JUAZEIRO ANTIGO



Entre os municípios de Missão Velha, Barbalha, Crato e Caririaçu havia a Fazenda Tabuleiro Grande, do Brigadeiro Leandro Bezerra Monteiro.

Caprichosamente, três juazeiros dominavam um cômoro da fazenda. A amenidade do sítio o fez preferido dos que iam às feiras ou ao comércio das vizinhas cidades, os quais marcavam encontro nos juazeiros. Sob a acolhedora sombra das árvores, descarregavam os animais, que punham a pastar, alimentavam-se e passavam a hora do meio-dia. Da árvore tirou-se o nome da cidade.

Um neto do fazendeiro havia-se ordenado padre em Olinda, e demandara o sertão, voltando às origens. Para que o Padre Pedro Ribeiro de Carvalho tivesse onde celebrar missa, o tio mandou construir uma capela, que ficou sob a invocação de Nossa Senhora das Dores.

Ao morrer o avô, uma parte da fazenda foi dada por herdeiros ao Patrimônio de Nossa Senhora das Dores, a que o padre acresceu os próprios haveres. Formou-se um lugarejo, que por morte do Padre Pedro Ribeiro de Carvalho teve mais quatro capelães antes de o Padre Cícero o assumir.

Domiciliado no povoado, o Padre Cícero deu conta de que no lugar dominava o arbítrio dos valentões, que ali se homiziavam favorecidos pelo despoliciamento, em prejuízo da paz e da honra das famílias ordeiras e humildes. Urgia combater eficazmente os desmandos. Animado da certeza de que fora o próprio Filho de Deus que lhe determinara, em sonho, "tomar conta daquele povo e lhe salvar a alma", o Padre Cícero investiu contra o "inimigo", não com armas ofensivas, porém com a oração e o trabalho: penitenciar-se dos crimes e o propósito de não mais cometê-los; dar-se ao trabalho para evitar a ocasião de pecar, porque a ociosidade é o próprio Satanás.

A disposição do padre não arrefeceu. Contida, em parte, a ferocidade daquelas criaturas, ele separou a população em grupos, formados segundo as aptidões de cada um morador: agricultores, ferreiros, pedreiros. Classificada a mão-de-obra ociosa, cuidou de acordar nos grupos a disposição para o trabalho, do qual só deveriam sair para a oração.

Anos depois, Juazeiro era aquilo que o Padre Cícero mais queria: oficina e altar. E graças a este governo, a cidade transformou-se num celeiro de artífices, cresceu, prosperou assustadoramente, tornou-se a primeira cidade do interior do Ceará, em população e economia. A primeira, também, na devoção a Nossa Senhora das Dores e ao Coração de Jesus. Em razão do progresso material que o Padre Cícero deu a Juazeiro, substituem o Padre Pedro Ribeiro de Carvalho por ele. Dá-se paternidade a padrinho.