REVOLUÇÃO DE 1914

 

O governador do Ceará, Coronel Franco Rabelo, passou a arranhar o Padre Cícero, por ele demitido do cargo de prefeito, em 1912. Para o substituir nomeou José André de Figueiredo, que não tinha em conta o Padre Cícero e não pôde administrar devido à ingerência de Floro Bartolomeu. Em Fortaleza, conseguiu que o chefe da segurança pública nomeasse delegado de Juazeiro o Tenente José do Vale. O violento delegado devassou a casa do Padre Cícero, no Horto, prendeu vereadores do partido do padre e os espancou. — Amália, p. 140-1.

Como é comum na política, o governador tinha sectários e oponentes, contado nestes o Padre Cícero. Uns e outros digladiavam-se. Dizia-se iminente o ataque de tropas do governo a Juazeiro.

Na verdade, as tropas chegaram a Crato. Floro Bartolomeu estava de regresso do Rio de Janeiro, aonde fora para entendimentos políticos com o Presidente.

Para prevenir o ataque das tropas rabelistas, o Padre Cícero pediu à população que cavasse um valado em certa extensão da cidade. Toda a população, — assim entendidos os que podiam trabalhar, de ambos os sexos e de toda idade, — compareceu ao trabalho.

Dia e noite rezando e cantando, trabalhavam as turmas, revezando-se para comer e dormir. À noite, as crianças ajudavam sustentando os candeeiros de querosene. Dia e noite, os homens cavavam e as mulheres retiravam a terra para o lado de dentro. Em 6 dias, 9 quilômetros de valados, em extensão, com 8 metros de largura por 5 de profundidade estavam terminados. O monte de areia jogada fora para o lado de dentro tinha de dois a três metros de altura, bombeado, numa distância de 3 m de um para o outro. — Amália, p. 152.

Ferido o combate, as tropas estropiadas encontraram entre si e o inimigo o intransponível fosso, o "Círculo da Mãe de Deus". Em poucas horas, deixaram a praça. Não lhes valeu a superioridade em homens e armas.

O governador entendeu como dever novo ataque a Juazeiro.

O Presidente (governador) mandara fundir em Fortaleza um pequeno canhão para atirar bombas de dinamite contra o inimigo, pedira armas e munição ao General Torres Homem, da Inspetoria Militar do Recife, e este mandou entregar ao governo 150.000 cartuchos "Mauser". — Amália, p. 160.

Marcharam novamente em busca do Juazeiro pela estrada dos Macacos (nome de um sítio).

Ensaiaram o canhão; os marretas (os que lutavam pela cidade) se distraíam vendo as balas voarem devagar sobre os telhados e gritavam: Chôo maldita. — Amália, p. 162.

Para desencorajar nova investida das tropas do governo, Juazeiro marchou sobre o Crato, uma e outra em armas.

Enquanto o Padre Cícero insistia em dizer "respeitem o que é alheio, tirem só o de que precisarem para matar a fome", o Dr. Floro não se cansava de classificar isto como "escrúpulos infantis" e dizia: "O vencedor tem direito ao que é do vencido." E lá se guiaram, rumo ao Crato, os combatentes. — Amália, p. 166.

Crato foi invadida e vencida em um dia — 24 de janeiro de 1914.

No dia 27, Barbalha foi tomada sem resistência.

A revolução ia-se propagando em rumo à Capital.

No dia 2 de fevereiro, Fortaleza despachou uma força de mais de duzentos homens sob o comando do Capitão do Exército José da Penha Alves de Souza, que faleceu em combate. Vinham a Iguatu, onde se daria o encontro com os combatentes de Juazeiro. No dia 15 de março, Fortaleza estava vencida e deposto o governador Franco Rabelo, para cuja derrota Juazeiro contribuiu validamente. Estava consumada a revolução, que passou à história como Sedição de Juazeiro. — Amália, p. 170-3.