna. Tem um corredor largo que vae sahir no alpendre ou terraço com uma ordem de quartos de um lado e de outro um gabinete com um quarto correspondente. Em um dos quartos habita Maria de Araújo. Esta casa dia e noite é invadida por beatas, que lá vão talvez, mais para se serviremda parca mesa desse pobre sacerdote, do que por espirito de religião. Meia hora depois de meio dia fui a Igreja para assistir missa do Pe. Cícero. Concluida esta este mesmo sacerdote dirigio a palavra aos circunstantes que de pé com os braços erguidos, tendo na mão terços, rozarios, fitas, cadarços bentos e vellas o ouvião com muita attenção. O sermão consistiu na historia da perseguição religiosa christã desde os tempos dos Imperadores romanos até os nossosdias, na conversãode Constantino, no fim do mundo, que estava proximo, conforme a promessa de Jesus Christo e finalmente na obrigação de confessar-se imposta aos que a mandado de Deos ião ao Joazeiro. Nesta parte do sermão o Pe. Cícero com phrases energicas aconselhava a confissão e repetia o seguinte:” Não estou doido, não sou idiota, não entendo de magia.O que voz digo é o seguinte, o que tendes visto, o que ouvis, eu ouvi, me foi predito. Jesus Christo derrama seu sangue para vos salvar. Os que acreditam, elles se salvarão. Elle escolheo este lugar, ficaes sabendo, que é elle que vos manda aqui para vossa salvação, portanto, cofessai-vos aqui onde puderdes.” Em seguida passou a benser do altar aquella quantidade de terços, rosarios, fitas cadarços,bentos evellas, recommendando que as vellas erão para serem accendidas na hora da morte.Acabada esta ceremonia, o Pe Laurino, tirando um panno de cambraia, que cobria a salva ,me apresentou para eu examinar de novo as hostias e o sangue.O sangue que havia infiltrado no sanguinho estava enxergando, a pasta denegrida commeçava a seccar e a hostia, tendo se rompido naquella pequena ondulação redonda de que acima fallei e na qual mostrava-se ligado ao panno ligeiros fragmentos, que os olhos de um crente fanatico serão uma chaga aberta na mesma particula. A outra particula, a da Segunda communhão havia se dissolvido, deixando no sanguinho gravado em sangue, a sua forma cylindrica e no centro desta uma linha ou viculo perpendicular de cor mais escura, tendo na extremidade aquelle ponto branco de que já tratei. Existia ainda no fundo da salva sangue clarissimo, cor de rosa e muito fino parecendo Ter mais quantidade, d’agua e por isto talvez não tivesse ainda coalhado. Fui jantar com o Pe. Cícero a seu convite. Era jantar para mim e almoço para elle. Pe. Cícero é uma creatura modesta, simples, amavel e sem pretenciosidade, e vive metido em uma batina velha e suja, occupado unicamente no serviço de Deus ; passa dias e noites confessando e dando communhão a centenas de pessoas que em romaria vão á nova Jerusalem adorar o precioso sangue de Nosso Senhor Jesus Christo. A beata Maria de Araújo é uma rapariga parda, de 28 annos de idade,constituição fraca, braços descarnados e mãos pequenas. Sae pouco de casa para não ser perseguida pelo povo que já a considera santa, tendo havido quem já a procurasse para beijar-lhe os pés. Ninguem pode avaliar o numero de romeiros, que em grupos, a pé e a cavalo, descalços e bem trajados, deste e dos Estados vizinhos, teem passado por esta cidade e Missão-Velha em direção ao Joaseiro, e voltam tão certos e convencidos de verem o sangue de Christo, que não admittem a menor observação ou contestação.Já me tinha esquecido de mencionar que depois de meo ultimo exame o Pe. Laurino abrindo a caixinha de madeira, sobre a qual está colocado o sacrario, depositou nella o sanguinho com as particulas, vendo eu nesta occasião que a caixinha estava cheia de panninhos ensanguentados. Feixada de novo a caixa , o povo continuou a tirar com fitas e cadarços medida della. As cinco e meia horas da tarde regressei para esta cidade, e tratei de escrever estas notas para o meo uso, das quais tiro a presentecopia para oferecer ao Exmo. Sr. D. Joaquim José Vieira, muito digno prelado desta Diocese que mie as pediu e a quem permito fazer dellas o uso quelhe convier. Estava eu então na cidade de Barbalha, deste Estado. Fortaleza, 30 de junho de 1892. Assignado João Gomes de Hollanda
SEGUNDO INQUERITO
PRIMEIRA EXPERIENCIA
Aos vinte dias do mez de abril de mil oitocentos e noventa e dous, as sete horas da manhã, na Capella da Casa de Caridade, nesta cidade do Crato, Bispado do Ceará, estando ahi prezentes os Reverendos: Vigario Antonio Alexandrino d’Allencar, Manoel Ramiro dos Santos, Joaquim Sother d’Allencar, Quintino Rodrigues d’Oliveira e Silva, e os doutores, Marcos Rodrigues Madeira, Francisco Antonio de Oliveira Praxedes, Candido Alves da Nobrega, Coronel Joaquim Secundo Chaves e mais outra pessoas, deo o Reverendo Joaquim Sother de Alencar a sagrada comunhão a Maria de Araújo que conservou a bocca aberta por deseseis minutos, não tendo neste intervalo havido signal de sangue, nem tambem mudança alguma na sagrada forma, depois do que ordenou o Reverendo vigario Antonio Alexandrino de Allencar que a commungante fechasse a boca por um ou dous minutos e findo este praso mandou abrir a bocca a Maria de Araújo e verificou-se o que tinha dado quando ella conservava a bocca aberta, isto é, não appareceu ainda vestigio algum de sangue e ainda a sagrada forma emperfeito estado. É só depois de tudo isto foi que o Reverendo Vigario ordenou que a referida Maria de Araújo fizesse o possivel para consumir a sagrada hostia o que ella fez sem dificuldade. Finda esta primeira experiencia que fôra ordenada pelo Excellentissimo Senhor Bispo Diocesano, designou o mesmo Revarendo Vigario a mesma hora do dia seguinte para a Segunda experiencia de accordo sempre com as instruções dadas pelo Senhor Bispo. Releva notar porem todo o cuidado e toda vigilancia que foram empregadas no intento de evitar qualquer artificio ou dolo. É esta a expressão da verdade para o que assignamos (todos os citados acima).
SEGUNDA EXPERIENCIA
Aos vinte e um dias do mez de abril do anno de mil oitocentos e noventa e dous, as sete horas e desesseis minutos da manhã, na Capella da Casa da Caridade do Crato, bispado do Ceará, onde se achava então a Senhora Maria de Araújo, ahi compareceram o Reverendo Vigario Antonio Alexandrino de Allencar, commissionado pelo Sr. Bispo Diocesano Ver. Manoel Candido dos Santos, vigario de Barbalha. Joaquim Sother de Allencar, capellão da referida casa, Revr. Quintino Rodrigues de Oliveira e Silva, Dr. Marcos Madeira, medico, Francisco Antonio de Oliveira Praxedes, juiz de direito, Ten . Cel. Joaquim Secundo Chaves, pharmaceutico, a convite do Reverendo. Vigario da Freguesia e mais outras pessoas como os senhores Joaquim Telles de Marrocos, Aarão Julio rodrigues Madeira e outros e sendo ahi, o Ver. Joaquim sother de Allencar deu a communhão a Maria de Araújo que conservou a bocca aberta por vinte minutos, não tendo havido nesse intervalo signal algum de sangue, nem alteração alguma na sagrada hostia humedeceo no lado esquerdo della em um millimetro de largura por dous centimetros da extensão mais ou menos; ficando a outra parte da particula em perfeito estado e sem dissolução e sempre em adhesão a língua. Depois do que fechou a bocca durante sete minutos e abrindo-a em seguida notouse que a parte humedecida do que já fallou-se, se tinha dissolvido estando porem em perfeito estado a outra parte. E logo Maria de Araújo recebia ordem de consumir a particula o que se deu sem dificuldade; relevando então que ficarão alguns fragmentos quando de novo abriu a bocca e que foram consumidos pela preferida senhora.. Findo o que o Reverendo Vigario. Designou a mesma hora do dia seguinte para Ter lugar a terceira experiência de accordo sempre com as instruções dadas pelo Excellentissimo e Reverendissimo Senhor Bispo Diocesano. Para constar, lavrou-se este auto que assignamos. (todos os citados acima)
TERCEIRA E ULTIMA EXPERIENCIA
Aos vinte e dous dias do mez d’Abril de mil oitocentos e noventa dous, as sete horas e quinse minutos de manhã, reunidos na capella da Casa de Caridade nesta Cidade do Crato, Bispado do Ceará, os Revdos: Antonio Candido dos Santos, vigario de Barbalha, Joaquim Sother de Allencar, capellão da referida casa , E comparecendo a meu convite o Revdo. Quintino Rodregues de Oliveira e Silva, Dr. Marcos Rodrigues Madeira, Francisco Praxedes, Ten. Cel Joaquim Secundo Chaves, Aarão Julio Rodrigues Madeira e outros, e sendo ahi o Reverendo Capellão da Casa deu a sagrada communhão a Senhora Maria de Araújo que conservou a bocca aberta por quinze minutos, não tendo apparecido na particula consagrada vestigio algum de sangue; estando esta em dous centimetros de extensão do lado esquerdo completamente humedecida e em via de dissolução e a outra parte della adherida a lingua e humedecida. Depois do que Maria de Araújo fechou a bocca por cinco minutos e abrindo-a depois notou-se que a particula estava nas mesmas condições sem que tivesse nella apparecido nenhum signal de sangue; fechando-a de novo a bocca por tres minutos e depois abrindo-a verificou-se que as especies do lado esquerdo de que já fallou-se estavão dissolvidas e a outra parte apenas humedecida. Findo isto Maria de Araújo tractou de consumir a particula e encontrando dificuldade e sentindo vontade de vomitar pediu água que lhe foi recusado; obstante insistiu mostrando ainda signal de vomitar, pediu agua para ver se podia consumir a referida particula e chegando agua a bocca encontrando ainda dificuldade tomou ainda agua que so assim pode consumir a particula pois reapparecia sempre o desejo de vomitar. Nada mais tendo se dado, o Reverendo Vigario julgou concluida esta experiencia, ordenada pelo Senhor Bispo Diocesano. Para constar lavrou-se este termo que assignamos (os mesmo ).
INQUIRIÇÃO DE TESTEMUNHAS Á RESPEITO DOS FACTOS DO JOASEIRO
Cel. Juvenal de Alcantara Pedrosa, natural desta freguesia do Crato, casado, comerciante e propietario, morador nesta cidade, quarenta e nove annos de idade, testemunha jurada dos Santos Evangelhos em um livro delles em que pos sua mão direita e prometteo dizer a verdade a verdade do que soubesse e lhe fosse perguntado sobre os factos occorridos na Povoação do Joaseiro, sendo inquerida disse: Qua ao tempo em que se vulgarisou a historia da hostia sanguenta por occasião da communhão da Beata Maria de Araújo, foi ao povoado do Joaseiro e lá entendera-se com o Padre Cícero, de quem forma o mais elevado conceito, e este a confirmára, accrescentando mais tantos outros factos extraordinarios mas, não bastando-lhe esta affirmativa para firmar sua convicção pedio-lhe que admittisse opportunamente na Capela do Sacramento, onde communga aquella beata, afim de verificar com seus proprios olhos a reprodução daquelle facto, no que foi satisfeito, sem que, nos dias em que assistio a communhão se desse cousa alguma que o surpreendesse. De outra occasião em que se achava na Capella, aguardando algum facto que pudesse ser esclarecel-o lhe foi appresentada uma hostia retirada da bocca da alludida beata, completamente ensanguentada sobre pannos, tambem ensanguentados. Mas ainda assim meu espirito recusava-se acceitar o facto como sobrenatural por isso neguei-me a attestal-o, como me foi pedido e o fiseram diversas pessoas. Externando minhas duvidas sempre que deste e de outros factos se fallavam em minha presença, fui convidado pelo Dr. Marcos Rodrigues Madeira, medico aqui residente para com elle exaninar a beate, , depois do que..... mesmo Doutor hovera de convecer a elle testemunha dos milagre e o attestado por escripto, como elle o havia feito diversas veses. Passe esse sxame que tanto desejava pelo qual .......interesse ........ ......... .......... ............ desta cidade na madrugada da primeira 6ª feira de maio do anno passado, chegando a freguesia mais ou menos pelas quatro horas da manhã. Depois não fisemos demora em casa de um amigo a quem ...... de accomodar os animais em que montavão, seguiram, elle Coronel e Doutor Madeira para a residencia do Pe. Cícero,onde estiveram em conversação com Monsenhor Francisco Rodrigues Monteiro até as seis horas mais ou menos, quando chegou o referido Padre de uma confissão que tinha ido fazer á duas legoas d’aquelle povoado. Expostos ao Pe. Cícero os motivos da viagem de ambos até ali, disse-lhe elle que ia consultar a beata e que por isso deviam esperar. Pouco tempo levou nessa consulta, voltando mandou-os entrar. Ao chegarem no alpendre da casa, onde já se achava a beata, tomaram posição em frente d’ella ficando o Pe. Cícero a dous passos encostado a parede. Examinada a Beata pelo Doutor Madeira, e consultando este a elle testemunha se estava satisfeito, e tendo esta respondido negativamente, foi-lhe dada a faculdade de examinar tambem. Passando a fazel-o pedio que tivesse a bondade de escarrar, o que ella fez mas de um modo pouco natural , pelo que elle testemunha la exigio que o fizesse, procurando expellir o catarro do pulmão, como se faz naturalmente, o que conferido atirou ella sobre os tijolos do ladrilho sangue vivo sobre o qual poz elle testemunha o pé para evitar que esta circunstancia fosse ppresenciada por uma mulher trajando seda preta que se achava ao alcance da vista. Então mandou que ella limpasse os labios tambem ensanguentados, e fez sentir aos dois companheiros testemunha que o facto ... da hostia ensanguentada estava explicado naturalmente, ao que respondeo-lhe o Pe. Cícero de que era hora de dar comunhão aos fieis que esperavam na Capella. Para alli se dirigiram ao lado da beata. Neste pequeno trajeto da casa para a Capella, elle testemunha no intuito de tranquilizar o Doutor Madeira que se achava visivelmante cortrariado, dise-lhe ao ouvido que não fallaria que tinhão presenciado, tanto maisquanto lhe pareciam estarem terminados os milagres com a descoberta a que havia feito e até porque estavam no dia da Ascenção do Senhor. Ao chegarem a Capella ajoelhou-se a referida beata no centro do lado esquerdo da entrada e elle testemunha com o Doutor Madeira em sua frente, para evitarem aglomeração do povo e melhor verificarem a particula por ocasião da communhão. Annunciado o momento para isto, sbriramespaço a passagem do Pe. Cícero e por este foi depositada a particula na lingua da beata que em seguida cobrio o rosto com o manto. Vinte minutos depois voltou o Pe. Cícero, ajoelhou-se diante da beata, orou e ordenou a esta beata que botasse a língua de fora; sobre a qual verificou elle testemunha a psarticula dobrada ao meio com alguns coagulos de sangue preto. Tres veses ordenou que recolhesse a língua outras tantas que botasse de fora, retirando na ultima a particula que depositou em um saquinho que cobria a salva. Esta particula assim na salva, fôra dado ao povo para beijar por um Padre desconhecido delle testemunha.Depois desta scena que o encommodou, convidou a seo companheiro o referido Doutor Madeira e poz-se com elle a caminho para esta cidade, convencionado ficou em segredo tudo quanto haviam presenciado. Assim porém, não entendeu porque o referido Doutor deixou escapar no historico que fazia do exame daquelle dia, alguma cousa que descobrisse a verdade, e elle testemunha por sua vez, preveniu de tudo a mulher, filhos irmãos e a um amigo em quem deposita confiança. O que fica dito é o quanto elle testemunha sabe a respeito da hostia sanguenta, salvo uma a outra circunstancia de pequeno valor que lhe podesse Ter escapado nesta exposição. Disse mais que para verificar o recente facto de derramamento de sangue das imagens do crucificado, esteve na Povoação do Joaseiro nos dias 5 e seis do corrente mez. Que no primeiro daquelles dias, pelas oito horas da noite, mais ou menos, foi chamado para assistir na casa da Beata Soledade, a uma cruuuuuuuuuuuuuucifixo derramando sangue, e ali comparecendo, quando já havia crescido numero de pessoas para examinal-a, uma senhora passou-o às mãos delle testemunha que o examinou attentamente e detidamente, verificando que havia sangue ou outra substancia corada já secca entre o resplendor e a cabeça da imagem, bem como nas partes mais salientes do mrtal de que é feita, não havendo vestigio desta substancia nas depressões do metal produzidas pelos cravos. Que entre a fronte de uma e outra imagem de metal branco que lhe foi apresentada a pequna parte de uma hostia que ali se acha ligada a um corpo estranho de côr mais escura que o metal, e a da referida parte da hostia. Esta hostia lhe affirmaram Ter sahido da cabeça da imagem de metal massiço e fora tirada pelo Pe. Cícero ficando aquella parte que pode ser separada. No segundo dos mencionados dias foi ainda chamado para presenciar na Casa do Pe. Cícero quatro crucifixo, tambem de metal que estavam deitando sangue pelas chagas. Eram oito horas da noite; ao chegar estavão estas imagens sobre a meza em que há um Sanctuario, dizendo-lhe o Doutor Madeira que ahi se achava, que uma dellas que indicara-lhe com o dedo fôra por elle limpada do sangue que cobria examinando-as com attenção, verificou que as tres, que não havia sido limpas conservavamuma substancia corada em estado liquido nas juntas em que havia maior porção e secco nos que apenas havia passado.Logo no primeiro golpe de vista pareceo-lhe ver o liquido escorrer pelo corpo da imagem mas applicando bem sua attenção verificou o engano da vista produzido pelo effeito da vela que tinha na mão, batendo em cheio no metal amarelo e limpo e este reflectindo atravez do liquido. Para ver se o facto reproduzia encarregou-lhe o Doutor Madeira de guardar com a vista aquellas imagens, o que fez elle testemunha por espaço de tres horas, não consentindo que fossem retiradas do lugar em que se achavam, nem mesmo tocadas. Mas apesar das preces que estavam fazendo os Padres, conforme disse o Doutor Madeira, o facto da exsudação da imagem não se reproduzio. O alludido Doutor Madeira e outras pessoas, que elle testemunha considera competentes affirmaram-lhe que aquelle liquido era sangue humano embora de mulheres hystericas, mas que, na opinião delle Doutor reina epidemicamente naquelle Povoado. E por nada mais saber nam lhe ser perguntado, deo o Reverendo Vigario e Juiz Commissario por findo este depoimento que, depois de lido e achado conforme, o assignou commigo o juiz commissario e Vigario desta Freguesia do Crato aos nove dias do mez de Agosto de mil oitocentos e noventa e dous nesta cidade em casa de residencia minha.O Vigario Antonio Alexandrino de Alencar, Juvenal d’Alcantara Pedrosa. Reconheço a firma supra ser do proprio signatario por ter assignado este documento em minha presença e ter della inteiro conhecimento.Ita in fide parochi.Crato, 9 de agosto de 1892. O vigario Antonio Alexandrino de Alencar. Em additamento disse mais elle testemunha que tendo serias duvidas a respeito dos factos do Joaseiro antes mesmo de verifical- os, as veses acreditava ser um meio de que se servia o Pe. Cícero Romão Baptista para manter a Fé, como ouviu dizer Mons. Francisco Rodrigues Monteiro, em um sermão nestes termos: “Tudo é feito para manter a fé”, sermão que coincidiu, se não lhe falha a memoria, com a vulgarização dos factos do Joaseiro. O vigario Antonio Alexandrino de Alencar – Juvenal de Alcantara Pedrosa. Reconheço a firma supra ser do proprio signatario por ter assignado este documento em minha presença e ter della inteiro conhecimento. Crato, 20 de agosto de 1892. O vigario Antonio Alexandrino de Alencar. INQUIRIÇÃO DE TESTEMUNHAS A RESPEITO DOS FACTOS DE JOASEIRO João Baptista de Siqueira Bacharel em Direito , natural de Pernambuco, casado, quarenta e oito annos , juiz de direito, testemunha jurada dos Santos Evangelhos etc... , Quando se propalou a noticia que no povoado do Joaseiro se estavadndo o facto extraordinario de tornar-se sanguinolenta a hostia que, por occasião de commungar, recebia a Beata Maria de Araújo, accodiamme duvidas naturais a respeito e procurei certificar-me da verdade ouvindo a respeito as pessoas que visitavam aquelle lugar ou povoado.Colhidas as necessarias informações fiquei desde logo convencido que não se tratava de milagre mas de um facto natural explicado pela sciencia, uma vez que se dava em uma mulher doente e histerica. Uma pessoa natural desta cidade o Coronel Juvenal de Alcartara Pedrosa, que vio a Beata em casa do Revdo. Pe. Cícero Romão Baptista, estando o mesmo presente e Dr. Marcos Rodrigues Madeira. Pedio ao referido Padre para fazer algumas observações na mencionada beata, e sendo-lhe isto concedido rogou a mesma que escarrasse e obedecendo esta espelliu uma posta de sangue, ficando-lhe a lingua coberta do mesmo. O Doutor Marcos Rodrigues Madeira que a tudo assistio e que já havia dado attestado a favor do milagre, chegou a pedir ao mesmo Coronel que não divulgasse o facto pois em suas mãos estavam os seus creditos de medico. Pouco depois disto o Dr. Madeira confirmava-me tudo dizendo-me tanto abatido que estava triste com as ultimas observações feitas na beata, notando-se que o sangue que nella vira não era rubro mas preto e espesso; tomou-me para testemunha do que vinha declarar para os factos ficassem esclarecidos. Disse-lhe então que ficava-lhe feio fazer uma retratação mas Madeira fallou neste sentido a outras pessoas. Tambem o Doutor Ignacio deo attestado em favor dos milagres do Joaseiro mas retratou-se depois dizendo havel-o dado para não ser apedrejado pelas turbar inconscientes. Muitas outras circunstancias vieram me trazer a certesa de que o facto era todo natural. Há poucos dias ouvi ainda o Doutor Madeira dizer que no Joaseiro havia uma verdadeira epidemia de mulheres histericas... Devo ainda declarar que o Doutor Madeira e o Coronel Juvenal conversaram algumas veses juntos a respeito dos factps, fortalecendo-me na certesa do que elles tinham observado..... disse no principio, isto é, que a beata era uma doente alludindo ao facto já referido que se deo na presença de ambos. Na minha casa presente o cidadão Ottami Saldanha Maia Doutor Madeira, fazendo algumas...... referio-se a beata dizendo não estar satisfeito com os exames anteriores e....... que observou depois ora negro e espessoa do sangue. Quando isto affirmava já o seu attestado corria mundo. Seria enfadonho diser aqui tudo quanto ouvi sobre os factos de Joaseiro, as historia eram tão diversas e tão variadas que fasiam admiram. E por nada mais saber, etc Crato, 9 de agosto de 1892.
CERTIFICO QUE OS PRESENTES DOCUMENTOS FLS. 1 A 121 ESTÃO CONFORMES OS ORIGINAIS QUE FORAM REMETIDOS PARA ROMA. CAMARA EPISCOPAL DO CEARÁ. 4 DE MAIO DE 1893. PADRE CARLOS ANTONIO BARRETO,SECRETARIO DO BISPADO.
CARTA DO DR. IGNÁCIO DE SOUSA DIAS
Exmo. Rvmo. Snr. D. Joaquim José Vieira ,
Com a presente respondo a prezada carta de V. Exa. Rvma. De 11 de outubro do corrente anno em que pede minha opinião sobre factos occorridos com Maria de Araújo na povoação do Joazeiro e na casa de caridade do Crato sobre os quais já emmiti meu juízo em um attestado e relatório, que fazem do processo ali instaurado sobre ditos fatos. É verdade que assignei ditos documentos considerando os mesmos factos como sobrenaturais; mas sou forçado a confessar em vista da importancia da materia e da necessidade que tenho presentemente de sobre elles dar a V. Excia. Rvma. Informações que se acham de accordo com minha convicção a respeito, que o fiz sem os necessários dados e somente pela especialidade das circunstancias em que me encontrei. Convidado pela commissão de Inquerito para dar meu parecer sobre os factos em questão, acceitei a incumbencia, convecido de que pela mesma commissão me serião facultados todos os meios de exames tendentes ao descobrimento das causas phisicas que o produzião, mas assim não aconteceu porque: 1º o exame teve lugar na capella e em um quarto da Casa de Caridade do Crato, onde além da falta de luz eu e meu collega Dr. Marcos Rodrigues Medeiros nos achavamos cercados de uma multidão de pessoas de todas as classes, cujo interesses em que os mesmos factos fossem declarados milagres as levava a introduzir no acto a maior desordem e confusão. 2º tratando-se de observar e examinar um phenomeno que occorria em uma particula depois de consagrada nos foi negada pelos presentes a permissão de tocal-a, proval-a e submetel-a aos processos de exames, succedendo o mesmo com o exame procedido por occasião do extase de Maria de Araújo em cujo corpo não foi permittido proceder as devidas investigações. Findos, pois, ditos exames encontrei-me em completa duvida e portanto sem as necessarias habilitações para emitir meu juizo, o qual todavia me era pedido pela commissão de Inquerito. Tendo fortes razões de receiar desacatos de um povo cujo fanatismo tranluzia em todas as suas acções e palavras procurei informar-me melhor do meu collega Dr. Marcos Madeira, que sendo rezidente ali tem accompanhado os referidos factos desde o seu começo, presenciando-os e examinando-os por diversas vezes. Este infide(?) medico(?) ..........garantiu que eu podia sem escrupulo affirmar o se contem nos documentos de que nos occupamos resolvendo-me assim assignal-os. Hoje que todos nos achamos habilitados para formar juizo sobre factos identicos occorridos na União e no Aracaty, os quaes prendem-se perfeitamente aos do Joaseiro e Crato posso assegurar a V. Excia. Rvma. que muitas razões há para divulgar-se da sobrenaturalidade dos occorridos nestes ultimos lugares e que parece haver capricho em offuscar a verdade nos factos que a sciencia ea razão podia explical-os bem examinados. Enquanto posso declarar a V. Excia.Rvma. sob quem com respeito e consideração me assigno. Servo humilde e admirador Obrigado criador .Ignacio de Sousa Dias, Icó, 16 de outrubro de 1892
CARTA DO DR. MARCOS RODRIGUES MADEIRA AO BISPO
Exmo. Sr. D. Joaquim M. D. Bispo do Ceará,
Corre-me o dever de accusar o recebimento da interessante carta que approuve a V.Excia. dirigir-me a 15 de novembro (?) p. passado e que só me veio as mãos há poucos dias. Sua lucida exposição, só convenceu-me do consciencioso dever que incumbe a V. Excia. de prestar á Santa Sé minunciosa informações a cerca dos factos succedidos com Maria de Araújo no Joazeiro, nesta cidade do Crato; tambem evidenciou-me a razão de ser dessa liberdade, que V.Excia. allega de dirigir-se a mim para pedir-me alguns esclarecimento a tal respeito. Não posso portanto deixar de ser grato a fineza com que V. Excia. me penhora, mas as, proprias emoções da gratidão não me permitem desconhecer a delicadeza do cavalheirismo para deslumbrar-me com a presumpção orgulhosa de estar habilitado para enunciar juízo scientifico sobre a natureza e origem de taes factos, de modo que possa satisfazer plenamente a V. Excia. Embora a suscinta exposição que V. Excia. mesmo fez d”esses factos com algumas de suas respectivas circunstancias, excede os limites de um simples attestado,e não pode deixar de ser objecto de longas explicações pessoaes, o intrincado complexo de meo primeiro attestado de 28 de março de 1891, elogiado por ter causado sensação immensa em todos os lugares onde chegou; o segundo de 2 de maio do mesmo anno, pelo contrario, accusado de desfazer as impressões do primeiro e de firmar outra convicção. A esmagadoura allegação da inquietação ou agitação de Maria de Araújo em uma de suas communhões; a opposição formal do silencio absoluto das causas determinantes, a solmne affirmação do testamento e do exame de alguns factos succedidos com ella, a duvida si estudos posteriores me confirmão na opinião já enunciada, ou si já modificarão meu modo de pensar a tal respeito e muitas outras circunstancias que qllega V. Excia., tudo isso, como já disse, excede os limites de um attestado, e não pode deixar de ser objecto de longas explicações pessoaes, feitas a V.Excia., depois do que seria por mim feito um minucioso relatorio, segundo as bases estabelecidas por V. Excia., o qual relatorio viria dar o criterio da verdade de que tanto na immensa universalidade das cousas, como nos factos especiaes do Joaseiro é um só. Comprehendo tambem que estando a causa affectada á Santa Sé e sorestando aV.Excia. o recurso de enviar a Esta o processo com documentos que possam lançar luz sobre acontecimento tão delicados, não dispensará por certo o meo depoimento, depois de longa conferencia com V. Excia., depoimento este, que por si só poderá ser um processo e elucidar a questão, visto como de perto e circunstanciadamente tenho observado todos esses factos deste desde o começo até agora. Para esse fim é preciso ir a capital onde terei que consultar ainda alguns livros, que aqui não tenho, afim de me orientar melhor com relação a explicação de certos factos e poder com segurança e criterio emitir minha opinião segundo os dictames da minha consciencia embora com isto possa desagradar a alguem. É por isso que lembra a V. Excia. a necessidade da minha ida ao Ceará, pondo ahi a minha disposição a quantia de 2000$000 (dois contos de reis) que me habilite a fazer a viagem até esta capital e me compense dos prejuizosda minha clinica nesta cidade, o que V.Excia.não poderá extranhar e achará razoavel. Aguardo pois decisão de V.Excia. e a opportunidade de prestar-lhe os meus diminutos serviços profissionaes, desde que não sejam elles de encontro a verdade e a minha consciencia. Com esta sinceridade que devo ao cargo, tambem vos confesso ser com toda, veneração, de V. Excia.humilde servo e admirador, DR.Marcos Rodrigues Madeira, Crato,25 de janeiro de 1893.
SEGUNDA CARTA DP DR. MADEIRA
Exmo. Sr. D. Joaquim,
Recebi a vossa segunda carta na qual me pede para responder diversos quesitos com relação aos negocios occorridos no Joazeiro. Vejo o que dizeis com relação ao que vos communiquei na minha ultima. Mantenho e reitero tudo o que vos disse na outra carta e nesta me cabe acrescentar, senão que muito sinto não poder prestar -vos as informações e esclarecimentos pelo modo que quereis. Si sois bispo e como tal tendes necessidade de prestar as informações a Santa Sé, eu tambem sou médico . (ainda que muito obscuro) e como tal tenho muita responsabilidade e minha reputação a zelar em um negocio de tanta monta e para satisfazer-vos torna-se imprescindivel a minha ida a Capital si julgardes que em alguma cousa posso ser util para esclarecer e encaminhar a opinião dos que estão ao longe Sem motivos para mais, aqui termino desejando-vos saude e paz. Sou com sentida estima e consideração, Dr. Marcos Rodrigues Madeira.
CERTIFICO QUE AS DUAS CARTAS SUPRA ESTÃO CONFORMES AOS ORIGINAIS DE QUE FORAM FIELMENTE COPIADAS.O REFERIDO É VERDADE E DOU FÉ. CAMARA EPISCOPAL DO CEARÁ, 4 de maio de 1893, Pe. Marcos Antonio Barreto.Secretario do Bispado.
CARTA DO PE. FELIX AO REITOR NO MARANHÂO
Meu caríssimo Snr. e Mº. Vice – Reitor,
Outro dia escrevi a V. Rvma. dando-lhe parte de minha volta do Maranhão e hoje a faço outra vez, visto como em uma Carta de V. R. ao Pe. Ignacio se lembra de mim e me recommenda o cuidado de não fazer milagres. Mais de uma vez disse a V. R. qual o meu modo de pensar relativamente aos acontecimentos de Joaseiro. No principio quando as cousas permanecião sob o sigilo da prudencia, eu me inclinei a acreditar, mas depois que o Monsenhor Monteiro do alto do pulpito revelou e convidou o povo do Crato para ir ao Joaseiro ver e adorar o precioso sangue de Jesus Chisto, acentuando-se dali em diante os factos cada vez mais, capciosos, desmontados da verdadeira prudencia na direção das almas, desde então retirei minha crença. E minha incredulidade subio de ponto desde que vi calcada aos pes a obediencia devida ao Sr. Bispo cuja boa fé se procurou illudir. E quando tudo isso não fosse bastante para esclarecer minha crença, bastava saber que V. R. era de opinião contraria a taes acontecimentos, para eu não me illudir mais, pois ainda vejo em V.R. o meu mestre e o meu guia, de cujos ensinamentos pretendo não afastar um til. E se de longe e bem longe eu já não acreditava em taes factos, hoje então que me acho perto e bem perto, é que não só não acredito, sinão tambem estou indignado vendo as cousas como se derão, e entrando no conhecimento minuciozo das circunstancias que revertião os extraordinarios acontecimentos. Si o Sr. Bispo não tivesse tomado providencias energicas que tomou, por certo teriamos que lamentar uma desorganizaçao geral nas conciencias e verdadeiras allucinaçoes sobretudo no espirito fraco das mulheres. Com franqueza digo a V.R. que nunca vi tanta falta de tino e predencia, como muitos padres do Cariry, relativamente a direcção espiritual destas pobres mulheres que se disem santas.. Si V.R. soubesse que o Monsenhor gastava as vezes 3, 4 e mais horas com uma Santa! Que elle tinha na Caridade deixando a revelia o seu Seminario, não se admiraria muito? E que seria se V.R. soubesse mais que antes dos extases desta santa, primeiramente o Monsenhor cuxixava no ouvido della? Como aconteceu em um retiro que eu fazia na Caridade; em uma conferencia publica, elle chamou-a para junto de si e depois de dizer-lhe alguma couza ao ouvido ella cahio em extase diante de todo o povo e neste extase, sem sentidos, com os olhos grillados para o Crucifixo, o Monsenhor mandou debaixo de obediencia, que ella falasse onde estava; ella respondeu que estava no Purgatorio... e nesta occasião declarou que uma moça que morava na Caridade tinha estado resando meio dia no Purgatorio... Então? E mais ainda, a tal Maria de Araújo, em lugar de ser provada na casa de Caridade, como o Sr. Bispo mandou, foi pelo Consistorio, alli tratava com todo mimo, fazendo em tudo sua vontade, e d’alli voltou porque em casa a mãe lhe aguardava e mesmo o Joazeiro não podia passar sem ella... E dizer que mesmo a noite ia ao Seminario conferenciar com os Padres para tranquilizar seus vexames... e isto contra a ordem da Caza... Finalmente, carissimo pai e amigo, é uma couza assombrosa. As mulheres do Joazeiro são privilegiadas, haja existir 4 santas, e todas fazem a mesma couza... E os Padres acreditam em tudo...Nunca vi Padres tão faceis em acreditar en mulheres...Deus nos acuda!!....Domingo passado preguei na Matriz contra estes abusos e phanatismo do Joazeiro. Clamei contra aquelles que recusão o Sr. Bispo cumprio seu dever e tinha obrado com toda prudencia.- enquanto estiver por aqui clamarei contra estas couzas. Felismente sou bem conhecido neste Cariry. Por tanto, fique V. R. sem recei a meu respeito. Dos filhos de S. Vicente eu aprendi tudo, e não me afastarei nunca daquillo que me ensinarão. Estou com vontade voltar breve para o Maranhão, diga-me alguma cousa neste sentido. Sem mais por ora, peço a V.R. que digne abençoar ao de V.R. filho espiritual e amigo, Pe. Felix, Crato, 25 de janeiro de 1893.
CARTA DO PE. FELIX AO BISPO
Exmo. E Rvmo. Sr.
Cheguei no Crato completamente abatido, em consequencia da grande constipação que soffri nessa Capital; isso porque não escrevi a V. Excia. Rvma. d’aquella cidade, apezar do muito desejo que tive de levar ao conhecimento de V.Excia. algumas particularidades que se derão alli, por occazião da leitura da Pastoral de V.Excia. E tendo necessidade de seguir logo para o Triumpho, reservei-me para a fazer daqui. Começando pelo Dr. Madeira, este ficou bastante massado com V.Excia. pela interpretação que V.Excia. deu ao seu attestado, na parte que se referia aos encommodos de Maria de Araújo depois de ter commungado porque diz elle que ella soffreu taes enccomodos em consequencia de ter commungado a descoberto, e se achar em prezença de tantas testemunhas que a fiscalizavam de perto etc... Disse mais que só não discutia com V.Excia. pela imprensa porque não podia. José Marrocos ficou como um cão damnado, querendo morder a todos queaplaudião a Pastoral de V.Excia. O Monsenhor Monteiro por por sua vez discutia com qualquer que se atravessasse em sua passagem. Lá no Joazeiro a explosão foi terrivel. Tres dias depois appareceu o Pe. Cícero no Crato, triste e abatido mas disposto a reagir, pois me disse o Ildefonso reservadamente, que elle Pe. Cícero, que consultaria consigo se devião ou não prostetarem contra a dita Pastoral, no que dizia respeito a elle Pe. Cícero e a Maria de Araújo. Mas o Secundo o aconselho que tal não fizesse. Não sei do resultado. Desconfio que Jose Marrocos conduzirá o Pe. Cícero ao fundo do abysmo. Deos nos acuda, Exmo. Sr. Pe. Monteiro vai continuamente a Missão Velha e la confessa Beatas do Crato e Juazeiro, que vão lá de proposito a confessarem.. Em Porteiras encontrei-me com o Cel.José Leite do Jardim o qual me disse que o Pe. Vicente Sother lera a Pastoral de V.Excia. na estação da Missa, mas quando tocou nos factos do Juazeiro, elle Pe. Sother deu um aparte dizendo: “E em conversação particular sustenta doutrina opposta a mesma pastoral. Deve V. Excia. lembrar-me que conversaria com o Pe. Vicente Sother sobre aquelle facto de Barbalha, e o que soubesse levaria ao conhecimento de V.Excia. Pois bem, vou cumprir dita promessa: Vindo do Crato para esta cidade encontrei-me no caminho com o mesmo Pe. Vicente Sother. Depois de conversarmos sobre os negocios de Joazeiro, eu, fingindo minha crença a tal respeito, pergunteu-lhe pelo facto de Barbalha, e me pedi que me dissesse a verdade. Respondeo-me que a particula não tinha esguichado sangue, como queria V.Excia. mas tinha vertido sangue pelo espaço de dois dias, e que tinha ensopado em sangue quartoze panninhos; e que disto tinha sido testemunha. Veja V.Excia. se foi assim que elle affirmou na Carta, que dirigiu a V.Excia.Já vê V.Excia. que elles não teem a divida coragem de dizer a V.Excia. o que sentem. Posso agora affirmar a V.Excia. que é certo, que o Pe. Cícero dera 3 veses por dia a communhão a Maria de Araújo, Maria das Dores, e Maria da Solidade, do seguinte modo: pela manhã a 1ª recebia tres particulas em honra a S.S.Trindade; a 2ª recebia cinco particulas em honra das 5 chagas e a terceira recebia 7 em honra das sete dores de N. Senhora. Ao meio dia repetião se as mesmas communhão e a tardinha o mesmo, vindo depois as ditas beatas jantarem em companhia do Pe. Cícero. É por causa desta liberalidade de communhão davão a severas queixas entre as outras beatas, etc...Termino aqui para tratar de outro assumpto. Senhor de Pernambuco concedeu-me as provisões para pregar e confessar no bispado; não quis porem nomear um vigario nesta freguesia sem que lhe appresentasse carta de..., como verá V.Excia. do officio junto. Não queria desligar-me do clero do Ceará, mas a vista da pressão que... o povo para que fique........ ......., resolvi fazer este sacrificio. Peço Por tanto a V.Excia.Revma. se digne mandar para mim a carta da ......., a fim de saptisfazer a exigencia do Sr. D. João. Si porem não for nomeado vigario para esta freguesia eu me retirarei ou voltarei para o Ceará. Sem mais peço a V.Excia. Revma. Se digne abençoar-me. De V.Excia. servo humilde, Pe. Manoel Felix. Cidade de Triumpho, 5 de junho de 1893.
CARTA DE IDELFONSO GURGEL NOGUEIRA AO BISPO
Exmo. Rvmo. Sr. Bispo Diocesano,
Solicito em attender o honroso appelo que faz V.Excia. a minha......pesoa a cerca do que foi por mim presenciado na povoação de Joazeiro, da freguesia do Crato, relativamente aos factos extraordinarios alli occorridos, venho offerecer-vos apenas a narração de um facto que presenciei duas vezes, do modo seguinte: dous ou tres dias de minha chegada naquelle lugar, dirigi-me para a Igreja, em dia util, aproximadamente as 11 horas do dia, para ouvir missa como era de costume entre os romeitos.... chegando a uma das janelas laterais da esquerda da Capella do Santissimo Sacramento vi o Revmo. Pe. Cícero ainda de... inclinado sobre o altar em posição que pareceu-me estar lendo o braviario; detive-me um pouco e presencie que aproximou-se delle, pelo lado esquerdo, uma beata com rosto coberto dum manto preto e esteve em confissão ou em conferfncia por cerca de cinco minutos, quanto o Pe. Cícero descançava a cabeça sobre os braços e com a maõ direita recebeu certo objecto que tinha a forma de uma particula e levou-o a bocca.... sem que pudesse eu distinguil-o com perfeição. Logo depois, levado pelo mesmo fim colloquei-me em outra janella lateral da mesma capella, e deitei logo vista o Pe. Cícero assentado no sopé ou degrau que sae capella mor, tendo a seus pés como que ouvindo a confissão uma beata que trajando de preto occultava o rosto em um longo manto; no lado direito grande numero de mulhares em oração e a esquerda muitos homens dentre os quaes se achava Dr. Marcos Rodrigues Madeira , como que depositando ensejo para deixarar aos pés do confessor um seo protegido. Na contemplação de tão bella scena demorei-me algum tempo e abri o chapeo de sol por não suportar o calor do sol; logo depois notei que o Pe. Cícero, com a mão esquerda, puchou o manto da beata até tocar em sua fronte, como para privar-se da vista dos circunstantes da esquerda, e levou a mão direita em frente(?), ficando parte dos dedos encobertos no manto da mesma.Empreguei então a mais cautelosa attenção e vi que o Padre deteve-se naquella posição por alguns segundos, firmando para ali os olhos com religiosos respeito, não tardou muito quando vi bem distintamente que sua mão razia uma particula de forma regular, a qual commungou com notavel recolhimento! Apoderado de uma religiosa impressão não duvidei ter visto uma das communhões miraculosas tão abundantes naquella terra. A isso acrescento que tive de ver a Beata Maria de Araújo commungar na casa de caridade do Crato e nenhum phenomeno deu-se nessa occasião, notei apenas que depois da missa quando o sacerdote Pe. Sother estava tirando os paramentos, collveara-se ao lado delle uma Beata, envolta num longo manto, e disseram-me ser a mesma Maria de Araújo; não lhe tirei mais a vista, mesmo ficando de costas para mim, e depois de dez minutos de conferencia, mais ou menos, notei que o sacerdote deitava sua benção sobre ella, que se retirou para o interior do estabelecimento. Nenhuma outro cousa que merecesse nota poude colher, em vista de achar-me alli em novembro de 1891, epocha posterior a que foi elaborado o processo Canonico sobre os factos extraordinario occorridos com a Beata Maria de Araújo e por conseguintes motivo suficiente para que não me fosse dado dado o prazer de observar mais os milagres, ora privados a vista do povo, conforme enformaram-me pessoas de fé e mesmo alguns dos sacerdotes depositarios dos maravilhosos acontecimentos então proclamados de milagrosos. Desta minha declaração poderá V.Excia. dazer o uso que convier e for de proveito aos esclarecimentos que tem de offerecer ao sabio juiso da Santa Sé, podendo desde logo e em qualquer tempo exigilo sob juramento aos Santos Evangelhos, a que mui humildemente me submeterei para confirmação da verdadeque cautelosamente escrevi nestas linhas. Aproveito a opportunidade para reitear os mais ardentes e sinceros protestos de respeito, veneração e estima a pessoa de V.Excia. Rvma. em quem a Igreja Cearense reune as mais assignatadas victorias na sciencia, na previdencia e nas virtudes. São Bernado das Russas, 3 de março de 1893. Ildefonso Gurgel Nogueira.
CEARA CIDADE DE UNIÃO
AUTOS DE PERGUNTAS A DIVERSAS PESSOAS
O escrivão ad hoc - José Casimiro Delgado Perdigão
AUTOAMENTO
Anno do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de mil oitocentos e noventa e tres, aos nove dias do mês de novembro nesta cidade na residencia do Reverendo Vigario Agostinho José de Santiago Lima, sendo ahi por parta do Revmo. Vigario das Russas, Pe. João Luis de Santiago, juis commissionado me foi entregue a Portaria que adiante se segue, a qual autoei na forma de estylo. Eu, José Casimiro Delgado Perdigão, escrivão ad hoc, o escrevi. Pela presente portaria nomeio escrivão para servir nas indagações a que o Sr. Bispo Diocesano D. Joaquim José Vieira me encarregou de proceder na cidade da União, ao Sr. José Casimiro DelgadoPerdigão, professor publico desta cidade. União. 9 de novembro de 1893, Vigario de Russas, Pe. João Luis de Santiago.
Termo de juramento ao escrivão ad hoc- José Casimiro Delgado Perdigão.
Aos nove dias do mês de novembro do anno do Nascimento de nosso Senhor Jesus Christo de mil oitocentos e noventa e tres nesta cidade da União, em casa de residencia do Reverendo vigario Agostinho José de Santiago Lima, ahi presente o Reverendo vigario da freguesia das Russas, Pe. João Luis Santiago, onde fui vindo eu escrivão ad hoc eabaixo assignado para prestar o juramento de estylo: Oque foi foi feito em um dos livros do Santo Evangelho, em que prometti desempenhar com boa e san cosnciencia o referido cargo no feito commissionado ao mesmo Reverendo vigario Luis Santiago pelo Excellentissimo Bispo Diocesano. E para constar lavrei este termo que assigno com o Reverendo commissionado.
Auto de perguntas feitas a D. MARIA DE JESUS DA NATIVIDADE REBOUÇAS
Aos nove dias do mês de Novembro de mil oitocentos e noventa e tres, nesta cidade da União, sendo ahi presente o Reverendíssimo Vigario das Russas, Padre João Luis de Santiago, juis commicionado, commigo escrivão adhoc, compareceu Dona Maria de Jesus da Natividade Rebouças, a qual foi deferido no juramento dos Santos Evangelhos, sob cuja fé deo as repostas seguintes:
Perguntada qual o seu nome, idade, estado e residencia?
Respondeo chamar-se Maria de Jesus da Natividade Rebouças, de desesete annos de idade, solteira, moradora no lugar do Corrego do Machado, desta freguesia.
Perguntada quais os factos que se deram nesta freguesia em dias de julho e começo d’Agosto do anno proximo passado quando aqui se achava o Reverendissimo Padre Clycerio da Costa Lobo, relativamente a aparição de particulas, extases, revelações, etc?
Respondeo quanto as particulas o seguinte: Que a primeira vez commungou pela manhã, foi a casa, almoçou e voltando a Egreja foi outra vez para a mesa de communhão e ahi recebeo nova particula que immediatamente tirou-a da bocca e foi leval-a ao Pe. Clycerio que a esste tempo se achava no confessionario disendo-lhe este que devia fazer uma tal entrega reservadamente para o publico não observar, e em seguida lhe perguntou para quem era aquella particula, respondendo ella que Nosso Senhor a mandara para elle commungar pla conversão dos peccadores. Que no dia seguinte commungou e logo depois foi a mesa da comunhão e recebendo nova particula deo-a ao Pe. Clycerio para commungar. Em outro dia recebeu duas particulas, cada uma de sua vez, tendo commungado uma dando a outra ao Pe. Clicerio este mostrou-a ao povo e mandou que adorassem, que Deus a tinha enviado para a conversão dos peccadores. Que ainda noutro dia recebeu cinco particulas commungando a uma e dando as outras ao Pe. Clicerio para que as commungasse, uma pelo padre cicero, outra pelo povo de Aracaty, outra pelo Limoeiro e a ultima já não se lembra por qual intenção. Em outro dia recebeu 6 particulas, commungando duas e entregando as demais ao Padre Clicerio para commungar, tres em differentes intenções inclusive a do Senhor Bispo e uma para ser commungda pelo vigario Agostinho, que immediatamente foi chamado, mandando este ao Pe. Clicerio que a colocasse no arrelicario e guardasse no Sacrario.
Perguntada, respondeo que costumava tirar as particulas da bocca com a mão occultando-as com o veo, sendo uma das vezes collocou uma sobre o peito e propositalmente cahiu. Respondeo ainda que cahiu por diferentes veses mas que via e ouvia tudo quanto se passava em torno de si, acontecendo que as mais das veses fasia-o de sua espontanea vontade, e que nunca teve revelações, apesar de nesse tempo que as tinha. Respondeo mais que por algumas veses, na occasião da elevação da hostia lhe parecia ver raios de luzes, que julga hoje ser engano de sua vista.
E como nada mais respondeo, nem lhe foi perguntado, etc...
Auto de perguntas feita a MARIA DA SOLIDADE DE JESUS
Aos nove dias do mez de Novembro de mil oitocentos noventa e tres nesta cidade da União, etc...
Perguntada qual o nome, idade, estado e residencia?
Respondeo chamar-se Maria da Solidade de Jesus, idade de vinte e tres annos, solteira, moradora nesta cidade da União.
Perguntada quais os factos que se deram nesta freguesia em dias de Julho e começo d’Agosto do anno proximo passado, quando se achava o Reverendo Padre Clicero da Costa Lôbo relativamente apparição de particulas, extases, revelações, etc. ?
Respondeo que nunca recebeo particulas mas que teve que ver e presenciar a Maria de Jesus da Natividade Rebouças tirar da bocca por diversas vess e as apresentava ao Padre Clicerio disendo ser para elle commungar em diversas intenções. Quanto aos extasis respondeo que sempre que orava, sobrevinha-lhe afflicções no coração, resultando disto cahir sem sentidos; mas que nessas occasiões ouvia chamarem-na, acontecendo que não podia responder, e só se levantava quando lhe eram restituídas as forças. Quanto as revelações respondeo que sempre lhe parecia ver na mente alguma cousa que contava ao Padre Clicerio e mais alguma pessoa, como por exemplo: Que existiam nesta Freguesia tres pessoas, uma que nunca havia se confessando e as outras duas fusião muitos annos que não o fasiam, e o coraçao lhe diisia que se mandasse chamar ditas pessoas para se confessarem. Que nunca ouviu anjos Nossa Senhora ou Jesus Christo que lhe dicesse essas cousas; mas que tudo com já dice, nascia de sua immigração.
Perguntava porque não denunciava ao Padre Clicerio quando vio Maria de Jesus tirar as particulas da boca?
Respondeu que uma vez perguntando-lhe se podia diser donde ellas tiravam as particulas que apresentavam, respondeo-lhe deste modo: “Pois ellas não dizerem serem Divinas e que Nosso Senhor é quem as manda?”
Isto deu lugar a que não tratasse mais sobre isto.
Perguntava porque depois da prohibição do Parocho não tinha mais tido os extasis ou cahidas?
Respondeo que havia feito um voto ao Sagrado Coração de Jesus para não soffrer mais este mal na Egreja e que sentava ou levantava-se quando sentia taes incommodos.
Perguntava respondeo que durante esse tempo pouco alimento podia receber, sentindo febre e grande abatimento em seu corpo e espirito.
E como nada mais disse, nem lhe foi perguntado, etc...
Auto de perguntas feitas a MARIA DE JESUS DO NASCIMENTO
Aos nove dias do mez de novembro de mil oitocentos e noventa e trez nesta cidade da União, sendo ahi presente etc...
Perguntava qual o seo nome, idade, estado e residencia?
Respondeo chamar-se Maria se Jesus do Nascimento, de cincoenta annos de idade, solteira, residente nesta cidade.
Perguntava quais os factos que se deram nesta freguesia em dias de julho e começo de agosto do anno proximo passado, quando aqui se achava o Pe. Clicero, relativamente a apparição de particulas, extasis e revelações, etc.?
Respondeo que nunca recebeo particulas de modo miraculoso, sabe sim que Maria de Jesus tinha recebido algumas disendo-se depois que Maria de Jesus tirava essas particulas de sua propria bocca quando comungava, tendo elle expoente commungava uma dessas particulas apresentava por dita Maria de Jesus Administrada pelo Rvmo. Pe. Clicerio estando ainda em jejum.
Perguntava sobre extases respondeo que nunca cahira, ficava sim em estado febril e sem sentido a ponto de nem ver e nem ouvir o que se passava pela preocupação de seu espirito que se achava empregnado somente de Deus, e isto acontecia na Egreja, em casa e em qualquer occupação, lhe parecendo ver nessas occasiões o Coração de Jesus e Nossa Senhora, as almas de muitos de muitos que haviam fallecido, como fosse de sua mãe, do vigario de Russas, Joaquim Domingues, Jão Vicente e outras.
Declarou mais que essas apparições e outras, como bem do Padre Eterno, Divino Espirito Santo, via por occasião de estar dormindo.
E por mais nada responder nem lhe ser perguntado, etc...
Auto de perguntas a DONA RAYMUNDA GUILHERMINA DE JESUS
Aos nove dias do mez de Novembro, etc...
Perguntado qual o seo nome, idade, estado e residencia?
Respondeo chamar-se Raymunda Guilhermina de Jesus, de vinte e seis annos de idade, residente no lugar Riacho desta freguesia.
Perguntada quais os factos, (igual as anteriores)
Respondeo que nunca recebeo particula de modo miraculoso, mas que numa ocasião ella não podendo confessar e nem commungar e achando-se contrariada com isso, uma moça de nome Emilia que soffria de extasis lhe dice que talvez ella commungasse melhor do que das mãos de um sacerdote e mais tarde na occasião da missa em que houve a communhão a dita moça lhe offereceo aas mãos dizendo que ali estava a hostia consagrada vindo pelos anjos, sem que visse ella cousa alguma, attribuindo ella respondente que não via por não estar em estado de graça. Declarou mais que vio Maria de Jesus tirar a hostia consagrada de sua propria bocca, apresental-a ao Rv. Pe. Clicerio, disendo-lhe que commungasse por esta ou aquela intenção. Disse tambem que muitas veses cahia sem sentidos na Egreja, em casa e até nos caminhos. Perguntada o que soffria nessa occasião? Respondeo que um grande arrocho no coração e dormencia em todo corpo, suppondo ser isto divido a grandes faltas commetidas por pessoas de sua familia que muito lhe contristam e quase sempre era atacada quando estava pensando nestas cousas, nunca porém nesta occasiões teve visões extraordinarias, e nem tão pouco revelações dos Anjos, de Nossa Senhora, etc. Podendo a penas mencionar que tendo passado uma noite na Egreja em oração com outras molheres, uma dellas lhe dice que os anjos estavam cantando, mas ella prestava attenção, não ouvio, apenas que certo sussurro que não lhe agradou; no dia seguinte porem estando em casa em casa ouvio algumas voses, não podendo affirmar se não seriam cousas extraordinarias. Declarou mais que algumas veses por occasião d elevação das hostias quando se estava celebrando a missa lhe parecia ver Nossa Senhora com os braços abertos estendidos a semelhança da medalha milagrosa; o que consultando o Revdo. Pe. Clicerio este lhe dice que isto não era possível, mas que reparasse melhor, o que fez ella colocar-se muito mais perto do altar a fim de verificar com cuidaddo o que tinha visto, e sommente vio crucifixo esculpido ou imprimido na hostia, suppondo ella que tudo isto seria filho de sua imaginação que se achava muito perturbada.
Nada mais respondeo nem lhe foi perguntado, etc........
CARTA DO PE. SOTHER AO BISPO
Em comprimento da ordem de V.Excia.Revma. a mim dada por intermedio do Revmo. Sr. Pe. Clycerio da Costa Lôbo e communicada em carta de Novembro proximo passado, determinado que observasse todos os acontecimentos que se dessem com Maria de Araújo durante a assistencia dela na Casa de Caridade de Cidade do Crato, a partir do dia da ausencia da Commissão, tenho a informar o seguinte: Desde o dia 4 de Outubro, dia em que regressou para o Juazeiro de volta para a Fortaleza a referida Commissão tive de observar sem novas circunstancias aquelle facto de ensanguentar-se a boca de Maria de Araújo, o que eu só podia observar depois da Missa, tambem no mez de outubro por diversas veses quando eu confessava a referida Beata, inexperadamente, mostrava-me ella particulas ensanguentadas, não sei precizar o numero de vezes que se deu isso.
No dia 7 de Dezembro tendo celebrado na Capella da Casa de Caridade e por ser um dia feriado no Seminario, ficando a confessar algumas pessoas, cerca de 9 para 10 horas fui avisado pela Superiora da Casa que Maria de Araújo estava deitando sangue das mãos, pés, rosto, etc. Determinei então a Superiora que ficasse sempre junto dela para observar tudo o que se passava; demorei-me ainda confessando, quando pelas 11 horas fui ver; não vi mais sangue a correr, notei somente vestigios de sangue já secco nas referidas partes. Outro facto semelhante a esse se deu no dia 17 de janeiro, eu não vi, não estava no Crato nesse dia, maschegando, Pe. Vicente Sother, que foi chamado para presenciar, me deu noticia delle, julgo que dessa vez deu-se sem circunstancias extraordinarias, e sim como das outras vezes. Por todo esse tempo que tem passado na Casa de Caridade, em um dia a vi soffrer um fortissimo imcommodo, que a fazia gemmer em voz alta, perguntando eu o que soffria, respondeu que uma grande dôr no estommago e grande afflicção. Achei tão grave o ataque que julguei ella morrer; as pessoas da casa me affirmarão que um ataque perdurou de 6 para 7 horas; por alguns outros dias algumas pessoas me informarão que soffreu incommodos tão fortes como aquelle. Eis o que pude observar e em consciencia posso informar a V.Excia. Rvma. Não sei se terei correspondido ao dezejo de V.Excia; estou prompto a dar quaisquer outras informações que V.Excia. julgar precizar. Affirmo que nestas minhas informações quis e quero tão somente narrar os factos que tenho observado. Fortaleza, 4 de fevereiro de 1892. Pe. Joaquim Sother d’Alencar.