DUAS CRÔNICAS DO AUTOR
ROGA POR NÓS - 06.02.94
(Do livro Crônicas,
do autor)
Giovanni di Pietro di Bernardone, nascido aí por 1182, na cidade de Assis, na Itália, onde faleceu, na tarde de 3 de outubro de 1226. Um estróina. Um guerreiro. Um santo.
O pai o encaminhou para o lucrativo comércio de tecidos, atividade em que o filho revelou menor aptidão do que na boêmia e na luta contra a Perússia.
Contava vinte e quatro anos, quando, havendo retornado da campanha, se deu ao serviço de Deus, despojando-se e devolvendo ao pai as roupas e o nome: tomou as vestes de eremita e o nome de Francisco.
Se nas tabernas não encontrou quem lhe tomasse o volúvel coração, no recolhimento, que se dera, encontrou o verdadeiro amor: Cristo.
Tamanho desprendimento levantou a curiosidade
O segundo grande amor da vida: a pobreza, os irmãos, a ordem (Ordem dos Frades Menores, por ele fundada), a igreja de São Damião, a Porciúncula, os animais, a natureza e Clara.
Clara? Sim, Clara, aquela jovem abastada em bens e riquíssima
Doido, a princípio; santo, desde o princípio.
Doido, porque só um doido larga mesa farta e diversão por jejum, oração e
penitência.
Doido, a princípio, para os que o conheceram, antes. Doido, a princípio, para
os que não entendiam, ainda, o significado daquela inexcedível caridade,
daquele inigualável amor aos pobrezinhos.
Santo, desde o princípio, porque Giovanni estava em Francisco, porém Francisco não era Giovanni. Este voltou para o pai. Aquele se encaminhava para o Pai.
Santo, porque só um santo, franzino, fraco e debaixo daquela rigorosa penitência, dá a um coitadinho o pedaço de pão que tem para jantar, e dorme com fome.
Doido-santo, porque só um doido, que seja santo, em pleno rigor do inverno europeu, se desnuda e enterra no gelo para apagar o fogo da carne.
Paremos. Não pense você que ensaio para hagiógrafo. Digo menos do que você pode ler num livro de biografias, ou num verbete de enciclopédia. Aliás, nem digo. Desabafo: já não agüento o "é dando que se recebe" praticado por aí e metido num hino cuja autoria se dá ao Pai-dos-pobres, que não era dado às letras.
Ah! Francisco! Tu, pequeno em estatura e gigante em virtudes; tu, que experimentaste na carne os estigmas de Cristo, que te assinalaram; tu, que estás com Cristo ao lado do Pai, dá vergonha aos homens aqui debaixo. Cura os leprosos do espírito. Roga por nós.
SANTO DO CORAÇÃO — 05.03.94
(Do livro Crônicas,
do autor)(Publicada nos jornais O Povo e
Tribuna do Ceará)
Se você é um turista desligado, admito que não conheça algo da nossa realidade: cidade pobre, sem muitas opções de lazer e carente de uma série de coisas essenciais, que podem ser encontradas em boas cidades brasileiras de porte médio. Somos uma cidade crescida, mas não uma grande cidade. Assim, é possível que você retorne aborrecido para casa, por não ter descansado com a paisagem aqui encontrada, na qual se trabalha para que tenha melhor aparência, ainda que pelo fim do século. Não se abata. Areje a mente com alguma coisa leve. Sempre existe uma novidade que nos prende a atenção: o maneiro-pau, o cantador, o embolador. Você é especial para nós aqui da Tribo. Seja bem-vindo.
Se você é um pesquisador, veio para estudar. É possível que conheça melhor a nossa realidade do que nós mesmos a conhecemos. Espero que possa aproveitar este 24 de março de 1994 para melhorar suas pesquisas com material do sesquicentenário do nascimento do Padre Cícero. O campo é fértil, e, as fontes, acessíveis. Ser simples como o somos é facilitar a colheita. Talvez seja esta a última oportunidade para colher de algumas fontes orais: o tempo continua a matar os seus filhos. Seja bem-vindo.
Se você é romeiro, então é de casa: sabe que Juazeiro do Norte é uma terra mais de sofrer do que de prazer. Quem vem para cá deve trazer um saco de paciência ao invés de um saco de dinheiro, como disse o aniversariante de hoje. Seja bem-vindo.
Se você apenas está passando por esta cidade, não tem de conhecer nada sobre nós. Talvez nunca tenha ouvido falar no Padre Cícero, cujos 150 anos de nascimento estamos comemorando hoje. Seja bem-vindo.
Afinal, quem foi o Padre Cícero?
Estatura pequena, pele branca e olhos azuis, Cícero Romão Batista, — PADRE
CÍCERO, — nasceu ali na vizinha cidade de Crato, no dia 24 de março de 1844, do
casamento de Joaquim Romão Batista com Joaquina Vicência Romana, — chamada Quinô. Criança retraída, gostava
de rezar e de ouvir os mais velhos conversar. Foi estudar em Cajazeiras — PB,
no colégio do Padre Inácio de Sousa Rolim. Morrendo o
pai, regressou ao Crato, para cuidar da família, que era pobre. O padrinho de
crisma de Cícero, Antônio Luís Alves Pequeno, o encaminhou ao Seminário da Prainha, em Fortaleza, do qual o afilhado sairia padre, não
sem ferrenha oposição a que recebesse as ordens, por não corresponder ao modelo
de sacerdote concebido pelo reitor do seminário. Padre no dia 30 de novembro de
1870, voltou para o Crato. Foi ensinar latim no colégio do seu primo José Joaquim Teles Marrocos, — JOSÉ MARRROCOS, — ex-colega
de seminário. Veio aqui celebrar a missa do Natal de 1871: o povoado, do
município de Crato, estava sem padre, embora contasse uma capela a Nossa
Senhora das Dores, erigida pelo fundador da cidade, Padre Pedro Ribeiro de
Carvalho. Não tínhamos padre, porque nenhum queria morar em terras tão
atrasadas, quando podia ser missionário na Europa, ou em outra parte do Brasil.
Voltou outras vezes. Ficou, depois de uma visão:
Cristo lhe confiava os cuidados com aquela gente faminta, que lhe apresentou.
No povoado, ganhou fama como conselheiro, apaziguador, ordeiro, caridoso e
abnegado. Trocou armas pelo rosário e pelo trabalho. Fundou escolas. Tornou-se
padrinho do povo. Trabalhou pela estrada de ferro e doou os terrenos para o
campo de avião e o campo de futebol. A partir de 1.º
de março de