DA QUESTÃO RELIGIOSA

 

Das respostas do Padre Cícero às perguntas do Bispo D. Joaquim José Vieira

sobre Maria de Araújo (Fortaleza, 17.07.1891)

Maria de Araújo era de compleição fraca e saúde debilitada, tendo, todavia, forças para ir a pé de Juazeiro a Crato (12km). Trabalhava em costuras e serviços domésticos. Tinha "ligeiras perturbações de estômago". O depoente (P. Cícero) era o confessor dela, desde os 8 ou 10 anos de idade, quando fez a primeira comunhão. P. Laurino, que estivera em Juazeiro por apenas 11 dias, viu 31 transformações de hóstias em sangue ou em carne; as partículas só eram deglutidas pela comungante depois da bênção de um padre, pelo que ele (P. Cícero) quis um padre como testemunha destes fatos. Que nesse período à beata chegavam a ser administradas até três comunhões diárias, daí o acúmulo de partículas (administradas, mas não comungadas). O povo acreditou que os fenômenos eram de caráter miraculoso. Maria de Araújo tinha êxtases, principalmente a partir de 1884, época em que ela sofria dos "antigos ataques nervosos". Os êxtases se davam tanto em particular, quanto em público. Das hóstias dadas por ele (P. Cícero) à beata Maria de Araújo, nenhuma se transformou em sangue e carne. Apenas uma vez ele tirou da boca da comungante uma hóstia "já em grande parte transformada em sangue, completando-se a transformação no côncavo da sua mão esquerda" (mão do P. Cícero). Que chamou o médico Dr. Marcos Rodrigues Madeira (segundo a pergunta, no dia 26.03.1891, quinta-feira santa) porque, naquele dia, a hóstia algumas vezes se transformara em sangue na boca de Maria de Araújo, fatos observados por "alguns padres e muitas pessoas", porém ele (P. Cícero), queria que um médico examinasse a beata depois de uma comunhão, para "uma prova mais robusta em favor da verdade do fato".


Da "Exposição Circunstanciada do Pe. Cícero" acerca de Maria de Araújo e dos fatos extraordinários (Fortaleza, 18.07.1891)

"DISPOSIÇÕES E PROVAÇÕES DE MARIA DE ARAÚJO" — Entre os 8 e os 10 anos de idade, Maria de Araújo já mostrava "as melhores disposições para a vida interior". Com 18 ou 19 anos, sofreu "graves tentações e perturbações de espírito, as quais todas convergiam para distraí-la da oração e inspirar-lhe receio das práticas de piedade, além de serem contrárias à Santa Virtude da castidade". "Algum tempo depois, mas pouco a pouco, vieram-lhe visões contrárias àquelas tentações e perturbações: inspiravam-lhe elas paz de espírito, animação e perseverança na oração."

"VISÕES DE MARIA DE ARAÚJO" — No princípio, e principalmente em 1880, "pareceu-lhe ver a SS. (santíssima) Virgem, mas não tendo então certeza disso", porém a visão era como de uma pessoa que "ora e inclina a cabeça em sinal de veneração". "É desta data em diante que apareceu-lhe Jesus Cristo mas da primeira vez de passagem e dirigindo-lhe duas ou três palavra de animação". A "visão tornou-se mais patente e Nosso Senhor mandou-lhe então que, depois de uma confissão e com a participação disso a seu diretor (espiritual, o P. Cícero), ela celebrasse com ele, isto é, com Jesus Cristo, mesmo um consórcio (casamento) espiritual". "Desde aquele fato Nosso Senhor se constituiu seu mestre e seu diretor: ensinava-lhe a orar, a ouvia mesmo de confissão, a preparava cada vez mais para a vida unitiva."

"DOM DA ORAÇÃO" — As reflexões de Maria de Araújo eram especialmente sobre a "Paixão de Nosso Senhor", que a ela ensinou jaculatórias, que ela somente poderia usar com autorização do diretor ordinário (P. Cícero). Jesus Cristo a orientou para não dar atenção a visões de ordem nenhuma sem dizer "Louvada seja a Sagrada Morte e Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo".

"COLÓQUIOS" — "Os colóquios que ela (Maria de Araújo) entretinha com o Divino Esposo eram tais que, com muita propriedade se podiam comparar com o dos Cânticos dos Cânticos. É assim que se preparava ela para o espírito de penitência a par do de oração que já chegava a seus mais elevados graus."

"ESPÍRITO DE PENITÊNCIA" — "O primeiro fato sensível que se operou na pessoa a que me refiro (Maria de Araújo), relativamente a (sic) paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, digo a Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, foi o seguinte: Assisti Maria de Araújo ao Mês das Almas, e isso na oitava de todos os Santos de 1883 a 1884, quando sentiu ela que alguém lhe dava um amplexo (abraço), ficando impressa no peito (de Maria de Araújo) uma cruz a deitar sangue, do que fui eu mesmo testemunha."

"FATOS EXTRAORDINÁRIOS" — Primeira sexta-feira de março de 1889. Associação do Sagrado Coração de Jesus reunida na capela de Juazeiro, onde o P. Cícero fazia uma "Comunhão reparadora pelas necessidades da S. (santa) Igreja". Maria de Araújo e outras senhoras haviam passado a noite em vigília de orações. Pelas cinco horas da manhã, o P. Cícero resolveu dar a comunhão às mulheres. "Pela primeira vez a vi (o P. Cícero viu Maria de Araújo) então tomada de um rapto extático ("rapto extático", por êxtase), resultando segundo ela (Maria de Araújo) a transformação da Sagrada Hóstia em sangue, tanto que além do que ela não sorveu (não comungou), parte caiu na toalha e parte caiu mesmo no chão, do que tudo foram testemunhas seis a oito pessoas que com ela (Maria de Araújo) tinham comungado." Houve outra transformação no "sábado da Paixão". Daqui em diante, tais transformações passaram a ser diárias, "até a Ascensão do Senhor" (subida de Jesus Cristo ao céu). Maria de Araújo tinha medo dos fenômenos verificados, pelo que pretendeu deixar de comungar, o que não fez porque Deus, a uma pergunta sua acerca da natureza dos fatos, lhe respondeu: "É isso uma manifestação de tua fé e da Misericórdia de Deus para com os homens."

NOTA

Relato de quatro dos fenômenos verificados em Juazeiro pela Comissão:

(1) No dia 10.09.1891: três vezes se deu a hóstia consagrada em comunhão à Beata Maria de Araújo; três vezes a hóstia começou a transformar-se em sangue, na boca da comungante, e, extraída, continuou a transformação em uma salva, à vista das vinte e quatro testemunhas convocadas, e de circunstantes.

(2) No dia 10.09.1891: com abundância de sangue, operou-se a crucifixão no corpo da Beata Maria de Araújo, deitada numa rede na casa do P. Cícero, fato presenciado pelas treze testemunhas convocadas, e por circunstantes.

(3) No dia 11.09.1891: quatro vezes se deu a hóstia consagrada em comunhão à Beata Maria de Araújo; quatro vezes a hóstia começou a transformar-se em sangue, na boca da comungante, e, extraída, continuou a transformação em uma salva, à vista das vinte e seis testemunhas convocadas, e de circunstantes.

(4) No dia 12.09.1891: três vezes se deu a hóstia consagrada em comunhão à Beata Maria de Araújo; três vezes a hóstia começou a transformar-se em sangue, na boca da comungante, e, extraída, continuou a transformação em uma salva, à vista das vinte e nove testemunhas convocadas, e de circunstantes.

"ÊXTASES" — "De há muito davam-se na devota (Maria de Araújo) de que me ocupo raptos de espírito, verdadeiros êxtases, mas após a primeira sexta-feira de março de mil oitocentos e oitenta e nove é que tornaram-se mais longos e freqüentes: duram algumas vezes, cerca de cinco horas e é deles revocada (chamada a voltar ao estado normal) sempre que assim lhe é mandado por obediência. Suas íntimas comunicações com Deus, dão-se sempre em estado extático."

"ESTIGMAS" — Os êxtases vinham de 1885, por aí, "mas com interrupções". "Nesse estado de estigmas, via-se sangue em sua testa (testa de Maria de Araújo) a sair como de uma coroa de espinhos, nas mãos, um como que cravos, no lado uma chaga que só na Quaresma do corrente ano (1891) chegou a cicatrizar, jorrando destes estigmas copioso sangue."

"COMO NISSO (eu, P. Cícero) PROCEDI" — No princípio dos fenômenos, observados de 1889 a 1891, as transformações da hóstia em sangue, em carne, em coração eram testemunhadas apenas pelo P. Cícero, que entendeu ser necessário "que outras pessoas, tanto eclesiásticas como leigas, que fossem dignas de fé, as testemunhassem". "Efetivamente, assim aconteceu e (eu, P. Cícero) guardo o registro de mais de mil pessoas que foram testemunhas presenciais, entre as quais dois médicos (Inácio de Sousa Dias e Marcos Rodrigues Madeira) e um farmacêutico (Joaquim Secundo Chaves), que tudo isso observaram diversas vezes e no curso de duas a três horas." P. Cícero encerra a exposição declarando não haver tempo para mais informações e julgando como "autênticos" os "Atestados e Relatórios Médicos", datado em Crato de 26.09.1891 e assinado pelos referidos médicos, e o "Memorial do Farmacêutico Tenente Joaquim Secundo Chaves", datado em Crato de 07.10.1891.


Da resposta da beata Maria de Araújo ao "Auto de Perguntas" do P. Clycério da Costa Lobo. Juazeiro, 09.09.1891

Chama-se Maria Madalena do Espírito Santo de Araújo, filha de Antônio da Silva Araújo e Ana Josefa do Sacramento, 29 anos incompletos, solteira, costureira, não sabendo ler nem escrever, havendo sofrido de "ligeiros incômodos de estômago" e "ataques nervosos", estes cessados havia cerca de cinco anos. Que numa queda de ataque nervoso "teve uma vez um escarro de sangue". Alimenta-se regularmente e é dada a práticas de piedade desde os nove anos de idade. A princípio, não identificava as visões, que tinha. Porém, de seis anos para cá, elas se tornaram identificáveis, "porquanto Nosso Senhor Jesus Cristo e a Virgem Santíssima, se lhe comunicavam, dando-lhe direções espirituais". Essas visões lhe melhoravam o entendimento dos "mistérios divinos". Sua meditação particular é sobre a paixão e morte de Jesus Cristo. Tem conversado com Jesus Cristo, que da beata usaria para "revelações futuras", pois Jesus Cristo tencionava "fazer deste lugar (Juazeiro) uma porta do céu e um lugar de salvação para as almas". A primeira transformação da hóstia em sangue ocorreu "na primeira sexta-feira de março de mil oitocentos e oitenta e nove", e vem repetindo-se até esta data. Não sabe, porém, se a hóstia toma a forma de carne ou a forma de coração, consoante dizem, isto por causa da perturbação que a toma nestas ocasiões. O sangue apresentado na boca da depoente é em considerável quantidade, "a maior parte das vezes". Por "revelação particular", tem certeza de que o sangue não é seu, "tanto que não experimenta enfraquecimento algum, nem alteração de qualquer espécie em sua saúde, notando-se mais que nestas ocasiões a Sagrada hóstia move-se na língua até tocar o céu da boca; e isso sempre". Tem tido êxtases, estado no qual tem visto Jesus Cristo "recomendando-lhe a consagração dela a Ele próprio tanto por si mesma como por todos os que não o amam". Que é revocada com ordem do diretor espiritual (P. Cícero) ou "a mandado de qualquer sacerdote debaixo de obediência". Tem tido estigmas que duram de cinco a seis horas. Tem tido exsudações (suores) de sangue, quando medita na paixão e morte de Jesus Cristo, vindo a sentir dores fortes. Que tem chagas em seu corpo como sinais do amor de Deus, segundo Ele lhe tem revelado. Que na fronte sente como a coroa de espinhos, e cravos nas mãos e nos pés, com "veemente dor", que a faz amar a Deus ainda mais. Que celebrou com Jesus Cristo um casamento espiritual na capela do SS. (santíssimo) Sacramento, "em presença de Maria SS. (santíssima), de S. (são) José, de coros de anjos e de virgens". Teve revelação de que a Juazeiro afluiria grande multidão de gente de diversas partes, todos com intenções de penitenciar-se dos pecados, o que, segundo Jesus Cristo, "se operaria para avivar a fé da presença real dele na eucaristia já muito enfraquecida nestes últimos tempos". Tem tido tentações de demônios disfarçados "ora na pessoa de Jesus Cristo, ora na da SS. Virgem, ora em anjos e na do próprio confessor (P. Cícero)". Tem tido comunhões miraculosas, dadas diretamente por Jesus Cristo, "que as tirava do seu coração entreaberto" e lhe dizia que comesse da Sua carne e bebesse do Seu sangue, que passavam a ser o sustento da alma da comungante. As comunhões eram umas vezes sob a espécie de pão e, outras vezes, de sangue. A partícula dada por Jesus Cristo quase sempre era ensangüentada e para evitar obra do demônio, a beata devia receber a bênção do confessor ou de outro padre. Que Deus lhe permitiu ir em espírito ao purgatório e com Ele salvar almas, algumas destas suas conhecidas na terra. Queixando-se ela a Deus de não O amar suficientemente, Ele lhe prometeu: "Eu te darei um coração capaz de me amar." Que na idade entre seis e sete anos, chegava a brincar com o Menino Jesus, pessoa que só agora (nos tempos mais recentes) identifica. O Menino a preparava para a penitência (confissão) e a eucaristia (comunhão). Ouviu do Menino que mandaria para cá um sacerdote para dirigi-la espiritualmente, sacerdote esse unicamente preocupado com a salvação das almas.

 

Testemunhos

Os fatos, a seguir, são sínteses entremeadas de excertos dos autos do inquérito eclesiástico feito pela primeira Comissão episcopal nomeada para verificação dos "milagres", — os fenômenos das transformações das hóstias consagradas ora em sangue, ora em sangue-carne, ora em sangue-coração humano, ora em sangue-água, — que vinham ocorrendo aqui em Juazeiro do Norte. Presidente da comissão: Padre Clycério da Costa Lobo. Secretário da comissão: Padre Francisco Ferreira Antero. Bispo que nomeou a comissão: Dom Joaquim José Vieira, da Diocese de Fortaleza.

Nenhuma testemunha nega os fatos. Ninguém se refere a embuste. Ninguém duvida da sinceridade do P. Cícero, da honestidade de Maria de Araújo. Os fatos foram espontâneos.

O secretário da Comissão (padre-doutor Francisco Ferreira Antero, teólogo formado em Roma) lavrou cinco termos de verificação da transformação da hóstia, um termo para cada fenômeno; dois termos de crucificação da beata Maria de Araújo, um termo para cada crucificação; um termo de abertura de caixa contendo panos (sanguinhos) manchados de sangue (09.10.1891); um termo de vinte e seis graças alcançadas (milagres) (13.10.1891).

Os padres Clycério da Costa Lobo e Francisco Ferreira Antero não eram levianos e por sua formação intelectual não podiam ser enganados facilmente. O relatório da Comissão foi favorável aos fatos observados, resultado desagradável a Dom Joaquim, que nomeou nova comissão: Padre Antônio Alexandrino de Alencar (presidente) e Padre Manoel Cândido dos Santos (secretário). O relatório desta (segunda) Comissão deu aos fenômenos extraordinários o pretendido resultado desfavorável.

O médico Ildefonso Correia Lima deu atestado favorável à sobrenaturalidade dos fenômenos aqui observados nas hóstias.

O médico Inácio de Sousa Dias deu segundo atestado, desmentindo o primeiro, este assinado com Dr. Marcos Rodrigues Madeira.

Monsenhor Francisco Rodrigues Monteiro, reitor do Seminário de Crato, primeiro a referir-se aos fatos como milagres, estava tão convicto disto, que chegou a dizer que queria cegar, se viesse a negar o que estava dizendo. Findou negando tudo. E cegou.

Cumpre notar que os peritos não deram atestados lacônicos, tipo atesto que examinando Maria de Araújo constatei que na boca da dita pessoa a hóstia tomada em comunhão transformou-se espontaneamente em sangue, ou em carne, ou em coração, com local, data e assinatura do atestante. Os atestados são documentos circunstanciados: referem o local, os procedimentos adotados para o exame, a iluminação ambiental, os circunstantes, e dão a opinião dos peritos quanto aos fenômenos por eles observados no exame. Maria de Araújo foi submetida ao incômodo manter a boca aberta durante minutos, para os peritos e as testemunhas observarem perfeitamente a transformação da hóstia em sangue.

José Joaquim Teles Marrocos, culto, latinista, professor, jornalista, abolicionista, primo do P. Cícero, ex-seminarista com este, em depoimento à Comissão (em 12.10.1891), declarou-se pasmado com os fatos virem-se repetindo no correr dos últimos três anos, terem ocorrido mais de uma vez sob a vigilância dos emissários do bispo D. (dom) Joaquim José Vieira e as vistas de pessoas idôneas, algumas das quais ouvidas como testemunhas pelos padres comissários, e ainda assim, contra comezinhas regras de direito, que se satisfazem com a ouvida de duas ou de três testemunhas, persistir a ouvida de testemunhas numa superabundância de provas orais. Em atenção à coerência deste depoimento, escrito de próprio punho, e pela sua importância no contexto, transcrevo:

Este fato maravilhoso, extraordinário, sobrenatural, divino (como quer que a Santa Igreja venha qualificá-lo, ou defini-lo) que V. (vossa) Rvma. (reverendíssima) mesmo teve várias vezes sob a inspeção vigilante de seus sentidos e sob a visão intelectual de sua alma, não é novo e nem data de hoje.

3 anos, mais ou menos, que ele agita em derredor de si a atenção de todos, a curiosidade do homem vulgar e a investigação do homem curioso, a objeção do céptico e o exame da ciência, as homenagens francas e expansivas da boa vontade e as reservas intencionais e tépidas do cálculo e sobretudo a provação do que duvida e a provação do que crê; que ambos exigiram o milagre: um (o que duvida) para que pudesse assim crer e outro (o que acredita) para que fosse afirmar sua crença.

Assim, pois, nenhuma dúvida sobre sua existência, que viram-se, não uma senão muitas vezes, e afirmaram-se sob a palavra da consciência e a fé do juramento de centenas e milhares de testemunhas, quando, segundo a lei e o direito, bastava para fazer-lhe prova plena, o depoimento de duas ou três testemunhas de vista.

Qual seja porém, sua causa eficiente e sua procedências, revelam-no circunstâncias e fatos de ordem superior, que levaram de vencida contradições e contrariedade da vontade e da atividade humanas.

Segundo José Marrocos, o "Diario do Commercio da Corte", em 19.08.1889, sugeriu ao P. Cícero "ocultar quanto acontecia"; já o "Diario de Pernambuco", em 29.08.1889, declarou (e era verdade) que a revelação do segredo se deu contra toda a reserva do P. Cícero.

Quanto a estigmas em Maria de Araújo:

Se a publicidade do milagroso fato se fez contra a vontade humana, se o reconhecimento solene de sua existência teve por si um poder superior e invencível, a qualidade do Culto que se lhe tributou revela, publica e afirma que sangue é esse que continua a dar saúde ao enfermo, movimento ao paralítico, inteligência ao louco, e luz ao cego e graça ao pecador.

Cumpre notá-lo: Dois fatos extraordinários, dois grandes testemunhos de sangue se deram no Juazeiro: a estigmatização (o aparecimento das feridas produzidas no corpo de Jesus Cristo pelos instrumentos da crucificação) de Maria de Araújo e a transformação da hóstia sacramental em sangue. Um e outro teve por espectadores e por testemunhas autoridades eclesiásticas, como V. (Vossa) Rvma. (Reverendíssima) e seu digno Secretário, padres, doutores em medicina, bacharéis em direito, centenas e milhares de pessoas de toda idade, posição, qualidade e condição.

Um e outro (o fenômeno de transformação da hóstia e o fenômeno dos estigmas) produziu também seus efeitos que diferenciaram e distinguiram seu caráter com tanta exatidão, que cada um (fenômeno) deu testemunho do que era e definiu-se por si mesmo de modo a não deixar dúvida.

Com efeito a estigmatização foi sempre um espetáculo mais curioso, sempre teve mais que ver, mas aquela humilde serva de Deus, deitada em pobre leito, com os braços abertos em forma de cruz, desenhada em sangue e coroada de espinhos ao redor de sua cabeça, e esse sangue a correr-lhe sobre os olhos amortecidos e sobre a boca entreaberta e estuando de sede, o peito arfando de mortal agonia, as mãos furadas e os pés borbulhando sangue, nunca pôde excitar na alma cristã de espectador senão um sentimento de admiração.