INDEPENDÊNCIA POLÍTICA DE JUAZEIRO

 

Conseqüência imediata das transformações de hóstias em sangue foi a suspensão das ordens do Padre Cícero. Em pouco, a gratidão daquele povo simples, falto de escola e de instrução religiosa, desvalido do governo, sujeito a tropelias de malfazejos que tinham no lugar a garantia da impunidade pelos crimes cometidos, transmudou o Padre Cícero em Patriarca. Na linguagem sem atavio de quem não tem escola e numa expressão de subida honraria, — Padim. Como cada habitante lhe queria com exclusividade para si, o egoísmo inconsciente o apelidou de — Meu Padim.

Proibido de pregar ao seu povo, de ouvir o seu povo em confissão, o Padre Cícero, inevitavelmente, teria de procurar um meio que lhe permitisse assisti-lo. Aliás, além de sua natural inclinação à caridade, havia assumido com Jesus Cristo um compromisso inquebrável: tomar conta daquele povo e salvar-lhe a alma.

A primeira providência era obter a autonomia política de Juazeiro, ainda sob o Crato. Havia já um movimento, sem líderes capazes de atiçar a fagulha para dar incêndio.

Em 1907, veio para a cidade o inflamado P. Joaquim de Alencar Peixoto, nascido em Crato. Espírito irrequieto, logo entrou no grupo de pessoas que trabalhavam pela autonomia da cidade. Este gesto encorajou outros cidadãos.

Em 1908, chegou o médico Floro Bartolomeu da Costa, procedente da Bahia. Inicialmente, ficou na casa do Padre Cícero, vindo a ser o homem mais influente e acatado na cidade, depois do padre. Deu-se, igualmente, à causa de Juazeiro.

De 1908 data a chegada de José Joaquim Teles Marrocos, nascido em Crato.

O movimento tomou força e corpo.

Panfletista e crítico impiedoso, o P. Alencar Peixoto distribuiu um Boletim convidando a população para reunir-se ao meio-dia do domingo, em casa do Major Joaquim Bezerra de Menezes.

Em Juazeiro, quase tudo se fazia com o consentimento do Patriarca, que a alguém, que o admoestou de trabalhar contra sua terra natal, respondeu: “Sou filho de Crato, mas Juazeiro é meu filho.”

A contar daquela reunião, o fogo da liberdade não arrefeceu nos moradores.

O P. Alencar Peixoto fundara o jornal O Rebate. O Padre Alencar Peixoto não poupava ocasião de achincalhar o Crato em matérias publicadas.

A relutância de Crato em libertar Juazeiro era de ordem pecuniária, pois a cidade concorria com boa soma de contos de réis para o orçamento daquele Município.

A proposta de ser reconsiderada a decisão de cessar o pagamento de impostos a Crato foi acolhida pelo Padre Cícero, porém somente para o ano corrente.

A Lei n.º 1.028, de 22 de julho de 1911, elevou Juazeiro a vila e sede do novo Município.

O Padre Cícero foi escolhido prefeito. O P. Alencar Peixoto, que nutria o desejo de ter o cargo, sentiu-se preterido. Mudou-se de Juazeiro e em terrível inimigo da cidade e do seu povo. Com a tinta do seu azedume escreveu o Juazeiro do Padre Cícero.

O Padre Cícero era o prefeito de direito. O prefeito de fato era Floro Bartolomeu, homem duro, talvez além do necessário.