PADRE CÍCERO

 

Síntese biográfica

Cícero Romão Batista. Nascimento: Crato — CE, no dia 24 de março de 1844. Falecimento: Juazeiro do Norte — CE, em 20 de julho de 1934. Traços físicos: estatura baixa, boa musculatura, pele branca e olhos azuis. Pais: Joaquim Romão Batista e Joaquina Vicência Romana. Irmãs: Maria Angélica Romana (1842 — 1878) e Angélica Vicência Romana (1849 — 1923). Infância: em Crato. Predileções: pegar passarinho, brincar com as irmãs, ouvir histórias, ir à igreja. Não brincava com meninos nas ruas. Vocação religiosa: originou-se da leitura de uma biografia de São Francisco de Sales. Estudos: em Crato, em Cajazeiras - PB e no Seminário da Prainha, em Fortaleza. Ordens: padre no Seminário da Prainha, em 30 de novembro de 1870.

Síntese do apostolado

Ordenado, o Padre Cícero voltou para o Crato. Veio ao povoado de Juazeiro celebrar a missa do Natal de 1871, a convite da população, que estava sem padre. Transferiu-se para Juazeiro, em 11 de abril de 1872: em sonho, Jesus Cristo lhe dava a missão de “tomar conta daquele povo”.

Para conter os desordeiro, recorreu aos pecados maiores — beber, roubar e matar: “Quem bebeu, não beba mais; quem roubou, não roube mais; quem matou, não mate mais.”

Ensinou a população a trabalhar e a rezar o “rosário da Mãe de Deus”. Introduziu o culto ao Coração de Jesus e afervorou a devoção a Nossa Senhora das Dores.

Não cobrava pelos serviços prestados. Subsistia de espórtulas. Necessitados não lhe faltavam em casa, aberta a todos indistintamente. Com freqüência, o dinheiro que recebia dava imediatamente a quem lhe chegasse a pedir naquele instante.

Virtuoso e sincero, mereceu a confiança de quase toda a população. Tornou-se amigo, confidente, compadre e padrinho — Padim Ciço. O povoado foi a vila. A vila tornou-se oficina e altar. De dia, trabalho. De noite, oração. A todos acolhia com solicitude. Tolerante e compreensivo como um bom pai. Tornou-se Patriarca.

Da primeira sexta-feira de março de 1889, pelo menos até 9 de setembro de 1891, hóstias dadas em comunhão a Maria Madalena do Espírito Santo de Araújo (Beata Maria de Araújo), pouco depois de postas em sua língua, deitavam sangue em quantidade que requeria sanguinhos para o limpar da boca da comungante, e nelas algumas vezes se viu a forma do coração humano, uma pasta como de carne.

Os “milagres”, ocorridos na igreja, depressa correram de boca em boca, atravessaram fronteiras, tornaram-se conhecidos de todo o Brasil.

Tais fenômenos fizeram que levas e levas de pessoas demandassem o povoado, ávidas de conhecer o Padre, de um refrigério espiritual, como se a cura física, o milagre, a salvação da alma fossem mero querer do Patriarca. Iniciavam-se ali as romarias. Com elas, nasceram, igualmente, os sofrimentos do Padre Cícero com a incompreensão dos superiores eclesiásticos.

Alguns dos romeiros decidiam ficar na vila, cuja população e cujos problemas foram aumentando de forma inesperada. Mais preocupações para o Padre Cícero.

Investigados por homens de ciência e pelo Diocesano, os fenômenos das hóstias não aparentaram sinal de embuste. Mesmo assim, não foram cridos pela Igreja. Embora certo de que os fatos eram coisa sobrenatural, possivelmente uma manifestação divina, um milagre, o Padre Cícero foi constrangido a negá-los do púlpito.

A crescida intransigência da Igreja não pôs freios à credulidade do povo, que já tinha preparado o altar para o Padre Cícero, fato não visto pelos hierarcas.

O Diocesano proibiu que em Juazeiro se batizasse criança com o nome de Cícero.

Não tardou o padre ser suspenso das ordens. Homem reto e puro de sentimentos, as reouve em Roma. A Diocese de Fortaleza, todavia, fez-se maior do que o Santo Ofício: ignorou o decreto de absolvição do sofrido sacerdote e de novo o sujeitou a restrições, que chegaram, inclusive, a limitar as atividades eclesiásticas de outros padres da região. Tolhido embora nas funções de sacerdote, o Padre Cícero confirmou sua obediência ao Diocesano.

Em nenhum momento da vida o P. Cícero renegou a Igreja. Em Roma, nunca esqueceu a mãe, velha e doente, a irmã Angélica Vicência, nem “o pobre povo” de que “tomava conta”, deixados na agora terra dos milagres. E só por eles, - a família e o povo, - ainda voltava para o Brasil. Esta confissão, em carta por ele escrita de próprio punho, deixa ver a angústia de quem gastou toda a vida em fazer o bem, sem ódio, sem vingança, sempre disposto a perdoar, apesar de sumamente injustiçado.

Em virtudes, difícil distinguir o Padre Cícero maior destes dois: o Padre Cícero, que, nos últimos minutos de vida diz: “No céu pedirei a Deus por vocês todos”, e o Padre Cícero que, em certo momento da vida, afirma: “Perdôo a todos os que talvez façam essas coisas entendendo que estão fazendo bem. Nosso Senhor os salve junto comigo no céu.

Apostolado

O Padre Cícero veio morar definitivamente no aglomerado de casebres chamado Juazeiro, distrito de Crato, em 11 de abril de 1872. Era o sexto capelão do lugarejo.

Padre, com todo o vigor físico (28 anos de idade), comprometido em sonho com Jesus Cristo para olhar pela salvação da alma daquele povo, encontrou ali uma população de pobres, no meio dos quais se contavam desordeiros de várias ordens.

Homem puro de costumes e temente a Deus, logo o Padre Cícero percebeu que lhe impunha chamar à ordem a súcia, primeiro fazendo-lhe respeitar as famílias; segundo, encaminhando-a para o trabalho; terceiro, ensinando-lhe o perdão das ofensas; quarto, exigindo-lhe a continência dos apetites; quinto, trocando-lhe as armas, a bebida e os sambas pelo “rosário da Mãe de Deus”.

As virtudes do padre começaram a ser percebidas por quase toda a pequena população do lugar. Logo, logo estavam fora dos limites do povoado. Com esta isca, o pescador de almas as apanhava no rio da indiferença e as trazia para Deus.

Jamais o Padre Cícero se negou a ouvir em confissão, a qualquer hora; a ir administrar sacramentos a enfermos em casa destes. Sem comodidades, sem estipêndio, repete-se. Quando se transportava aos sítios para administrar viático, não raras vezes era visto a dormir na sela do cavalo, vencido pelo cansaço.

As funções típicas de sacerdote foram agravadas com as de administrador moral da vila, que ia tomando proporções de cidade.

Diariamente, no fim da tarde, a população era chamada a rezar com o padre, na casa deste, na Rua de São José. Os sermões tinham sempre em vista a caridade, a solidariedade, a mansidão, a tolerância, a honestidade, o respeito às pessoas e aos bens.

Invariavelmente, o padre repetia estes conselhos aos fiéis, para que nunca esquecessem de os praticar:

Quem bebeu, não beba mais: a cachaça é um poderoso agente de satanás. Quem matou, não mate mais: ninguém tem o direito de ofender o seu semelhante; só Deus tem o poder de tirar a vida de suas criaturas. Quem roubou, não roube mais: quem rouba vai para o inferno. Quem mentiu, não minta mais: a mentira é filha do diabo e o mentiroso seu encarregado. — Amália Xavier de Oliveira. O Padre Cícero que eu Conheci, p. 42.

Antes de despedir os fiéis com a bênção, o padre costumava fazê-los repetir com ele sua oração pessoal:

Mãe de Deus, Mãe soberana, Mãe das Dores: de hoje para sempre eu me entrego a vós como vosso filho e servo, consagro ao vosso serviço a minh’alma, o meu corpo e tudo o que me pertence. Abençoai a minha família, os meus trabalhos, os meus haveres. Sede minha protetora na vida e conduzi-me ao céu para viver feliz por toda a eternidade. Amém. — Amália, p. 43.

As boas qualidades do padre não lhe garantiam unanimidade: sempre houve quem dele discordou, quem o desqualificou, porém ele jamais deu ouvidos a maledicência, nem os teve para aplausos.

Na manhã da primeira sexta-feira de março de 1889, durante a missa, ao dar a comunhão a Maria de Araújo, observou que na boca da comungante a partícula se mudou em sangue, rubro e vivo; no centro da hóstia, a forma do coração humano. A religiosa entrou em êxtase. O sangue transbordou da boca da beata, excesso que o padre diligentemente enxugou com sanguinho.

A quantidade de pessoas presentes na igreja impediu o padre de manter o devido sigilo do fenômeno, não lhe valendo pedir reserva do fato.

O fenômeno repetiu-se muitas vezes. Cresceu na igreja o número de devotos, que iam ouvir a missa. Vieram, também, os simplesmente curiosos. Todos queriam ver o “milagre”.

Multidões de pessoas de cidades vizinhas e de outros Estados acorriam a Juazeiro, de forma espontânea, crescente e incessante. Eram os romeiros, que venciam distâncias a pé, a cavalo. Todas queriam visitar a terra dos milagres, ver o padre, talvez buscando a porta que se abre para o céu.

A reação da Igreja foi pronta. Dom Joaquim José Vieira, da Diocese de Fortaleza, constituiu comissão eclesiástica de inquérito para apurar os fatos de Juazeiro. Designou presidente o Padre Clycério da Costa Lobo, e secretário, o Padre-Doutor Francisco Ferreira Antero. O inquérito começou no dia 9 de setembro de 1891.

Antes da missa do dia 25, na qual a beata Maria de Araújo ia receber a comunhão, teve ela a língua e a boca examinadas pelos médicos Marcos Rodrigues Madeira e Ildefonso Correia Lima e o farmacêutico Joaquim Secundo Chaves, em presença do Padre Clycério da Costa Lobo e do Padre Joaquim Sother de Alencar. O termo está assinado pelos padres Clycério da Costa Lobo e Francisco Ferreira Antero; pelos doutores Inácio de Sousa Dias, Marcos Rodrigues Madeira e Francisco Antônio de Oliveira Praxedes; e por José Rodrigues Monteiro, Manoel Rodrigues Monteiro, Joaquim Secundo Chaves, Antônio Alves de Carvalho Lima e Padre Joaquim Sother de Alencar, nessa ordem.

A conclusão foi que não havia ferida na boca nem na língua da beata e que o fenômeno da transformação da hóstia era um fato sobrenatural, não explicável pelos conhecimentos científicos dos peritos. Não havia embuste.

NOTA

Cautelas do Bispo Dom Joaquim José Vieira com os fenômenos, que na Diocese de Fortaleza eram tidos como embuste:

(1) Em carta reservada (sem local e sem data, no livro) ao P. Cícero, o P. Clycério lhe disse que “antes mesmo da real tradição (entrega) do processo” ao bispo Dom Joaquim José Vieira, achou estar este “muito prevenido contra os negócios de Juazeiro e não bem disposto a aceitar provas em favor do caráter divino daqueles mesmos fatos”. (Azarias, p. 319.)

(2) Na carta reservada, de 24 de novembro de 1891, de Fortaleza, disse o P. Clycério ao Padre Cícero estar Dom Joaquim “magoado por lhe parecer que os Padres se opõem à direção que ele (o bispo) tem dado a esse negócio”, e temer “uma igreja na Igreja”. “Esperemos, meu amigo, e veremos se o processo consta de coisas ridículas, como aqui se vai dizendo”, acrescentou o P. Clycério, em conforto mútuo. (Azarias, p. 320-1.)

O Diocesano da Capital continuou insensível à realidade. Empanou a conclusão. Na Portaria de 6 de agosto de 1892, D. Joaquim José Vieira determinou que o Padre Cícero não podia pregar nem confessar na Diocese e nem celebrar em Juazeiro.

Insatisfeito com o resultado da comissão, o Diocesano designou os padres Antônio Alexandrino de Alencar e Manoel Cândido dos Santos para nova comissão.

Os padres da segunda comissão eclesiástica de inquérito ficaram na Casa de Caridade de Crato, em cuja capela a Beata Maria de Araújo recebeu comunhões nos dias 20, 21 e 22 de abril de 1892, em presença de várias testemunhas. Após a comunhão do dia 22, a beata manteve a boca aberta por quinze minutos. Nenhuma transformação da hóstia foi observada nas três experiências. No dia 9 de agosto de 1892, a Comissão ouviu duas testemunhas: o coronel Juvenal de Alcântara Pedrosa (comerciante) e João Batista de Siqueira (bacharel em Direito). Não havia milagre.

A conclusão foi acatada pelo Bispo.

Para angústia do Padre Cícero, os “milagres” foram negados por padres que, anteriormente, se proclamaram crentes convictos da sobrenaturalidade dos fatos.

José Joaquim Teles Marrocos (José Marrocos), ex-seminarista contemporâneo do Padre Cícero e seu primo, professor e jornalista, cria com sinceridade na natureza divina do fenômeno. Ele e outros cidadãos protestaram veementemente contra o caráter perfunctório da investigação dos “fatos miraculosos”. Em vão.

O inquérito foi remetido para Roma, que ratificou D. Joaquim José Vieira.

Poucos negavam a inteireza de caráter e a constância do Padre Cícero na prática das virtudes cristãs.

A Diocese e Roma não pôde conter o crescente número dos crentes nos “milagres”.

As romarias aumentavam a cada visita. Atingiram o ápice depois de falecido o Padre Cícero, que pediu aos romeiros que não deixassem de vir a Juazeiro visitar a Mãe das Dores e permanecessem fiéis à Santa Igreja, fora da qual não há salvação.

O Padre Cícero nunca teve dúvida de os fenômenos das hóstias dadas em comunhão à Beata Maria de Araújo serem manifestação de Deus, de modo que o sangue que as partículas deitavam era o próprio sangue de Jesus Cristo, imolado para resgate da humanidade.